Em meio à reorganização geopolítica mundial, o presidente da China, Xi Jinping, conversou por telefone com Lula na manhã desta quinta-feira, 23 de janeiro. A ligação ocorreu um dia após Donald Trump inaugurar seu controverso ‘Conselho de Paz’ em Davos. Para o cidadão comum que paga impostos e quer viver em paz, o espetáculo é deprimente: três chefes de Estado disputando quem terá mais poder sobre os outros, cada um vendendo sua versão de autoritarismo como salvação.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
Trump quer seu próprio clube de bilionários, Xi quer expandir o dele
Vamos ser diretos: o Conselho de Paz de Trump, que cobra US$ 1 bilhão por cadeira permanente com recursos administrados pelo próprio presidente americano, é obviamente um esquema de poder e arrecadação. Mas a reação de Xi Jinping não é defesa da liberdade – é defesa dos interesses chineses.
Quando Xi diz que Brasil e China devem “defender conjuntamente o papel central das Nações Unidas”, ele não está defendendo você ou sua liberdade. Está defendendo um sistema onde a China tem poder de veto permanente e pode bloquear qualquer resolução que critique seus campos de reeducação de uigures, sua repressão em Hong Kong ou suas ameaças a Taiwan.
A ONU que Xi defende é a mesma organização que coloca ditaduras no Conselho de Direitos Humanos. É o mesmo fórum onde burocratas não eleitos elaboram tratados que afetam a vida de bilhões sem qualquer accountability real. Trocar o esquema de Trump pelo sistema da ONU não é vitória para a liberdade – é trocar um cartel por outro.
Os reais interesses de Xi Jinping no Brasil
Xi declarou que “a China está disposta a continuar sendo uma boa amiga e parceira dos países da América Latina”. Tradução honesta: a China quer acesso garantido a commodities brasileiras – soja, minério de ferro, petróleo – preferencialmente a preços favoráveis e com contratos de longo prazo que blindem suas cadeias de suprimento.
A “parceria sem taxa de entrada” que a China oferece não é caridade. É um modelo de dependência econômica que já conhecemos da África e do Sri Lanka: investimentos em infraestrutura que geram dívidas impagáveis, seguidos de concessões estratégicas quando o país não consegue honrar os compromissos. O porto de Hambantota, no Sri Lanka, foi “alugado” à China por 99 anos após o país não conseguir pagar os empréstimos chineses. Isso não é parceria – é colonialismo com características chinesas.
Enquanto isso, produtos industrializados chineses inundam o mercado brasileiro, competindo com vantagens que incluem trabalho em condições questionáveis e subsídios estatais massivos. O livre comércio é excelente, mas comércio com um Estado que manipula sua moeda, subsidia suas empresas e usa trabalho forçado não é exatamente “livre”.
Os reais interesses de Lula na parceria chinesa
E Lula? O governo brasileiro “ainda avalia” a proposta de Trump, mas já abraça a China com entusiasmo. Por quê? Porque a parceria chinesa oferece exatamente o que governos estatistas adoram: financiamento para projetos grandiosos sem as “inconveniências” de transparência e condicionalidades que instituições ocidentais exigem.
Lula anunciou isenção de vistos para cidadãos chineses, apresentando isso como “reciprocidade”. Mas a verdadeira reciprocidade seria a China permitir que brasileiros acessassem internet livre, criticassem o governo ou organizassem sindicatos independentes em território chinês. Essa reciprocidade não existe.
A aproximação com Pequim também serve a um propósito ideológico: validar o modelo de “capitalismo de Estado” que Lula admira – um sistema onde o governo escolhe vencedores e perdedores, direciona investimentos e mantém controle sobre setores estratégicos. É o oposto do livre mercado que gera prosperidade real.
O Conselho de Paz de Trump: autoritarismo com estética diferente
Nada disso significa que Trump seja a alternativa libertária. Trump declarou que “quando esse conselho estiver completamente formado, poderemos fazer praticamente tudo o que quisermos”. Isso não é linguagem de quem respeita limites ao poder – é linguagem de quem quer carta branca.
Celso Amorim, assessor de Lula, tem razão quando diz que o Conselho representa “uma revogação da ONU” e que “não dá para considerar uma reforma da ONU feita por um país”. O problema é que essa crítica correta não deveria levar ao abraço automático do modelo chinês.
A lista de países que aderiram ao Conselho de Trump é reveladora: Hungria, Argentina, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Turquia, Bielorrússia. É um clube de governos autoritários ou em busca de favores de Washington. Enquanto isso, Noruega, Suécia, França e Reino Unido recusaram. A divisão não é entre “bem e mal”, mas entre quem ainda mantém alguma pretensão de independência e quem está disposto a pagar tributo.
Gaza: quando “paz” significa negócios imobiliários
O cinismo atinge seu ápice no plano para Gaza. Jared Kushner apresentou em Davos um slideshow com arranha-céus elegantes, aeroporto e porto marítimo para a região. É gentrificação em escala geopolítica: primeiro devastar, depois reconstruir com dinheiro dos outros, finalmente lucrar com os imóveis.
Kushner disse que os EUA organizariam uma conferência de doadores para reconstruir Gaza. Repare no modelo: os contribuintes de vários países pagam a reconstrução, mas os contratos e lucros ficam com empresas conectadas ao poder. É o velho capitalismo de compadrio em escala internacional.
Isso não é solução para o conflito palestino-israelense. É um plano de negócios disfarçado de diplomacia, onde pessoas reais são tratadas como obstáculos a serem “realocadas” para que incorporadoras possam construir resorts.
A falsa dicotomia: você não precisa escolher entre impérios
O maior problema do texto original – e do debate público em geral – é apresentar isso como escolha binária: ou você apoia Trump ou você apoia Xi/Lula. Essa é uma armadilha intelectual.
A verdade é que todos os três representam modelos de concentração de poder estatal. Trump quer um sistema onde os EUA (leia-se: ele) controlam a “paz” mundial mediante pagamento. Xi quer um sistema onde a China expande sua influência através de dívida e dependência econômica. Lula quer surfar na rivalidade sino-americana para extrair vantagens para seu projeto de poder doméstico.
Nenhum deles está pensando no cidadão comum que quer simplesmente trabalhar, comerciar livremente e viver sem interferência de burocratas em Brasília, Washington ou Pequim. O “multilateralismo” que Xi e Lula defendem não significa mais liberdade para indivíduos – significa mais fóruns onde Estados negociam como dividir o controle sobre populações.
O que uma posição genuinamente libertária defenderia
Uma política externa libertária não escolheria entre o cartel de Trump e o cartel da ONU/China. Defenderia:
Livre comércio real – não acordos gerenciados entre Estados, mas liberdade para brasileiros comerciarem com quem quiserem, sem tarifas punitivas nem subsídios que distorcem mercados.
Não-intervencionismo – nem participar do Conselho de Paz de Trump nem embarcar em aventuras “multilaterais” que invariavelmente significam gastar dinheiro do contribuinte brasileiro em causas decididas por burocratas.
Neutralidade – o Brasil não precisa ser “parceiro estratégico” de ninguém. Precisa defender sua soberania, o que significa não se subordinar nem a Washington nem a Pequim.
Menos Estado, não mais – enquanto Xi e Lula falam em “fortalecer o Sul Global”, o que realmente fortaleceria brasileiros seria reduzir a carga tributária, simplificar regulações e deixar o setor privado gerar riqueza sem a tutela de planejadores centrais.
O verdadeiro inimigo é o estatismo, venha de onde vier
Críticos alertam que a iniciativa de Trump representa uma tentativa de esvaziamento da ONU. E daí? A ONU já é uma organização falida moralmente, que não impediu genocídios, não resolveu conflitos e serve principalmente como emprego para burocratas internacionais. Substituí-la pelo clube privado de Trump seria ruim, mas defendê-la como se fosse baluarte da liberdade é igualmente absurdo.
A ligação de Xi para Lula não foi “defesa do multilateralismo”. Foi um ditador ligando para um estatista para combinar como enfrentar outro aspirante a autoritário. É disputa por poder, não defesa de princípios.
Para o brasileiro comum, que paga um dos maiores custos tributários do mundo e enfrenta burocracia kafkiana para empreender, essa disputa entre gigantes é irrelevante no melhor dos casos e prejudicial no pior. Não importa se o Brasil se alinhar a Washington ou Pequim – em ambos os cenários, quem paga a conta é o contribuinte.
A única posição genuinamente libertária é rejeitar ambos os lados dessa falsa dicotomia. Nem o Conselho de Paz de Trump nem a “parceria estratégica” com a China servem aos interesses de brasileiros que querem liberdade. Servem apenas aos interesses de políticos que querem mais poder, recursos e relevância internacional – sempre às custas de quem produz e trabalha.
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 23/01/2026 14:30



