A partir de 15 de fevereiro de 2026, qualquer plataforma digital no Vietnã não poderá mais exibir anúncios não puláveis por mais de 5 segundos. A medida pode parecer uma vitória para os usuários, mas expõe uma realidade que todo libertário já conhece: quando o Estado “protege” alguém, outro sempre paga a conta. E dessa vez, advinha quem vai ser?
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O decreto que promete “revolucionar” a internet
O Decreto 342/2025 estabelece que anúncios de vídeo e imagens em movimento devem permitir que usuários os pulem após no máximo 5 segundos. Anúncios estáticos devem ser canceláveis imediatamente, com botões de fechamento claros e diretos. Em teoria, claro, porque na prática… bem, veremos.
Plataformas como YouTube, Facebook e TikTok agora precisam reformular completamente seus algoritmos de entrega de anúncios. Empresas estrangeiras que oferecem serviços publicitários no Vietnã também ficam sujeitas às novas regras. Descumpriu? Multa pesada ou bloqueio total. Simples assim – porque quando o Estado decide “ajudar”, ele sempre tem o chicote pronto.
Na superfície, quem não gostaria de pular aquele anúncio irritante de 30 segundos? O problema surge quando paramos de pensar como consumidores mimados e analisamos quem realmente sustenta essa internet “gratuita”. Cada clique, cada scroll e cada vídeo assistido tem um custo real. E esse custo sempre foi pago pela publicidade – até agora.
A questão fundamental não é se anúncios incomodam – eles incomodam mesmo. A questão é: quem vai pagar quando o modelo publicitário for destroçado por decreto? A resposta é simples: você, de outras formas bem mais criativas.
Como funciona (funcionava) a economia dos anúncios digitais
O YouTube opera com base em CPM (custo por mil impressões), onde anunciantes pagam por cada mil visualizações completas. A Twitch tradicionalmente oferece divisão 50/50 da receita publicitária com criadores, enquanto a plataforma emergente Kick oferece divisão 95/5, favorecendo criadores. Percebe a diferença? Competição funcionando.
Anúncios não puláveis custam mais justamente porque garantem exposição completa da marca. Cada segundo de atenção tem valor de mercado específico. Quando o governo corta esse tempo pela metade por decreto, o valor despenca automaticamente. Menos valor significa menos investimento publicitário. Menos investimento significa… bem, você já sabe onde isso vai dar.
O TikTok mistura anúncios ao feed de forma quase imperceptível – essa integração sutil entre entretenimento e publicidade só funciona porque mantém a atenção do usuário. Cortar isso pela metade reduz drasticamente a eficácia – e o preço – desses anúncios. E aí? As plataformas vão simplesmente aceitar a redução de receita? Que inocência…
No Vietnã, gastos com publicidade digital chegaram a US$ 2,93 bilhões em 2025. Quando regulações limitam eficácia publicitária, esse dinheiro não evapora. Ele migra para outros formatos, outros países ou volta para o consumidor via preços mais altos. Sempre volta.
O caso Twitch: quando a ganância encontra a concorrência (e perde)
A história recente da Twitch ilustra perfeitamente como o mercado pune abusos sem precisar de papai Estado intervindo. O streamer Asmongold expôs publicamente que, apesar dos espectadores relatarem anúncios constantes, ele recebia apenas centavos de receita publicitária – literalmente “dois centavos”. Imagine a cara de pau!
Seu painel mostrava apenas 7 segundos de publicidade por hora, enquanto viewers reclamavam de interrupções constantes. A plataforma estava executando anúncios, faturando em cima e não repassando quase nada para o criador. Esse episódio viralizou e detonou um debate sobre transparência que nenhuma regulação conseguiria provocar.
E aí que a mágica acontece: esse abuso de market share abriu espaço para concorrência real. A Kick surgiu oferecendo divisão 95/5 das receitas de assinatura, comparado aos 50/50 da Twitch. Na Twitch, uma assinatura de US$ 5 rende US$ 2,50 ao streamer. Na Kick, rende US$ 4,75. Quem precisa de decreto quando existe competição?
A Kick já facilitou pagamentos superiores a US$ 46 milhões para criadores desde o lançamento de seu programa de parceria em 2024. Isso demonstra como competição real corrige distorções melhor que qualquer comissão de “especialistas” em Brasília ou Hanói.
A regulação que cria o problema que promete resolver
Países com mercados publicitários menores, como o Vietnã, já operam com valores de CPM bem mais baixos que grandes economias. Impor limitações legais reduz ainda mais o incentivo para empresas investirem em publicidade local. O resultado? Menos circulação de dinheiro e menos empregos no setor digital. Mas quem se importa com economia quando há “consumidores para proteger”?
Criadores de conteúdo independentes sentem o impacto primeiro – e mais forte. Grandes conglomerados absorvem a queda de receita redistribuindo custos. O youtuber pequeno que depende de monetização por anúncios para manter seu canal? Esse se lasca. Aliás, sempre se lasca quando o Estado resolve “ajudar”.
Além disso, a legislação cria insegurança jurídica monumental. Define limites claros para vídeos publicitários, mas deixa de fora formatos modernos como anúncios integrados ao scroll do TikTok e Instagram Reels. Como aplicar limite de 5 segundos a conteúdo que o usuário desliza naturalmente? Simples: não aplicam. Criam uma zona cinzenta perfeita para interpretações arbitrárias.
O mais provável é que plataformas compensem receita perdida com estratégias ainda mais invasivas: mais paywalls, mais assinaturas premium obrigatórias, mais publicidade disfarçada de conteúdo orgânico. O custo sempre encontra um jeito criativo de voltar para o consumidor final. Sempre.
O problema real dos anúncios excessivos (que o mercado já está resolvendo)
Seria desonesto negar que existe problema com publicidade online hoje. O YouTube se transformou num teste de resistência humana. Vídeos interrompidos duas, três, até cinco vezes. Anúncios duplos, banners que grudaram na tela como carrapato eletrônico.
Na Twitch, o cenário era ainda mais frustrante. Diferente do YouTube, onde o vídeo pode ser pausado, nas transmissões ao vivo a interrupção significa perder parte da live. Havia relatos de até cinco anúncios consecutivos antes mesmo da transmissão começar. Um absurdo? Claro. Mas note o tempo verbal: “havia”.
Essas práticas não eram acidentais. Faziam parte de estratégia deliberada para tornar a experiência gratuita suficientemente irritante e empurrar o usuário a pagar por versões premium. Era um modelo de negócio baseado em irritação controlada – e funcionava porque não havia alternativa real.
Mas aqui está o ponto crucial: o próprio Asmongold, ao expor os problemas da Twitch, demonstrou como transparência e pressão pública funcionam melhor que qualquer regulação. A exposição forçou a plataforma a repensar suas práticas. E mais: abriu espaço para concorrentes oferecerem algo melhor.
Por que o mercado livre funciona (e decretos não)
A Kick foi lançada em 2022 com missão clara: oferecer plataforma mais amigável aos criadores, com moderação mais flexível e divisão de receita mais generosa. Sua proposta de divisão 95/5 contrastava brutalmente com os 50/50 da Twitch. E funcionou.
A plataforma conseguiu atrair nomes grandes como GMHikaru, Adin Ross e xQc. Além da divisão favorável, a Kick oferece programa de incentivo que paga cerca de US$ 16 por hora de streaming para criadores elegíveis. Resultado? A Twitch teve que melhorar sua oferta ou perder market share.
Esse caso demonstra princípio básico da economia que políticos fingem não entender: concorrência é antídoto natural contra abusos. Quando empresas competem, precisam ouvir o consumidor ou morrer. Quando o Estado regula, cria travas que frequentemente beneficiam exatamente quem já tem poder estabelecido.
A competição entre plataformas força todas a reconsiderarem suas práticas econômicas, criando oportunidades sem precedentes para criadores. É exatamente isso que regulação estatal impede ao cristalizar estruturas de mercado e transformar inovação em crime.
O verdadeiro custo da intervenção governamental
Quando governo corta uma fonte de receita, plataformas compensam de formas que o consumidor nem imagina. Podemos esperar: mais paywalls disfarçados, mais planos premium “opcionais” que viram obrigatórios, mais publicidade nativa que se mistura ao conteúdo de forma ainda mais sutil.
O Vietnã já ameaça multas pesadas ou bloqueios de plataforma para quem não cumprir as novas regras, demonstrando típica postura autoritária de regular primeiro, pensar nas consequências depois. Afinal, quem precisa de análise de impacto quando há eleitor para impressionar?
A longo prazo, regulações como essa tornam países menos atrativos para investimento em tecnologia. Empresas globais preferem mercados onde podem operar com previsibilidade legal, não onde governos mudam regras do jogo por decreto a cada legislatura. O Vietnã pode estar sabotando seu próprio futuro digital.
O impacto desproporcional recai sobre quem menos tem estrutura para absorver perdas: pequenos empreendedores digitais, criadores independentes e o espectador comum que perde opções de conteúdo gratuito. Mas esse pessoal não tem lobby em Hanói…
A lição que o Estado nunca aprende
Publicidade é engrenagem vital da economia digital. Não é vilão, é mecanismo que permite trocar atenção por conteúdo. Quando o público sente que a troca está injusta, surgem alternativas para restabelecer equilíbrio. Essa é a beleza da competição livre – ela se autorregula.
A ascensão meteórica da Kick e o declínio relativo da Twitch provam que mercado corrige excessos quando pessoas são livres para votar com os pés. Não é o Estado que corrige o mercado – é o mercado que corrige excessos quando há competição real e transparência.
Informação e escolha: essa é a melhor defesa contra abusos corporativos. Transparência força empresas a justificarem suas práticas. Concorrência oferece alternativas reais. Regulação estatal apenas institucionaliza problemas e impede soluções criativas de emergirem.
Para os defensores do livre mercado, o decreto vietnamita é mais um lembrete: não é o governo que protege consumidores. É a liberdade de escolha que protege consumidores. Quando elimina-se essa liberdade via decreto, todos perdem – exceto os burocratas que expandem seu poder e os grandes players que conseguem absorver os custos regulatórios que matam a concorrência.
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 11/01/2026 01:04



