A Venezuela iniciou nesta quinta-feira, 8 de janeiro, a liberação de presos políticos após anos de repressão. A ONG Foro Penal contabilizava que havia 806 presos políticos nas cárceles venezuelanas até o 5 de janeiro de 2026. O movimento acontece cinco dias após a operação militar americana que capturou Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores, transferindo-os para Nova York.
Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens de veículos jornalísticos (com links para as fontes). Não afirma a prática de crimes ou ilícitos como fatos comprovados, nem atribui intenções a pessoas ou instituições. As críticas expressas representam a linha editorial do veículo, no exercício da liberdade de opinião. Mencionados que desejarem manifestar-se podem entrar em contato para direito de resposta.
Governo interino anuncia liberações
O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, anunciou a soltura imediata de presos políticos como iniciativa unilateral de “convivência pacífica”. Essa decisão é tomada sob a presidência interina de Delcy Rodríguez, instalada após a operação militar dos EUA que capturou Nicolás Maduro em 3 de janeiro. A rapidez das liberações é vista por analistas como resposta direta à pressão americana.
A medida representa uma mudança significativa de comportamento por parte do governo venezuelano. Durante anos, o regime de Maduro manteve centenas de opositores presos, muitos em condições que organizações de direitos humanos consideravam desumanas no Helicoide. Agora, sob pressão direta dos Estados Unidos, o novo governo interino busca legitimidade através de gestos de “pacificação”.
Para analistas libertários, essa situação exemplifica como Estados autoritários tendem a modificar comportamentos apenas quando enfrentam pressão externa significativa. O regime venezuelano nunca havia liberado presos por iniciativa própria ou reconhecimento de direitos humanos, segundo críticos. As mudanças ocorrem quando há percepção de que o custo político pode superar os benefícios da repressão.
A estratégia americana é interpretada como efetiva ao combinar pressão militar com incentivos econômicos. Diferente de sanções que afetam principalmente a população, a ação direta contra lideranças é vista por especialistas como capaz de forçar mudanças comportamentais imediatas.
Os primeiros libertados: nomes e histórias
Entre os primeiros liberados estão o excandidato presidencial Enrique Márquez, o político Biagio Pilieri, e cinco espanhóis, entre eles a ativista Rocío San Miguel, que tem dupla nacionalidade. Cada nome representa anos de sofrimento, famílias separadas e vidas interrompidas pela ação estatal.
Rocío San Miguel é especialista em segurança e jornalista que cobria questões militares venezuelanas. Sua prisão é vista por organizações de direitos humanos como exemplo de como regimes autoritários perseguem quem expõe suas fragilidades. Javier Tarazona, professor universitário e ativista de direitos humanos, também foi confirmado entre os liberados. Esses são intelectuais que o Estado venezuelano considerou “perigosos” por questionarem ações governamentais.
“Ya terminó todo”, disse Márquez, detido há um ano, após recobrar a liberdade. Essa frase resume o alívio de quem sobreviveu ao aparato repressivo venezuelano.
O aeroporto Adolfo Suárez Madrid Barajas recebeu Andrés Martínez Adasme, José María Basoa, Miguel Moreno Dapena, Ernesto Gorbe Cardona, todos de nacionalidade espanhola, e a hispano-venezuelana Rocío San Miguel. Essas pessoas agora podem reconstruir suas vidas longe da perseguição política.
El Helicoide: símbolo controvertido
O Helicoide representa o que críticos consideram problemático no sistema prisional venezuelano. Projetado originalmente como um moderno shopping center e hotel, tornou-se o principal centro de detenção do país. A estrutura cônica no centro de Caracas é vista por organizações de direitos humanos como símbolo da repressão chavista contra opositores.
Centenas de presos políticos passaram por suas instalações improvisadas. Sem ter sido construído para funcionar como prisão, o local carece de condições básicas de segurança e salubridade, segundo relatos de familiares. Organizações denunciam sistematicamente o que consideram maus-tratos e condições desumanas de confinamento.
Agora surge o debate sobre o futuro da estrutura. Alguns defendem transformá-la em museu da repressão, outros preferem sua demolição completa. A discussão revela como sociedades lidam com símbolos de períodos autoritários. No Brasil, conhecemos questão similar com locais que serviram durante a ditadura militar.
O importante, segundo defensores dos direitos humanos, é que as evidências sejam preservadas e os responsáveis respondam por seus atos. Não pode haver reconciliação sem verdade, nem paz sem justiça, argumentam. Estados que violam direitos de cidadãos devem prestar contas, independentemente de mudanças políticas posteriores.
Trump anuncia acordo petrolífero forçado
O presidente americano anunciou que a Venezuela exportará petróleo exclusivamente para os Estados Unidos. Em publicações no Truth Social, Trump detalhou o acordo com o governo interino venezuelano. A medida combina pressão geopolítica com oportunismo econômico típico da política externa americana.
Segundo Trump, a Venezuela entregará entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo de alta qualidade para os Estados Unidos. O dinheiro será controlado diretamente pelo governo americano, que decidirá como os recursos serão utilizados. É o que críticos caracterizam como tutela econômica disfarçada de acordo comercial.
Os recursos serão destinados à compra de produtos americanos: equipamentos agrícolas, medicamentos, dispositivos médicos e infraestrutura elétrica. Em teoria, isso pode beneficiar a população venezuelana. Na prática, significa que os Estados Unidos controlam tanto a política quanto a economia venezuelana.
Para defensores do livre mercado, essa situação é vista como problemática. Embora remova um governo autoritário, substitui a autonomia nacional por dependência econômica direta. A Venezuela perde controle sobre seu principal recurso natural, ficando subordinada às decisões políticas americanas sobre uso de suas próprias receitas.
Colômbia e Brasil adotam tom conciliatório
O presidente colombiano Gustavo Petro mudou significativamente seu discurso após conversa com Trump. Depois de criticar publicamente a intervenção americana, Petro adotou tom conciliatório, falando em “desencontros” e “busca pela paz”. A mudança foi rápida e é interpretada como reveladora do poder de pressão americano na região.
Trump elogiou a conversa, destacando que foi ele quem iniciou o contato. Isso mostra a estratégia americana de impor diálogo aos líderes latino-americanos, não solicitar. O padrão se repete: pressão inicial, conversa “esclarecedora” e subsequente colaboração dos governos locais.
No Brasil, Lula seguiu trajetória similar. Inicialmente expressou resistência às pressões americanas falando em “soberania nacional”, mas rapidamente adotou postura colaborativa após contato direto com Trump. Isso é visto por analistas como revelador de como líderes populistas latino-americanos são mais pragmáticos do que suas retóricas sugerem.
Para observadores, essa dinâmica expõe a fragilidade de governos que dependem de retórica anti-americana para legitimidade interna, mas cedem rapidamente quando confrontados com consequências reais. É considerada política externa performática que se desfaz diante da primeira pressão séria.
Impacto na política regional e lições para o Brasil
As ações americanas na Venezuela estabelecem novo paradigma para a América Latina. Washington demonstra disposição para intervenções diretas quando governos cruzam determinadas linhas vermelhas. Isso muda o cálculo político de líderes regionais sobre até onde podem desafiar interesses americanos.
No Brasil, a situação venezuelana deveria servir de alerta sobre os perigos da concentração de poder e perseguição política. Temos nossos próprios casos controversos, pessoas que enfrentam processos por protestos ou manifestações contrárias ao governo. A diferença é que aqui a repressão vem disfarçada de “combate ao extremismo”, segundo críticos.
Instituições brasileiras mantêm dezenas de pessoas processadas por manifestações políticas ou publicações em redes sociais. Alguns receberam penas significativas por participar de protestos. A perseguição sistemática a opositores políticos no Brasil segue padrão considerado similar ao venezuelano por alguns analistas, apenas com roupagem mais sofisticada.
A liberação de presos políticos na Venezuela mostra que pressão externa pode forçar mudanças que a política interna não consegue produzir. Governos autoritários tendem a ceder apenas quando enfrentam custos maiores que os benefícios da repressão. É lição importante para quem defende a liberdade em qualquer país.
Próximos passos e expectativas
Em entrevista à Fox News, Trump elogiou o governo da presidente interina Delcy Rodríguez, dizendo: “Eles têm sido ótimos… Tudo que queríamos, eles nos deram”. Essa declaração sugere que as liberações são apenas o início de uma colaboração mais ampla entre o governo interino venezuelano e os Estados Unidos.
A rapidez com que as mudanças estão ocorrendo indica possível coordenação prévia entre Washington e setores do governo venezuelano. Não se trata de decisões espontâneas, mas possivelmente de plano estruturado para transição política controlada. Os americanos parecem ter identificado interlocutores dispostos à colaboração dentro do próprio regime chavista.
Para o povo venezuelano, isso representa esperança de fim da repressão, mas também incerteza sobre real autonomia futura. A troca de uma ditadura interna por tutela externa pode resolver problemas imediatos, mas cria dependência de longo prazo. É dilema clássico de países que passam por intervenções humanitárias.
No contexto regional, outros governos estão recalibrando suas políticas para evitar confronto direto com Washington. A mensagem é interpretada como clara: existem limites para o antiamericanismo retórico, especialmente quando envolve repressão sistemática ou alinhamento com rivais geopolíticos dos Estados Unidos.
A situação venezuelana se torna laboratório para novas formas de intervenção americana na região. Combinando pressão militar direta, controle econômico e incentivos para setores moderados dos próprios regimes autoritários. É estratégia considerada mais sofisticada que invasões tradicionais, mas igualmente efetiva para mudança de comportamento governamental.
Para defensores da liberdade individual, o importante é que as liberações continuem e que a Venezuela desenvolva instituições que protejam direitos fundamentais independentemente de pressões externas. Liberdade não pode depender da boa vontade de potências estrangeiras, mas de estruturas internas que limitem o poder estatal.
Enquanto celebramos a libertação dos presos políticos venezuelanos, devemos questionar: quando chegará o dia em que o Brasil libertará aqueles que considera injustamente processados? A resposta depende da pressão que a sociedade brasileira conseguir exercer sobre seus próprios governantes. Infelizmente, aqui não temos pressão externa para forçar mudanças. Temos apenas nós mesmos e nossa capacidade de resistência pacífica ao que consideramos autoritarismo crescente.
A Venezuela nos ensina que regimes autoritários tendem a ceder quando o custo de manter a repressão supera os benefícios políticos. É hora de aumentarmos esse custo no Brasil, através de mobilização social consistente e cobrança permanente por liberdade e justiça.
E você, está disposto a se mobilizar pela liberdade daqueles que considera injustamente processados no Brasil, ou prefere esperar que alguma pressão externa resolva nossos problemas internos?
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 09/01/2026 12:02



