Donald Trump declarou nesta quarta-feira (21) em Davos que não usará força militar para tomar a Groenlândia. Durante discurso no Fórum Econômico Mundial, o presidente americano afirmou: “Não preciso usar a força. Não quero usar a força. Não usarei a força”. A declaração ocorre após dias de tensão crescente com aliados europeus sobre os planos de anexação da ilha ártica.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
A mudança de tom que aliviou os mercados
A promessa de Trump de não recorrer à força representa uma inflexão significativa. Nos dias anteriores, o presidente havia se recusado a descartar ação militar, gerando alarme entre aliados da OTAN. “Essa provavelmente foi a maior declaração que fiz, porque as pessoas achavam que eu usaria a força”, admitiu Trump em Davos.
Os mercados reagiram positivamente ao recuo. Observadores econômicos interpretam a decisão como resposta às pressões do mercado financeiro americano, onde milhões de cidadãos têm seus planos de aposentadoria vinculados ao desempenho das bolsas. Uma escalada militar com aliados europeus poderia gerar turbulências econômicas indesejadas para a administração Trump.
Mesmo descartando a força, Trump manteve a pressão diplomática. Ele exigiu “negociações imediatas” para a aquisição do território e advertiu aos europeus: “Vocês podem dizer sim e ficaremos muito gratos, ou podem dizer não e lembraremos disso”.
Os argumentos estratégicos para controlar a ilha
Trump justifica seu interesse pela Groenlândia com argumentos de segurança nacional. “Tenho respeito tremendo pelas pessoas da Groenlândia e da Dinamarca, mas acredito que nenhum outro país consiga manter a segurança da Groenlândia, a não ser os Estados Unidos”, declarou no fórum suíço.
O presidente americano apresentou uma nova narrativa histórica. Segundo sua versão, os EUA ocuparam a Groenlândia quando os nazistas tomaram a Dinamarca em 1940, devolvendo o território após a Segunda Guerra. “Deveríamos tê-la mantido”, afirmou Trump, sugerindo que os americanos têm direito histórico sobre a ilha.
A ironia é que os Estados Unidos já exercem controle militar significativo sobre a Groenlândia através de acordos com a Dinamarca. Bases americanas na região já monitoram atividades russas e chinesas no Ártico. Críticos questionam se Trump busca formalizar um controle que, na prática, já existe.
Europa entre resistência e realismo pragmático
A resposta europeia tem sido ambivalente. O ministro das Relações Exteriores dinamarquês disse que foi “positivo” Trump descartar a força militar, mas “isso não faz o problema desaparecer”. A França anunciou exercícios militares na Groenlândia em apoio à Dinamarca.
Segundo reportagens citadas no debate público, alguns oficiais europeus já cogitam negociar a entrega da Groenlândia para “pacificar” Trump. A lógica seria que a ordem mundial do pós-Segunda Guerra acabou e talvez seja necessário aceitar a nova realidade geopolítica americana.
Essa possível capitulação revelaria o sucesso da estratégia de pressão de Trump. Através de ameaças tarifárias contra oito países europeus, ele conseguiu colocar o futuro da Groenlândia na mesa de negociações, algo impensável há poucos anos.
O confronto direto com Carney e Macron
Trump não poupou críticas aos líderes que se opuseram a seus planos. O primeiro-ministro canadense Mark Carney havia dado um discurso contundente na terça-feira, alertando sobre o que chamou de “ruptura na ordem mundial”. Trump respondeu diretamente: “O Canadá só vive graças aos Estados Unidos. Lembra-te disso, Mark”.
Com Emmanuel Macron, o tom foi igualmente duro. Trump zombou dos óculos escuros do presidente francês e relembrou como o forçou a ceder em negociações sobre preços de medicamentos através de ameaças tarifárias. A diplomacia americana sob Trump não prima pela sutileza nas relações com aliados.
Observadores políticos interpretam essas provocações públicas como parte de uma estratégia mais ampla. Trump demonstra que está disposto a humilhar líderes aliados para conseguir suas metas, quebrando protocolos diplomáticos tradicionais.
O custo financeiro como argumento de venda
Um dos argumentos mais reveladores de Trump é econômico. Ele afirma que custa à Dinamarca “centenas de milhões por ano” administrar a Groenlândia, sugerindo que o controle americano seria mais eficiente. É uma lógica empresarial aplicada à soberania nacional: se não é lucrativo, deve ser vendido.
Porém, Trump nega interesse econômico na ilha. “O que importa é a segurança nacional estratégica e a segurança internacional”, declarou em Davos. Se não é questão econômica, por que tanto foco no custo que a Dinamarca tem para manter o território?
Críticos libertários apontam a contradição fundamental: Trump defende o livre mercado, mas quer forçar a anexação de um território cujos habitantes não desejam mudança de soberania. A autodeterminação dos povos deveria prevalecer sobre cálculos estratégicos de grandes potências.
As gafes que expõem o amadorismo diplomático
O discurso em Davos não foi isento de tropeços característicos. Trump disse aos suíços que os americanos impediram que todos estivessem “falando alemão” hoje. O problema é que na Suíça já se fala alemão naturalmente. Durante parte da fala, ele confundiu Groenlândia com Islândia, países completamente distintos.
Essas gafes, aparentemente menores, têm consequências diplomáticas reais. Quando o líder da maior potência mundial demonstra desconhecimento básico sobre os países com quem negocia, isso gera desconfiança desnecessária e complica negociações futuras.
Analistas interpretam esses lapsos como evidência de que Trump vê o mundo através de uma lente puramente americana, onde complexidades históricas e culturais de outras nações são irrelevantes diante do poder militar e econômico americano.
O projeto de “Conselho da Paz” como rival da ONU
Uma revelação importante foi o projeto de Trump de criar um “Board of Peace”. Documentos obtidos pela NPR revelam que países interessados em participação permanente terão que pagar US$ 1 bilhão, e Trump seria presidente permanente mesmo após deixar a presidência.
O estatuto sugere que o conselho espera atuar como rival da ONU, oferecendo um “órgão internacional de construção da paz mais eficaz”. Trump já convidou Vladimir Putin para participar, enquanto Emmanuel Macron rejeitou o convite.
Críticos interpretam a iniciativa como tentativa de formalizar o poder que os Estados Unidos já exercem de fato. Em vez de reformar instituições existentes, Trump prefere criar novas sob controle americano direto. É realismo geopolítico sem a mediação diplomática tradicional.
O que muda com o recuo tático
A decisão de descartar a força militar não significa que Trump desistiu da Groenlândia. Pelo contrário, ele agora foca em pressão econômica e diplomática através de tarifas contra países europeus resistentes. É um recuo tático, não estratégico.
Para a Europa, isso representa um dilema complexo. Resistir às pressões americanas pode custar caro economicamente, especialmente com a guerra na Ucrânia já pesando nas contas públicas. Ceder pode criar precedente perigoso para outras ambições territoriais futuras.
Do ponto de vista dos mercados, o recuo foi bem recebido. Tensões militares são prejudiciais para negócios, especialmente em um mundo já conturbado por múltiplos conflitos. Uma guerra comercial entre EUA e Europa seria devastadora para a economia global.
A perspectiva libertária sobre imperialismo moderno
Na visão libertária, há ironia profunda na obsessão de Trump pela Groenlândia. O mesmo presidente que critica a interferência estatal e defende liberdades individuais quer forçar a anexação de um território cujos habitantes não desejam mudança.
Defensores da liberdade individual argumentam que a autodeterminação dos povos é princípio fundamental. Se os groenlandeses querem continuar ligados à Dinamarca, essa deveria ser a palavra final. Nenhuma justificativa estratégica deveria sobrepor-se à vontade das pessoas diretamente afetadas.
Para críticos libertários, o verdadeiro livre mercado funcionaria assim: se os Estados Unidos oferecem oportunidades melhores, os groenlandeses migrariam voluntariamente. Investimentos privados americanos na região seriam bem-vindos, mas anexação territorial contradiz princípios de liberdade que Trump diz defender.
Consequências para o futuro das relações internacionais
O episódio da Groenlândia estabelece precedentes preocupantes. Trump mostrou que está disposto a usar tarifas comerciais como arma política para objetivos que nada têm a ver com comércio. Essa estratégia pode se tornar modelo para outras potências.
Se os Estados Unidos podem chantagear aliados economicamente para conseguir territórios, por que China, Rússia ou outras potências não fariam o mesmo? A erosão das normas internacionais beneficia apenas os países mais fortes militarmente.
Para países menores, a lição é clara: dependência econômica de uma grande potência pode se tornar vulnerabilidade política. A nova diplomacia americana é transacional – tudo pode ser negociado se o preço for certo. Tradições, tratados e alianças históricas importam menos que a correlação de forças do momento.
O que vem depois do recuo aparente
Trump pode ter descartado a força militar, mas não desistiu da Groenlândia. Sua declaração em Davos deve ser vista como recuo tático, não estratégico. Ele continuará pressionando através de tarifas, sanções e isolamento diplomático de países resistentes.
A Europa precisa decidir se vai resistir coletivamente ou se alguns países começarão a negociar separadamente com Washington. A unidade europeia já está sob pressão por causa da guerra na Ucrânia e diferenças sobre imigração e política econômica.
Para Trump, a Groenlândia se tornou questão de prestígio pessoal além de interesse estratégico. Recuar completamente seria admitir derrota política. Ele provavelmente continuará criando pressão até conseguir pelo menos alguma concessão simbólica da Dinamarca.
A declaração de Trump em Davos comprou tempo para todas as partes envolvidas. Mas o problema fundamental permanece: como lidar com uma superpotência que não respeita mais as regras tradicionais do jogo diplomático? Até quando os aliados americanos conseguirão manter a paciência diante de um império que age cada vez mais sem constrangimentos?
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 21/01/2026 16:02
Fontes
- O Tempo – Trump diz que não usará a força para tomar a Groenlândia
- InvestNews – Em Davos, Trump diz à Europa para entregar a Groenlândia, mas descarta uso da força
- Al Jazeera – Rupture in the world order: Speeches by Carney, world leaders in Davos
- NPR – Trump says ‘I won’t use force’ to obtain Greenland in Davos speech


