Donald Trump apresenta proposta de Conselho da Paz como alternativa à ONU durante evento oficial

janeiro 21, 2026

Ludwig M

Trump quer transformar Conselho da Paz em nova ONU por US$ 1 bilhão

Donald Trump anunciou que países interessados em assentos permanentes no seu novo Conselho da Paz devem pagar US$ 1 bilhão. O presidente americano declarou que “as Nações Unidas nunca me ajudaram” como justificativa para criar o conselho, que segundo ele “pode” substituir a ONU. A proposta nasceu para resolver o conflito em Gaza, mas críticos interpretam que as ambições agora miram uma reestruturação da governança global.

Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.

Como Gaza virou pretexto para ambições globais

O que começou como solução específica para Gaza se transformou em projeto bem mais amplo. Observadores argumentam que Trump tem ambições maiores do que apenas reconstruir a região devastada pela guerra.

O estatuto oficial é revelador. Descreve o conselho como “organização internacional que busca promover estabilidade e garantir paz duradoura em áreas afetadas por conflito” — linguagem que se aplica a qualquer região do planeta. Gaza nem sequer é mencionada diretamente no documento.

É um padrão conhecido na política: usar uma crise específica para implementar mudanças estruturais profundas. O cidadão comum aceita a solução imediata, mas raramente questiona as implicações de longo prazo das novas estruturas criadas.

Trump presidente vitalício? A estrutura preocupante

A concentração de poder na proposta impressiona até mesmo para padrões autocráticos. O conselho é governado por estatuto privado que nomeia apenas uma pessoa — “Chairman Trump” — como membro vitalício com poder para adotar resoluções sem consultar ninguém.

Trump e sua equipe planejam que ele continue presidindo pessoalmente o Conselho da Paz após completar seu mandato presidencial em três anos. Segundo a minuta, sua substituição só pode ocorrer “por renúncia voluntária ou incapacidade, determinada por voto unânime da Diretoria Executiva” — que é nomeada pelo próprio Trump.

As reuniões acontecem quando Trump “considerar apropriado”, com agenda por ele aprovada. Todas as decisões podem ser vetadas pelo presidente, que tem “autoridade final sobre significado, interpretação e aplicação do estatuto”.

Analistas descrevem a estrutura como tentativa de criar “alternativa ao Conselho de Segurança das Nações Unidas onde só ele tem poder de veto”. Diferente da ONU, onde pelo menos cinco países podem vetar decisões, aqui uma única pessoa concentra todo o controle.

A rejeição europeia e as ameaças comerciais

A resistência dos aliados tradicionais dos Estados Unidos foi imediata. França, Noruega e Suécia disseram não ao convite, seguidas pelo Reino Unido.

O ministro das Relações Exteriores francês Jean-Noel Barrot foi direto: “Sim à implementação do plano de paz, mas não à criação de organização que substituiria as Nações Unidas”. A posição francesa resume o dilema: apoiam a paz em Gaza, rejeitam o que interpretam como golpe institucional internacional.

A resposta de Trump foi típica de sua “diplomacia” comercial. Ameaçou tarifas de 200% sobre vinhos e champagnes franceses após a França declinar o convite. É chantagem econômica disfarçada de política externa.

A secretário de Estado norueguês foi diplomaticamente educado, dizendo que o país não participaria porque a proposta “levanta várias questões que requerem diálogo adicional”. No idioma diplomático, isso significa “não, obrigado”.

Quem embarcou na aventura

O padrão das adesões é revelador. Argentina do presidente Javier Milei aceitou rapidamente o convite, assim como Kosovo e Azerbaijão. Não é coincidência que os países menores ou mais dependentes dos Estados Unidos aceitem sem hesitar.

Israel, após críticas iniciais à composição do conselho, acabou aderindo. Benjamin Netanyahu não tem escolha: Israel depende do apoio americano para sua segurança e não pode contrariar Washington.

Países do Oriente Médio como Egito e Turquia disseram que “estão considerando” o convite. Novamente, “considerando” é código diplomático para “calculando custos políticos”.

A lógica é simples: países pequenos aceitam rapidamente por dependência, potências médias hesitam por conveniência, grandes potências rejeitam por princípio.

O preço da participação: democracia se compra

A barreira financeira de entrada é estratégica. US$ 1 bilhão por assento permanente é quantia que automaticamente exclui dezenas de nações do processo decisório global. Para comparação, esse valor representa mais que o PIB de muitos países africanos.

Países ricos compram influência permanente, países pobres ficam como membros temporários de três anos sem poder real. Não é governança global — é clube privado onde a entrada custa caro e as regras são decididas pelo dono.

Mais grave: esse dinheiro vai para fundo controlado pelo próprio Trump, não para instituição multilateral independente. É concentração simultânea de recursos financeiros e poder político.

Por que a ONU é imperfeita, mas Trump pode ser pior

A crítica à ONU tem fundamento. A organização realmente se mostrou incapaz de prevenir conflitos como a invasão russa da Ucrânia. O Conselho de Segurança fica paralisado quando uma das cinco potências usa o veto para defender interesses próprios. É estrutura de 1945 tentando resolver problemas de 2026.

Mas Trump oferece alternativa pior: em vez de reformar sistema imperfeito, propõe substituí-lo por sistema autocrático. A ONU tem 193 países com direito a voz na Assembleia Geral. No Conselho da Paz, apenas quem paga US$ 1 bilhão tem voz — e mesmo assim Trump pode vetar tudo.

O resultado seria a privatização da diplomacia internacional. Em vez de negociação multilateral, países teriam que passar pelo filtro de uma pessoa. É como transformar o mercado global em empresa familiar com CEO vitalício.

A ironia é que Trump critica a ONU por não ser eficiente, mas propõe sistema ainda mais centralizado. Na ONU, quando uma potência abusa do poder, outras podem se organizar para pressionar. No sistema Trump, não existe essa válvula de escape.

O precedente perigoso para a ordem internacional

Se bem-sucedido, o projeto criaria precedente perigosíssimo: qualquer país poderoso pode montar sua própria “organização internacional” e cobrar de outros para participar. China, Rússia, União Europeia — todos podem decidir criar seus clubes com regras próprias.

O resultado seria fragmentação completa do sistema internacional. Em vez de uma organização imperfeita mas universal, teríamos múltiplas organizações regionais competindo. Países menores seriam forçados a escolher lados, pagando pedágio para cada clube.

Na perspectiva libertária, isso representa concentração perigosa de poder decisório em estruturas ainda menos transparentes que as atuais. O mundo precisa de mais distribuição de poder, não menos. Precisa de mais mecanismos de controle democrático, não de sua eliminação.

Trump pode ter contribuído para resolver temporariamente o problema de Gaza — e isso merece reconhecimento. Mas usar esse sucesso para justificar nova ordem mundial autocrática é o clássico exemplo de como soluções pontuais podem gerar problemas estruturais maiores.

A pergunta que fica: quantos países terão coragem de dizer não a essa proposta? E quantos preferirão pagar US$ 1 bilhão para ter cadeira em conselho que, no final das contas, será sempre controlado por uma única pessoa?

Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.

Versão: 21/01/2026 20:02

Fontes

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