A semana revelou o método Trump de reorganizar o mundo: ameaça, negocia, consegue o que quer. Trump anunciou ter chegado a um acordo preliminar com a OTAN sobre a Groenlândia, após semanas de ameaças militares e tarifárias. Simultaneamente, dezenas de combatentes curdos foram expulsos de Aleppo enquanto Washington transferiu apoio para o novo governo sírio. E como cereja do bolo, Trump lançou seu Conselho da Paz em Davos, posicionando-se como alternativa à ONU.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
Groenlândia: da ameaça à concessão
O caso da Groenlândia exemplifica perfeitamente como Trump negocia: primeiro a pancada, depois o acordo. Nas últimas semanas, Trump não descartou o uso de força militar para anexar a ilha e chegou a ameaçar tarifas contra países europeus que não apoiassem seus planos.
A Europa cedeu rapidamente. O acordo preliminar com a OTAN, anunciado após reunião com Mark Rutte em Davos, concede muito do que Trump sempre quis. Segundo jornais europeus, o acordo inclui renegociação do acordo de tropas de 1951, controle americano sobre investimentos na Groenlândia e acesso a minerais de terras raras.
Trump foi direto ao ponto: “Os Estados Unidos terão acesso total e ilimitado à Groenlândia”. O acordo também prevê controle americano sobre investimentos na ilha e participação no sistema de defesa antimísseis Golden Dome.
A Dinamarca tenta salvar as aparências. A primeira-ministra Mette Frederiksen insiste que “somente a Dinamarca e a Groenlândia podem tomar decisões sobre assuntos que lhes dizem respeito”, mas a realidade é que Trump conseguiu bases militares permanentes e acesso aos recursos minerais sem disparar um tiro.
Curdos descartados: fim da utilidade
Enquanto Trump celebrava conquistas na Groenlândia, seus antigos aliados curdos enfrentavam expulsão sistemática na Síria. As Forças Democráticas Sírias (FDS), dominadas pelos curdos, retiraram-se de todas as zonas sob controle no leste da província de Deir Ezzor, incluindo o campo petrolífero de Al-Omar, o maior do país.
As FDS foram, durante anos, o principal parceiro dos EUA na Síria na luta contra o Estado Islâmico. Mas os tempos mudaram. Os Estados Unidos apoiam agora as novas autoridades sírias, criando uma contradição evidente.
A mudança de prioridades americanas ficou clara quando o enviado dos EUA para a Síria instou os curdos sírios a concordarem com a integração total no Estado central. Em outras palavras: rendam-se ou sejam abandonados à própria sorte.
O abandono é completo. A ativista Nadia Murad, ganhadora do Nobel da Paz, denunciou que “aqueles que estavam na linha de frente contra o mal estão sendo abandonados”. Depois de servirem como força terrestre americana contra o ISIS, os curdos descobriram que utilidade política tem data de validade.
Conselho da Paz: a ONU de Trump
O movimento mais ambicioso foi o lançamento do Conselho da Paz. O Conselho é uma estrutura internacional privada com objetivo declarado de “promover estabilidade e garantir paz duradoura”, proposto por Trump em setembro de 2025.
A estrutura revela as verdadeiras intenções. As adesões são determinadas exclusivamente por Trump, que declarou intenção de cobrar US$ 1 bilhão por assento e é nomeado como membro vitalício na carta privada. Trump justificou a criação alegando que “as Nações Unidas nunca me ajudaram” e que o conselho “poderia” substituir a ONU.
Oficialmente, 22 países se comprometeram com o grupo, incluindo Arábia Saudita, Argentina, Hungria, Israel, Turquia e Belarus. A Argentina de Milei anunciou aceitação do convite, com Milei qualificando-a como uma honra.
A resposta internacional foi morna. Noruega, Suécia, França, Eslovênia e Reino Unido já anunciaram que não devem se juntar ao grupo. O Brasil ainda não respondeu ao convite, informando que está analisando a proposta.
Os interesses em jogo
Por trás da retórica diplomática, os interesses econômicos são evidentes. Na Groenlândia, Trump revelou que direitos sobre minerais de terras raras fazem parte do acordo. A ilha possui reservas críticas para tecnologia e defesa.
Na Síria, o abandono dos curdos coincide com interesses energéticos. Os curdos perderam controle do campo petrolífero de Al-Omar, o maior do país. O novo governo sírio oferece perspectivas de normalização e acesso a recursos.
O Conselho da Paz também tem dimensão financeira clara. Países que desejam assentos permanentes devem pagar US$ 1 bilhão, com funcionário americano afirmando que “todos os fundos serão usados para reconstrução de Gaza”. Mas quem controla esses recursos? A resposta está na estrutura: apenas Trump decide.
Para empresas americanas, os três projetos abrem oportunidades concretas. A Groenlândia libera acesso a minerais estratégicos. A Síria pode facilitar negócios energéticos futuros. O Conselho da Paz cria mercado para empresas especializadas em reconstrução.
Eficiência versus legitimidade
A semana demonstra algo que muitos libertários relutam em admitir: Estados eficientes conseguem resultados mais rapidamente que burocracias multilaterais. Trump obteve em dias o que diplomatas europeus levariam anos para negociar. Conseguiu acesso militar permanente à Groenlândia, reposicionou alianças na Síria e criou estrutura internacional própria.
Compare com a alternativa. A ONU levaria décadas para aprovar resolução sobre a Groenlândia. O processo passaria por comissões, subcomissões, relatórios e mais relatórios. No final, produziria documento sem poder de execução. Trump resolveu em uma reunião em Davos.
O mesmo vale para a Síria. Enquanto a comunidade internacional ainda debatia “transição democrática” e “direitos das minorias”, Trump simplesmente transferiu apoio para quem controla território e recursos. Pragmático? Sim. Eficiente? Absolutamente.
O Conselho da Paz segue a mesma lógica. Especialistas questionam sua autoridade legal, mas Trump concentra poder de decisão em si mesmo, eliminando burocracias paralisantes. Resultado: enquanto a ONU discute procedimentos, Trump assina acordos.
O preço da eficiência
Reconhecer a eficiência não significa ignorar os custos. Os curdos pagaram o preço da realpolitik americana. Depois de servirem como força terrestre contra o ISIS, foram descartados quando se tornaram inconvenientes. Suas esperanças de autonomia foram frustradas quando o acordo de integração ao Estado sírio foi imposto.
A Europa aprendeu que resistência tem custos. A ameaça de tarifas foi suficiente para forçar acordo que concede acesso militar permanente aos EUA na Groenlândia. A soberania dinamarquesa tornou-se ficção diplomática.
Para países como Brasil, a lição é clara: neutralidade não será opção indefinidamente. O Brasil foi convidado para o Conselho da Paz, mas ainda não respondeu. A pressão aumentará, especialmente se o conselho demonstrar capacidade real de influenciar eventos globais.
Liberdade na era Trump
Para cidadãos que valorizam liberdade individual, o método Trump apresenta dilemas interessantes. Seus resultados tangíveis – acesso a recursos, alianças eficazes, estruturas que funcionam – contrastam com a paralisia das instituições multilaterais tradicionais.
A questão não é se Trump é “bom” ou “ruim”, mas se seus métodos produzem mais ou menos liberdade na prática. Um mundo onde um líder eficaz pode resolver conflitos rapidamente pode ser preferível a um mundo onde burocracias paralisadas perpetuam instabilidade.
Os curdos certamente prefeririam autonomia, mas entre integração forçada ao Estado sírio e guerra perpétua, qual opção preserva mais vidas e prosperidade? A Europa pode lamentar concessões na Groenlândia, mas evitar guerra comercial com os EUA pode beneficiar mais seus cidadãos que posturas diplomáticas “dignas”.
O Conselho da Paz pode concentrar poder em Trump, mas se conseguir reconstruir Gaza mais rapidamente que a ONU, os palestinos se beneficiarão. Especialistas questionam a autoridade legal do novo organismo, mas autoridade legal importa menos que resultados práticos.
A verdade inconveniente é que Estados eficientes, mesmo autoritários, podem gerar mais prosperidade e segurança que democracias paralisadas. Singapura prosperou sob Lee Kuan Yew. Os Emirados Árabes Unidos construíram oásis de livre mercado sob monarquia absoluta. A questão não é o sistema político, mas se ele facilita ou impede a liberdade econômica e pessoal.
Trump pode estar reorganizando o mundo segundo seus interesses, mas se isso resultar em menos conflitos, mais comércio e maior prosperidade, os beneficiários serão os cidadãos comuns. A alternativa – um mundo de instituições ineficazes perpetuando instabilidade – serve apenas às elites burocráticas que lucram com a paralisia.
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 25/01/2026 19:03



