
O acordo de US$ 465 milhões que ninguém pode conhecer
O governo brasileiro negociou em segredo com os Estados Unidos um financiamento de até US$ 465 milhões para exploração de terras raras em Goiás. O acordo foi fechado pelo banco estatal americano DFC com as mineradoras Serra Verde e Clara, e pode converter empréstimos em ações no futuro.
A coincidência temporal chama atenção. As negociações aconteceram antes das sanções de Trump contra o Brasil, que vieram em 9 de julho, seguidas pela Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes em 30 de julho. Agora, com a revogação dessas medidas, surgem perguntas sobre o que realmente foi negociado.
Segundo reportagem da Folha, os americanos “chegaram primeiro, colocaram dinheiro e compraram toda a produção da Serra Verde até 2030”, deixando a União Europeia de fora. O enviado europeu Stephanie Sejorn confirmou que estava planejando ir ao Brasil para negociar, mas foi informado três dias antes que os americanos já haviam fechado o negócio.
O mais preocupante é o sigilo absoluto imposto pelo Itamaraty sobre os documentos da negociação. Se o acordo é bom para o Brasil, por que esconder do povo brasileiro o que foi prometido?
A mina brasileira que trabalha para a China
A situação da Serra Verde revela a complexidade do mercado de terras raras. Segundo o InfoMoney, “a mina fica no Brasil, mas é americana e os minerais são da China”. Esta frase resume perfeitamente o problema.
A empresa americana extrai os minerais em Goiás, mas envia tudo para processamento na China. O Brasil fica apenas com a exploração, enquanto o verdadeiro valor agregado – o refino – acontece no país asiático. É a China que domina 90% do processamento mundial de terras raras.
Os Estados Unidos enfrentam o mesmo dilema da Europa: dependem da China para processar esses minerais estratégicos. Por isso a corrida para criar estoques reguladores, antecipando possíveis conflitos geopolíticos, especialmente se a China invadir Taiwan entre 2027 e 2028.
A pandemia já mostrou os riscos dessa dependência. Com portos chineses fechados, faltaram chips e componentes eletrônicos no mundo todo. Trump quer evitar que isso se repita em uma eventual guerra mundial.
Por que as terras raras não explicam tudo
Embora o acordo de terras raras seja real, ele não justifica sozinho a mudança radical de Trump em relação ao Brasil. Os minerais da Serra Verde continuam sendo processados na China, independentemente de quem os compra.
Se Trump queria apenas garantir terras raras, seria muito mais fácil negociar com Bolsonaro em 2026. Qualquer acordo que conseguiu arrancar de Lula, obteria com muito mais facilidade de um governo alinhado ideologicamente com os Estados Unidos.
O mesmo raciocínio vale para a Venezuela. Trump quer derrubar Maduro não pelo petróleo – que já foi oferecido pelo ditador -, mas pela estabilidade de longo prazo. Qualquer negócio com Maduro pode ser nacionalizado a qualquer momento.
A embaixada americana chegou a postar uma foto da Serra de Caldas Novas em junho de 2025, gerando especulações sobre sinalizações secretas. Mas essa serra não tem mineração significativa de terras raras, tornando a teoria ainda mais frágil.
O crime de lesa-pátria que pode ter acontecido
Se realmente houve troca entre terras raras e revogação da Magnitsky, o governo cometeu crime de lesa-pátria. A lógica é simples: se vender terras raras aos Estados Unidos era bom para o Brasil, o governo deveria ter vendido normalmente, pelo melhor preço.
Se não era bom para o Brasil, mas foi entregue em troca de perdão para Alexandre de Moraes, então recursos nacionais foram sacrificados para proteger interesses pessoais e partidários. Isso configura traição aos interesses nacionais.
O sigilo imposto pelo Itamaraty reforça as suspeitas. Negócios transparentes e benéficos não precisam ser escondidos do povo. Quando Fernando Haddad disse que “terras raras serão negociadas com Trump para investimentos no Brasil”, deveria ter explicado os detalhes.
André Marsiglia alertou corretamente: “Se o governo negociou as terras raras brasileiras em troca da Magnitsky com Trump, isso é um crime”. O povo brasileiro tem direito de saber que preço foi pago para salvar o ministro do STF.
A legislação que impede o Brasil de prosperar
O Brasil poderia ser uma potência em terras raras, mas nossa legislação ambiental torna impossível explorar e processar esses minerais em território nacional. Enquanto a China subsidia massivamente sua produção, o Brasil amarra as próprias pernas com burocracia.
As minas de Serra Verde e Clara em Goiás mostram nosso potencial. Mas em vez de agregar valor processando os minerais aqui, somos obrigados a exportar matéria-prima para a China. É o eterno complexo colonial brasileiro: exportamos commodities e importamos produtos industrializados.
A Austrália é o único país que consegue rivalizar com a China no processamento de terras raras. Por isso Trump está investindo pesadamente lá, não apostando tudo no Brasil. Nossa insegurança jurídica e excesso de regulamentação espantam investimentos de longo prazo.
Se tivéssemos um ambiente de negócios competitivo, não precisaríamos fazer acordos secretos para atrair investimentos. As empresas viriam naturalmente, pelos fundamentos econômicos.
A Europa que ficou de fora da negociação
A Comissão Europeia lançou um novo programa para garantir materiais minerais estratégicos e reduzir dependências. O objetivo é criar estoques reguladores de terras raras, antecipando possíveis interrupções no fornecimento chinês.
Mas os americanos chegaram primeiro ao Brasil. Quando o enviado europeu estava se preparando para viajar a Brasília, recebeu a notícia de que os Estados Unidos já haviam comprado toda a produção da Serra Verde até 2030.
Isso mostra a intensidade da disputa geopolítica por recursos estratégicos. Estados Unidos, China e Europa estão correndo para garantir suprimentos de terras raras, fundamentais para tecnologia militar e civil.
O Brasil está no centro dessa disputa, mas como fornecedor de matéria-prima bruta. Continuamos na posição de colônia: extraímos, exportamos e compramos de volta o produto processado por preços muito maiores.
O que realmente foi negociado?
A verdade é que não sabemos o que foi prometido a Trump em troca da revogação da Magnitsky. Pode ter sido terras raras, petróleo, concessões militares, acordos comerciais ou uma combinação de vários fatores.
O que sabemos é que houve negociação secreta, documentada pelo próprio sigilo imposto pelo Itamaraty. Governos transparentes não escondem acordos benéficos ao país.
Lula pode ter seguido o exemplo de Maduro, que ofereceu todas as reservas petrolíferas da Venezuela para evitar intervenção americana. Mas esse tipo de barganha compromete a soberania nacional de longo prazo.
O povo brasileiro precisa saber que preço foi pago. Não é aceitável que recursos nacionais sejam negociados em segredo para resolver problemas criados pelo próprio governo.
Informação é a melhor defesa contra o Estado. Quanto mais esconderem, mais devemos suspeitar.
Se o acordo realmente beneficiou o Brasil, por que o sigilo? Se prejudicou o país para salvar Alexandre de Moraes, quando vamos conhecer a extensão do estrago? O debate está aberto, mas as respostas continuam trancadas nos cofres do Itamaraty.


