Supermercado com funcionários trabalhando na escala 5x2

janeiro 13, 2026

Ludwig M

Supermercados adotam escala 5×2 enquanto Brasília debate jornadas de trabalho

Enquanto deputados discutam projeto sobre jornada de trabalho em Brasília, o mercado brasileiro já resolveu na prática o problema da escala 6×1. Supermercados do interior paulista lideram uma transformação silenciosa que está reescrevendo as regras do varejo — não foi lei que forçou a mudança. Foi a simples escassez de gente disposta a trabalhar seis dias por um de folga.

Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em debates públicos e fontes abertas. Não afirma como fatos comprovados condutas ilegais ou ilícitas. Seu objetivo é promover reflexão crítica sobre temas de interesse público.

Mercado se ajustou sozinho (como sempre)

A escala 6×1 começou a ruir por uma razão bem simples: ninguém mais aceita isso. A dificuldade para contratar e manter funcionários tem levado supermercados a reverem um dos modelos mais tradicionais do mercado de trabalho brasileiro, com redes do varejo já começando a testar a escala 5×2.

O Grupo Savegnago implantará, a partir de janeiro de 2026, o modelo de escala de trabalho 5X2 para colaboradores das unidades do Savegnago Supermercados em Campinas, Sumaré e Hortolândia, além do Paulistão Atacadista em Barretos, Sertãozinho e Franca. O modelo mantém as 44 horas semanais previstas em lei, mas distribui a carga em cinco dias com dois dias de folga consecutivos.

No Espírito Santo, a situação chegou ao limite. Supermercados, atacarejos, minimercados e lojas de material de construção deixarão de funcionar aos domingos a partir de 1º de março, conforme acordo firmado em convenção coletiva. A medida será adotada em caráter experimental e tem como principal justificativa a dificuldade do setor em manter equipes completas.

Mesmo com vagas abertas, empregadores relatam dificuldade para atrair candidatos dispostos a aceitar rotinas consideradas desgastantes. Tradução: o velho modelo simplesmente não funciona mais quando as pessoas têm escolha. E elas têm.

Quando a realidade econômica atropela a ideologia

A transformação começou no grupo Savegnago, que percebeu uma verdade incômoda: trabalho é via de mão dupla. Se o patrão não oferece condições atrativas, o funcionário vai embora. Simples assim. O modelo mantém as 44 horas semanais, porém distribuídas em cinco dias de trabalho, com jornadas diárias de 8h48, em substituição às 7h20 praticadas na escala 6X1.

A matemática é elementar: concentrar as horas em menos dias oferece mais qualidade de vida sem violar a legislação trabalhista. Por que nenhum burocrata pensou nisso antes? Porque quem faz planilha nunca teve que trabalhar no balcão.

A mudança alcança lojas do Savegnago Supermercados em Campinas, Sumaré e Hortolândia, além do Paulistão Atacadista em Barretos, Sertãozinho e Franca. A experiência está sendo monitorada, e os resultados desta etapa vão embasar a avaliação sobre uma possível expansão do modelo para outras unidades da rede ainda em 2026.

Aliás, a história se repete no Rio Grande do Sul. Outras redes já adotaram o mesmo modelo, provando que não é modinha — é tendência irreversível.

Geração Z não nasceu para ser escrava

Quem está por trás dessa revolução é a geração Z, nascida entre 1997 e 2012. Essa garotada chegou ao mercado de trabalho com uma mentalidade totalmente diferente dos pais. Segundo uma pesquisa do Glassdoor feita em 2024, a Geração Z vai ultrapassar os Baby Boomers em número de trabalhadores em tempo integral ainda este ano.

Mas a revolução não é só numérica — é cultural. Essa geração cresceu hiperconectada e acostumada com transparência total. Para eles, dinheiro é importante, mas não é tudo. O que realmente buscam? Propósito, coerência ética e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

Pesquisas mostram que a maioria rejeita empregadores cujos valores colidem com suas crenças. A Geração Z busca propósito no ambiente corporativo. Trabalhos que ofereçam um impacto positivo na sociedade e oportunidades de contribuir para algo maior são altamente valorizados. Quando se sentem insatisfeitos, saem sem cerimônia — quase metade afirma que deixaria o emprego em menos de dois anos se o equilíbrio vida-trabalho não fosse respeitado.

E sabe o que mais? Eles estão certos. Por que alguém deveria aceitar trabalhar seis dias para folgar um só? Por tradição? Por “costume”? Essas justificativas não colam mais numa geração que viu o mundo mudar da água pro vinho em poucos anos.

A história se repete: mercado sempre foi mais esperto que o Estado

Essa não é a primeira vez que o mercado se antecipa ao Estado em questão trabalhista. O primeiro registro de jornada 5×2 aparece em 1910 na fábrica têxtil New England Cotton Mill, em Massachusetts. A empresa adotou a semana de cinco dias para atender trabalhadores judeus que precisavam do sábado livre para o shabá. Nenhum legislador precisou intervir — foi questão de sobrevivência empresarial.

Henry Ford elevou o conceito à escala industrial. Em 1926, decidiu fechar suas fábricas aos sábados e domingos, fixando a jornada de 40 horas semanais. O resultado? Aumento da produtividade, queda nas faltas e aumento do consumo. Seus próprios funcionários passaram a ter tempo e dinheiro para comprar os carros que produziam. Genial, não?

Tudo isso aconteceu mais de uma década antes do Fair Labor Standards Act de 1938 formalizar o modelo de 44 horas em cinco dias de trabalho. As mudanças verdadeiras sempre acontecem quando as empresas percebem que há mais valor em respeitar o tempo humano do que em esgotá-lo.

A automação, os avanços tecnológicos e as novas dinâmicas sociais tornaram possível fazer em cinco horas o que antes levava oito. O modelo 5×2, hoje em expansão no Brasil, repete exatamente o mesmo padrão inaugurado há quase um século. O mercado aprende, o Estado… bem, o Estado ainda está discutindo.

Políticos chegaram atrasados (de novo)

Enquanto o mercado já se ajustava, Brasília tentou transformar o debate em palanque político. No Congresso Nacional, duas propostas disputam espaço: uma radical e outra “moderada”. Ambas têm a ambição de reformar a jornada de trabalho, mas divergem na intensidade e no ritmo.

A deputada Érica Hilton, do PSOL, propõe alterar o artigo 7º da Constituição Federal, limitando a carga horária semanal a 36 horas, distribuídas em quatro dias de trabalho. A ideia é sedutora no discurso — especialmente num país exausto por jornadas longas.

O problema? A proposta é ambiciosa demais para a realidade econômica brasileira. Reduzir abruptamente a carga semanal em quase 20% sem diminuir salários soa ótimo na teoria, mas empurra os custos para quem já opera no limite: micro e pequenas empresas. Afinal, quem vai pagar a conta? O papai Estado?

Do outro lado, o deputado Luiz Gastão, do PSD, propõe uma abordagem mais “gradual”. Seu plano reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais ao longo de três anos — 42 horas no primeiro ano, 41 no segundo e 40 no terceiro.

Ainda assim, ambas partem da premissa de que o Estado deve determinar o ritmo da organização do trabalho, como se a heterogeneidade do mercado brasileiro coubesse num único molde. O que é viável para um banco em São Paulo pode ser insustentável para uma padaria no interior do Piauí. Mas isso é detalhe para quem faz lei, né?

Por que intervenção estatal atrapalha mais que ajuda

O impulso de transformar tendências em leis traz riscos sérios. Primeiro: cristalização. Quando uma dinâmica natural vira norma, ela perde flexibilidade. O que hoje é progresso pode se tornar amarra amanhã. Se a escala 5×2 se consolidar como regra legal, empresas menores e setores sazonais podem ser as primeiras vítimas de um modelo inflexível.

A imposição de uma única forma de organização desconsidera a variedade de preferências individuais. Há trabalhadores que preferem concentrar horas em menos dias para folgar por períodos mais longos. Outros preferem turnos curtos diários. A força do mercado está justamente em permitir esses arranjos sob demanda — algo que a lei é completamente incapaz de fazer.

E mais: a transformação natural do mercado é, por definição, autorregulatória. Quando a oferta de trabalho diminui, o salário sobe ou as condições melhoram. Quando há excesso de oferta, o equilíbrio se ajusta novamente. É um processo infinitamente mais ágil que qualquer mecanismo estatal.

Leis trabalhistas rígidas tendem a ignorar a diversidade dos setores produtivos. Intervenções desse tipo podem gerar efeitos colaterais graves: aumento da informalidade, desemprego marginal, terceirizações forçadas e retração nos investimentos. Já vimos esse filme antes.

Livre mercado funciona, decreto não

O caso do varejo brasileiro demonstra algo fundamental: o mercado é capaz de corrigir seus próprios excessos. “A proposta da nova escala é oferecer uma rotina mais equilibrada e previsível aos colaboradores. Ter dois dias de descanso faz diferença na recuperação física, no convívio familiar e na disposição para o trabalho”, explica a própria empresa.

No fim das contas, o grande erro da política trabalhista brasileira é confundir direção com condução. O Estado pode tentar dirigir a economia, mas quem realmente move a engrenagem é o mercado e as pessoas que o compõem. O futuro do trabalho não será decidido em plenário — ele já está sendo decidido todos os dias nos processos de recrutamento e nas escolhas livres de empregados e empregadores.

A experiência do Savegnago mostra algo que deveria ser óbvio: quando empresas precisam competir por trabalhadores, as condições melhoram naturalmente. É assim que funciona a mágica da oferta e procura — sem precisar da bênção de Brasília.

A lição é cristalina: liberdade econômica produz melhores resultados que regulamentação forçada. Quando trabalhadores têm opções, empregadores se adaptam. Quando empregadores competem por talentos, as condições evoluem. É assim que o mercado livre funciona, sem comitê, sem decreto, sem burocracia.

O Estado chegou atrasado, como sempre. Enquanto deputados discutem projetos, a realidade já se moveu três casas adiante. E isso é uma excelente notícia para quem acredita que a liberdade de escolha é sempre superior à imposição legal.

Resta saber quantas outras áreas da economia vão se render à evidência: o mercado resolve problemas que o Estado sequer consegue compreender. A pergunta que fica é: você acredita que mais empresas seguirão esse exemplo sem esperar por leis? Eu tenho certeza que sim.

Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.

Versão: 13/01/2026 01:04

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