O ex-presidente Jair Bolsonaro sofreu traumatismo craniano leve após uma queda na Superintendência da Polícia Federal na madrugada de 6 de janeiro, expondo uma realidade que vai muito além de um simples acidente. Estamos diante de algo mais profundo e perturbador. Segundo seu médico Brasil Caiado, a queda pode ter sido causada por desorientação resultante da interação entre múltiplos medicamentos prescritos para tratar crises de soluços – um quadro que deveria fazer qualquer pessoa se perguntar: como chegamos a este ponto?
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas amplamente divulgadas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções subjetivas a pessoas ou instituições, nem questiona a legitimidade dos Poderes da República ou equipara o Brasil a regimes autoritários. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
Bolsonaro: O Rosto Humano da Degradação das Condições de Custódia
Desde sua transferência para a Superintendência da Polícia Federal, Bolsonaro apresentou alterações importantes em sua saúde, incluindo ganho de 8 kg acompanhado por perda de massa muscular e aumento significativo de gordura corporal. Estes não são “apenas números” – são sinais visíveis do que acontece quando o Estado assume controle total sobre a vida de alguém.
E fica pior. O quadro se agrava quando consideramos que sua apneia do sono intensificou drasticamente, atingindo uma média de 50 episódios de interrupção da respiração por hora durante o sono, condição considerada intensa que pode ter sérias repercussões na saúde cardiovascular e cognitiva. Cinquenta interrupções por hora. Imaginem passar uma noite assim. Agora imaginem que isso se repete todos os dias, sob custódia estatal.
Segundo informações médicas divulgadas, uma interação entre medicamentos pode ter provocado o mal-estar, sendo que o cardiologista afirmou que Bolsonaro não tem condições de ficar sozinho. Aqui está o ponto crucial: quando o Estado assume a custódia de qualquer pessoa, ele também assume total responsabilidade por sua vida. Não há meio-termo nisso.
Diante da gravidade do quadro, há expectativa de que um novo pedido de prisão domiciliar seja apresentado pela defesa ao ministro Alexandre de Moraes. A pergunta que qualquer pessoa decente deveria fazer é simples: quando preservar uma vida humana deixou de ser prioridade absoluta?
O Estado Como Protagonista Político
Estamos assistindo a uma transformação – que gera questionamentos – do papel das instituições brasileiras. Há debate sobre se o STF expandiu sua função constitucional de guardião silencioso da lei para se tornar ator principal no palco político. Isso, segundo críticos, não seria evolução institucional. Seria ruptura.
Por sinal, defensores da liberdade individual há muito alertam para esse fenômeno. Quando magistrados acumulam funções de investigador, acusador e julgador, críticos argumentam que não temos mais um sistema de Justiça – temos um sistema de poder concentrado. E poder concentrado, como ensina a história, sempre corrompe.
Aliás, vale lembrar que exceções jurídicas sempre começam com as melhores justificativas. “Defesa da democracia”, “segurança nacional”, “ordem pública” – os chavões mudam, mas há quem interprete que o resultado é sempre o mesmo: erosão sistemática das liberdades individuais. No Brasil dos anos 60 e 70, também se falava em “defesa da democracia”. A diferença é que hoje isso acontece em nome da própria democracia.
E mais: quando instituições públicas extrapolam seus limites constitucionais sem encontrar resistência efetiva, críticos alertam que estabelecem precedentes que um dia se voltarão contra todos nós. O livre mercado nos ensina que empresas ruins quebram por pressão dos consumidores. Já instituições públicas que falham… bem, elas costumam ganhar mais poder e mais recursos. É um incentivo perverso que explica muito do que estamos vendo.
Clezão: Quando o Sistema Mata
Cleriston Pereira da Cunha, conhecido como Clezão, morreu em 20 de novembro de 2023 enquanto tomava banho de sol na Papuda, aos 46 anos. Aqui não estamos falando de deterioração gradual da saúde. Estamos falando de morte. Morte de um homem que nunca foi julgado.
Clezão era empresário, sofria de diabetes e hipertensão, e fazia uso de medicação controlada. Em setembro de 2023, a Procuradoria-Geral da República havia recomendado sua liberdade provisória, citando que não mais se justificava a segregação cautelar.
Prestem atenção no que vem a seguir: o pedido nunca foi analisado pelo STF. Simplesmente ignorado. Um homem morreu porque uma petição ficou engavetada.
Segundo relatos de companheiros de prisão, as condições na penitenciária eram degradantes. “Algo que nem bicho come” – essa é a dignidade humana sob custódia do Estado brasileiro, segundo foi relatado.
Treze dias. Entre um pedido de liberdade por razões médicas e a morte de um ser humano, transcorreram apenas 13 dias.
A Falência Moral do Sistema
A morte de Clezão expõe uma contradição que deveria envergonhar qualquer pessoa minimamente civilizada. Como um sistema que se declara “defensor da democracia” permite que um cidadão morra sob sua custódia? E não estamos falando de alguém condenado por crimes hediondos – Clezão morreu antes do julgamento.
Afinal, que tipo de “justiça” é essa que mata antes de julgar?
A teoria libertária é cristalina sobre isso: poder concentrado sem controles efetivos inevitavelmente gera abuso. Não importam as intenções declaradas, não importa o discurso oficial. Instituições humanas são falíveis, e por isso precisam de limitações rígidas. Quando essas limitações desaparecem, pessoas reais sofrem consequências irreversíveis.
No livre mercado, quando uma empresa maltrata clientes, ela perde negócios e pode ir à falência. É um mecanismo natural de correção. Já no setor público, quando uma instituição falha – mesmo que de forma espetacular, como no caso de Clezão – ela raramente enfrenta consequências. Pelo contrário: geralmente recebe mais recursos, mais poder, mais “ferramentas para combater os problemas”.
Seletividade: O Veneno da Credibilidade
Qualquer observador honesto do sistema judicial brasileiro percebe um padrão perturbador: há debate sobre a aplicação seletiva da lei. Enquanto alguns réus enfrentam prisões prolongadas em condições desumanas, outros casos similares – ou até mais graves – são interpretados por críticos como recebendo tratamento bem diferente.
Essa percepção de “dois pesos, duas medidas” não é paranoia política. É observação factual que corrói a legitimidade de todo o sistema. Quando as pessoas percebem que a Justiça não é cega, mas sim seletivamente míope, a confiança nas instituições despenca.
Por sinal, o conceito de “estado de exceção” – suspensão temporária de direitos fundamentais para enfrentar “crises” – é interpretado por críticos como tendo se tornado rotina no Brasil. O problema é que exceções têm uma tendência natural a se tornarem permanentes. Especialmente quando não há mecanismos efetivos de controle.
E mais: governos sempre encontram justificativas para expandir seu poder. “Defesa da democracia”, “combate ao extremismo”, “proteção das instituições” – os rótulos mudam, mas a essência permanece a mesma. Por isso democracias saudáveis não se caracterizam pela ausência de tentações autoritárias, mas pela existência de freios e contrapesos que impedem sua materialização.
O Cidadão Comum na Linha de Tiro
Enquanto o circo político se concentra em figuras como Bolsonaro, a verdadeira medida da qualidade de um sistema judicial é como ele trata pessoas sem poder político. Clezão era exatamente isso: um empresário comum, sem grandes conexões. Sua morte deveria servir como alerta sobre o que pode acontecer com qualquer brasileiro.
Para famílias que trabalham e pagam impostos, a lição é assustadoramente clara: em um sistema onde exceções viram regra, ninguém está seguro. Hoje podem ser os “bolsonaristas”, amanhã sindicalistas, empresários, jornalistas independentes, ou qualquer grupo que incomode quem está no poder.
Aliás, direitos fundamentais ou são universais, ou não existem. Quando aceitamos violações contra grupos que não simpatizamos, criamos precedentes que podem ser usados contra nós próprios no futuro. A liberdade é, por definição, indivisível.
E aqui está um ponto que muitos brasileiros ainda não compreenderam completamente: contribuintes pagam impostos altíssimos para manter um sistema judiciário que deveria proteger seus direitos. Quando esse mesmo sistema se volta contra eles, o contrato social está fundamentalmente quebrado.
O Caminho de Volta (Se Ainda Existe)
A recuperação da normalidade democrática exige reconhecer que temos um problema institucional, não pessoal. Trocar pessoas no poder sem reformar estruturas é como trocar os pilotos de um avião com defeito no motor. Pode adiar o acidente, mas não resolve o problema.
Países com democracias funcionais têm mecanismos de impeachment judicial, mandatos limitados para magistrados e sistemas de revisão que previnem abusos. No Brasil, ministros do STF gozam de estabilidade vitalícia e poder quase ilimitado. É ingenuidade esperar que isso não gere distorções.
Por sinal, assim como o livre mercado funciona melhor com regras claras e competição, o sistema judicial prospera com limitações ao poder e mecanismos de accountability. A alternativa é assistir casos como Bolsonaro e Clezão se multiplicarem indefinidamente.
Afinal, para que mudanças reais aconteçam, a sociedade brasileira precisa superar a polarização política e focar no essencial: criar instituições que sirvam ao povo, não ao poder. Isso significa exigir transparência, responsabilização e, acima de tudo, respeito aos direitos fundamentais – independentemente de quem está sendo julgado.
Porque, no final das contas, quando instituições falham sistematicamente da mesma forma, não estamos diante de acidentes ou incompetência. Estamos diante de escolhas. E escolhas têm consequências.
O traumatismo de Bolsonaro e a morte de Clezão não são eventos isolados. São sintomas de uma crise institucional muito mais profunda. A pergunta que cada brasileiro deve fazer é simples: se isso pode acontecer com um ex-presidente e um empresário comum, quem exatamente está protegido?
A resposta, infelizmente, parece ser: ninguém.
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 12/01/2026 00:04



