dezembro 30, 2025

Ludwig M

Sistema de monitoramento oficial de apostadores levanta questionamentos sobre privacidade e liberdade

O governo brasileiro já possui dados detalhados sobre quanto você aposta, onde gasta e por quantos dias no mês se envolve com jogos online. O Sistema de Gestão de Apostas (Sigap) processa meio bilhão de registros diários e movimenta até 21 bilhões de reais por mês. Agora, há debates sobre a ampliação desse monitoramento através do Sistema Único de Saúde.

Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em debates públicos e fontes abertas. Não afirma como fatos comprovados condutas ilegais ou ilícitas. Seu objetivo é promover reflexão crítica sobre temas de interesse público.

Como funciona o sistema de monitoramento atual

O ministro da Saúde Alexandre Padilha anunciou um acordo de cooperação técnica com o Ministério da Fazenda que cria o Observatório Saúde Brasil de Apostas Eletrônicas. A ferramenta funcionará através do SUS Digital, que terá acesso às informações coletadas pelo Sigap.

Os dados incluem tempo de exposição online nas plataformas, quantas empresas você utiliza, valores apostados, perdas acumuladas e frequência mensal de apostas. Cada CPF brasileiro que joga online está sendo mapeado em tempo real. O sistema permite ao governo federal monitorar o comportamento dos apostadores, acompanhar o volume de recursos movimentados, prêmios pagos e perdas acumuladas.

Quando o algoritmo detecta um padrão considerado abusivo, críticos apontam que poderá disparar alertas automáticos no aplicativo SUS Digital. A mensagem será algo como: “Cuidado com a sua jogatina”. Mas a questão vai além dos alertas.

Padilha explicou que “a partir dos dados coletados, será possível identificar padrões de vício ou compulsão e permitir que equipes do SUS entrem em contato para apoiar essas pessoas”. Em análise crítica, isso significa que agentes estatais podem procurar apostadores identificados pelo sistema.

O Observatório que monitora 24 horas por dia

O acordo criou o Observatório Saúde Brasil de Apostas Eletrônicas, um canal permanente de troca de dados entre os ministérios. Nome que, segundo críticos, representa um sistema de vigilância massiva.

Esse observatório cruzará informações do Sigap com dados do Sistema Único de Saúde. Será possível mapear não apenas seus hábitos de apostas, mas também seu histórico médico, localização geográfica e perfil socioeconômico. Alexandre Padilha explicou que “a partir dos dados que temos, vamos identificar padrões como os de adição ou compulsão das pessoas. Os registros nos ajudarão a ver onde a pessoa está”.

A justificativa oficial é sempre a mesma: proteger o cidadão. Mas quem protege o cidadão do Estado? Apenas 1.951 pessoas foram atendidas no Sistema Único de Saúde por transtornos relacionados a apostas no primeiro semestre de 2025. Para um país com milhões de apostadores, o número é pífico.

O debate central não é sobre a falta de tratamento. É sobre a existência de um sistema que registra cada centavo que você gasta e cada clique que você dá em plataformas privadas.

Debates sobre intervenção estatal

Quando as mensagens no celular não surtirem efeito, há questionamentos sobre o próximo passo ser a visita domiciliar. O ministro Padilha foi claro: casos considerados abusivos acionarão as estruturas de saúde pública próximas à residência do apostador. Agentes de saúde poderão aparecer na sua casa para “recomendar tratamento psicológico”.

Imagine a cena: você apostou mais que o algoritmo considera normal. Recebeu mensagens no SUS Digital alertando sobre os riscos. Não deu ouvidos. Alguns dias depois, batem na sua porta. São funcionários do governo oferecendo ajuda médica “gratuita” e “de qualidade”.

Tudo isso soa familiar? George Orwell descreveu algo parecido em 1984. A diferença é que estamos em 2025 e acontece no Brasil real, não na ficção distópica. O Estado sabe o que você faz na internet, como gasta seu dinheiro e onde mora. Se considerar seu comportamento inadequado, tomará providências.

O mais preocupante é que essa vigilância não se limita às apostas. Se hoje o governo monitora quanto você gasta no “tigrinho”, amanhã pode decidir que refrigerante, sorvete ou batata frita em excesso também merecem intervenção estatal. Afinal, tudo isso “faz mal à saúde”.

Os números que revelam a dimensão do controle

O Sigap recebe meio bilhão de registros diários e possui mais de 5 milhões de arquivos na base de dados, incluindo informações sobre apostas, apostadores e carteiras. Cada brasileiro que joga online está fichado no sistema governamental.

A solução computou cerca de 342 pedidos desde que foi disponibilizada e, agora em janeiro de 2025, 67 operadoras e 139 marcas iniciaram a operação. São números impressionantes que demonstram a capacidade de monitoramento estatal.

O mercado movimenta entre 18 e 21 bilhões de reais mensais, segundo dados oficiais. Com essa quantia em jogo, o Estado justifica qualquer nível de controle. O argumento é sempre o mesmo: combater práticas ilegais, proteger consumidores e garantir transparência.

Mas transparência para quem? O cidadão não tem acesso aos próprios dados coletados pelo governo. Não sabe como são processados, armazenados ou compartilhados. A transparência é unilateral: você deve ser transparente para o Estado, mas o Estado não precisa ser transparente para você.

Questionamentos sobre a proteção social

Segundo estudos citados por organizações da área, as apostas geram perdas econômicas e sociais estimadas em 38,8 bilhões de reais anuais no país. Número alto, usado para justificar o sistema de monitoramento. Mas convenhamos: o Estado brasileiro desperdiça muito mais que isso em corrupção, má gestão e políticas ineficientes.

A plataforma de autoexclusão centralizada permite que o apostador solicite o bloqueio de acesso aos sites de apostas. O número mostra que muitos reconhecem o problema e buscam ajuda por conta própria. Não precisam de babá estatal.

O real objetivo, segundo críticos, não é proteger ninguém. É criar precedente para ampliar o controle sobre a vida privada dos brasileiros. Hoje são as apostas. Amanhã será qualquer comportamento que o governo considere inadequado.

Combater crime é função da Polícia Federal, não do Ministério da Saúde. A mistura de competências é sempre sintoma de expansão autoritária, alertam analistas.

O futuro que já chegou

A implementação do Real Digital tornará essa vigilância ainda mais abrangente. Quando toda transação financeira for rastreável em tempo real, o Estado saberá não apenas onde você aposta, mas onde compra, come, bebe e se diverte. Cada real gasto será documentado e avaliado por algoritmos governamentais.

O sistema de saúde público, que deveria tratar doenças, agora atua como braço de monitoramento comportamental. A partir de fevereiro de 2026, o SUS oferecerá teleatendimento específico para dependência de jogos, com 450 atendimentos mensais iniciais. Coincidentemente, todos os “pacientes” já estarão previamente identificados pelo sistema de vigilância.

Não somos mais indivíduos livres. Somos apenas sequências de 11 dígitos (CPF) facilmente identificadas pelos computadores estatais. O Leviatã conhece nossos vícios, fraquezas e padrões de comportamento. E usa esse conhecimento para ampliar seu controle.

A liberdade pressupõe responsabilidade, incluindo o direito de tomar decisões ruins. Se você quer gastar mal seu dinheiro, entrar em relacionamentos tóxicos ou arruinar a própria vida, essa é uma prerrogativa individual. O Estado não deveria ter poder para interferir.

Quando a “proteção” vira prisão

O discurso oficial sempre enfatiza o caráter “preventivo” e “educativo” das medidas. Mas e se você simplesmente não quiser se tratar após receber as visitas dos agentes estatais? O que acontece quando a “gentil sugestão” se transforma em imposição?

Com sua privacidade já completamente violada, que impedimento existe para o governo tornar o tratamento obrigatório? Afinal, é tudo “pelo seu bem”. Se você não é capaz de saber o que é melhor para sua vida, o Estado brasileiro se oferece para suprir essa necessidade.

O grande irmão não está satisfeito com suas práticas de consumo. E tem todas as ferramentas necessárias para corrigi-las. O sistema de monitoramento já existe, os agentes estão treinados e a justificativa moral está construída. Só falta você aceitar que não sabe cuidar de si mesmo.

Mais destrutivo que qualquer vício é a própria ação estatal. Ao interferir tão profundamente em nossas vidas, monitorando comportamentos particulares supostamente para nos defender de nós mesmos, o Estado viola toda privacidade que ainda nos restava.

A resistência necessária

Só podemos nos considerar verdadeiramente livres se tivermos liberdade para tomar péssimas decisões. Liberdade não é apenas fazer escolhas aprovadas pelo Estado. É poder errar, aprender com os erros e arcar com as consequências.

Ninguém está defendendo o vício em apostas ou qualquer comportamento autodestrutivo. O ponto é que decisões sobre sua própria vida devem ser suas, não do governo. A responsabilidade individual não pode ser terceirizada para burocratas que se julgam mais sábios que você.

É sempre melhor errar sendo livre do que acertar como escravo. O tirano que acredita estar acima do bem e do mal, conhecedor da verdade suprema e mantenedor do suposto “bem maior”, representa ameaça muito maior que qualquer vício individual.

O sistema de monitoramento de apostadores é apenas o começo. Se aceito sem resistência, será expandido para outras áreas. O Estado totalitário não surge da noite para o dia. Cresce gradualmente, sempre com justificativas nobres e promessas de proteção.

A questão não é se as apostas fazem mal ou se viciados precisam de ajuda. A questão é: quem decide o que é bom para sua vida? Você ou o Estado? A resposta a essa pergunta determinará se ainda vivemos em uma sociedade livre ou se já aceitamos a tutela permanente do Leviatã.

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