
A série Pluribus da Apple TV+ continua surpreendendo ao apresentar uma crítica equilibrada tanto ao socialismo quanto ao libertarianismo. Nos episódios 3, 4 e 5 da primeira temporada, a produção revela que nem a utopia coletivista nem o individualismo extremo oferecem soluções perfeitas para os problemas humanos.
A crítica ao libertarianismo que muitos não esperavam
Depois de dois episódios focados nos perigos da mente coletiva socialista, o terceiro episódio muda completamente o tom. A série apresenta Carol tentando se comunicar com Manousos Oviedo, o paraguaio isolado da Matrix. O resultado? Uma conversa desastrosa repleta de xingamentos e mal-entendidos.
A cena ilustra perfeitamente um problema real das sociedades libertárias: as falhas de comunicação. Enquanto a mente coletiva garante comunicação perfeita entre todos os membros, os indivíduos isolados enfrentam dificuldades básicas para se entender. Carol quer estabelecer contato, mas o paraguaio desconfia que ela seja parte da Matrix.
A crítica fica ainda mais evidente na sequência do supermercado. Carol declara sua independência e exige fazer suas próprias compras. A resposta da mente coletiva é devastadora: reabastece um supermercado inteiro apenas para ela escolher alguns itens.
A mensagem é clara – nenhum de nós é verdadeiramente independente do sistema. Até os sobrevivencialistas mais preparados dependem de fábricas e lojas para suas provisões. A série questiona a ilusão de autonomia completa que muitos libertários defendem.
Granada e bomba atômica: os riscos da liberdade total
O episódio atinge seu ponto máximo com a famosa referência à “bomba atômica recreacional”. Carol, irritada, pede ironicamente uma granada. A mente coletiva, incapaz de negar pedidos, entrega exatamente o que foi solicitado.
O resultado é previsível: Carol brinca com a granada e quase mata Zosia na explosão. A cena exemplifica um dilema libertário real – se você pode ter qualquer coisa que não agrida outros, tecnicamente pode ter uma bomba atômica para uso recreacional no deserto.
A série não está zombando do libertarianismo, mas expondo suas consequências lógicas. Uma sociedade libertária oferece mais liberdade, mas inevitavelmente menos segurança. Algumas pessoas simplesmente não têm capacidade para lidar com certas responsabilidades.
Robert Bailey Júnior aparece como funcionário da DHL representando a coletividade. Quando Carol pergunta sobre a bomba atômica, ele responde com honestidade brutal: “Se você quiser uma bomba atômica, a gente vai te dar uma bomba atômica”.
Esta é a essência do debate político moderno condensada em uma cena. Mais liberdade significa menos segurança, inevitavelmente. Um mundo libertário não é necessariamente melhor – é apenas diferente, com mais responsabilidade individual.
A investigação de Carol e o paralelo com a homossexualidade
Os episódios 4 e 5 iniciam a verdadeira investigação de Carol sobre como funciona a mente coletiva. Aqui a série traça um paralelo controverso entre a condição de Carol e a experiência homossexual.
Carol relembra o campo de reeducação que seus pais tentaram impor para “curar” sua homossexualidade. Zosia tenta convencê-la sobre as vantagens da coletividade, similar aos argumentos de que a vida heterossexual seria mais fácil.
A analogia tem mérito limitado. É verdade que heterossexuais enfrentam menos obstáculos sociais que homossexuais. Mas a série força uma comparação que funciona melhor com comunismo versus individualismo do que com orientação sexual.
Carol mantém sua posição: prefere manter sua individualidade, mesmo sendo infeliz e enfrentando dificuldades. “Eu quero ser o jeito que eu sou mesmo”, declara, rejeitando a facilidade oferecida pela coletividade.
Esta é uma escolha que transcende orientação sexual. Todo indivíduo enfrenta a tentação de se conformar ao grupo para ter vida mais fácil. A questão real é se vale a pena preservar a autonomia pessoal mesmo pagando o preço da dificuldade.
Os mistérios se aprofundam: livros e realidade
Um elemento fascinante emerge quando Carol encontra suas anotações sobre o quinto livro da série Ikaro. No quadro branco estão escritas referências à “areia movediça”, Shakespeare e a morte definitiva de Raban.
Raban é o protagonista dos livros de Carol, que sistematicamente morre em cada volume. Zosia foi escolhida pela coletividade justamente por sua semelhança física com a versão feminina original de Raban no pensamento de Carol.
A série sugere possível conexão entre os livros de Carol e os eventos reais. Seria tudo produto de sua imaginação? A referência à areia movediça pode representar o afogamento na coletividade, conforme Zosia mencionou anteriormente.
Esta camada metaliterária adiciona profundidade à narrativa. Carol não apenas enfrenta uma realidade distópica – pode estar criando essa realidade através de seus próprios processos mentais e criativos.
A descoberta crucial: eles não conseguem mentir
Carol faz uma descoberta fundamental sobre a mente coletiva através de perguntas constrangedoras. Ela questiona um membro sobre a qualidade de seus livros, comparando-os com Shakespeare.
A resposta inicial é diplomática – seus livros são “fantásticos” e salvaram vidas. Mas quando Carol insiste em comparações com Shakespeare, a verdade emerge: “Mesmo grau de importância, tão importante quanto”.
Carol não aceita essa mentira óbvia. Pressionando mais, descobre que Helen, sua falecida companheira, considerava seus livros apenas “legais” – uma forma educada de dizer medíocres.
O golpe final vem quando Carol pergunta sobre seu livro “sério”. A coletividade revela que Helen parou de ler na página 100 e jogou fora por achar “muito chato”.
A conclusão de Carol é devastadora: eles não conseguem mentir. Mesmo arriscando provocar uma crise em Carol (que poderia matar milhares como já aconteceu), a coletividade fala a verdade brutal. Esta descoberta será crucial para os próximos desenvolvimentos.
Soro da verdade e as consequências da investigação
Determinada a descobrir como reverter a condição da mente coletiva, Carol rouba tiopental sódio do hospital. Primeiro testa em si mesma, gravando confissões embarrassantes sob efeito da droga.
Uma revelação importante surge: Carol admite atração sexual por Zosia . Isso confirma que a coletividade escolheu Zosia estrategicamente, baseando-se nos desejos inconscientes de Carol relacionados ao personagem Raban.
Carol então injeta o soro em Zosia , esperando extrair informações sobre como libertar pessoas da coletividade. O plano fracassa dramaticamente – Zosia começa a passar mal, possivelmente porque a droga interfere no controle mental.
A reação da coletividade é reveladora. Pela primeira vez adotam postura “passivo-agressiva” contra Carol. Cercam-na pedindo que pare de machucar Zosia , mas sem usar força direta.
Esta pode ser a primeira evidência de que Carol descobriu algo importante. Talvez o soro da verdade seja exatamente o que liberta pessoas da mente coletiva, e eles tentaram impedir sacrificando Zosia .
O isolamento total e a descoberta macabra
Como resposta à investigação de Carol, toda a população de Albuquerque evacua a cidade. A mente coletiva mantém tom respeitoso – “nosso sentimento por você não mudou” – mas se afasta completamente.
Carol fica literalmente sozinha em uma cidade fantasma. Os únicos habitantes restantes são lobos selvagens que começam a atacar seu lixo e ameaçar o túmulo de Helen.
Investigando os restos deixados pela população, Carol descobre que todos consumiam exclusivamente um líquido nutriente fabricado. Não comida tradicional – apenas essa substância âmbar produzida industrialmente.
Seguindo a trilha até uma fábrica de ração para cães, Carol faz uma descoberta perturbadora. A produção utiliza um pó branco que corvos – conhecidos por comer carne humana – também consomem.
O cliffhanger final revela corpos humanos armazenados no frigorífico da fábrica. A implicação é aterrorizante: a mente coletiva pode estar processando os 800 milhões de mortos do incidente inicial para alimentar os sobreviventes.
Do ponto de vista da eficiência comunista, faz sentido perverso. Onde encontrar os nutrientes exatos que humanos precisam? Em outros humanos. A série leva a lógica utilitarista às últimas consequências.
Reflexões sobre nossa própria “mente coletiva”
A série funciona como espelho da sociedade atual. Quantas pessoas vivem em uma “mente coletiva” ideológica, repetindo slogans sem questionar? “O Lula deu universidade pro povo”, “deu gás pro povo” – frases que ecoam sem reflexão crítica.
A pergunta central permanece: como libertar pessoas de suas “mentes coletivas” particulares? Carol busca essa resposta na ficção, mas todos enfrentamos versões desse desafio na realidade.
A série não oferece respostas fáceis. Nem o socialismo utópico nem o libertarianismo extremo resolvem os problemas humanos fundamentais. Cada sistema tem custos e benefícios que devemos avaliar honestamente.
Pluribus continua sendo televisão inteligente que desafia espectadores de todas as orientações políticas. A verdadeira questão não é qual sistema escolher, mas como manter o pensamento crítico em qualquer sistema.
Será que Carol conseguirá “salvar o mundo do comunismo”? Ou descobrirá que a salvação real está em algo mais complexo que qualquer ideologia política pode oferecer?


