Negociadores em Abu Dhabi enquanto mísseis russos atingem Kiev - ilustração da chantagem militar de Putin

janeiro 25, 2026

Ludwig M

Putin ataca Kiev com 370 drones durante negociações de paz em Abu Dhabi

Putin lançou 375 drones e 21 mísseis contra a Ucrânia na madrugada de sábado, exatamente enquanto negociadores russos, ucranianos e americanos se reuniam em Abu Dhabi para as primeiras negociações trilaterais desde que a Rússia lançou a invasão em escala total há quase quatro anos. A cronologia não é coincidência – é pura chantagem militar.

Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.

A diplomacia da brutalidade

Steve Witkoff e Jared Kushner passaram quatro horas com Putin no Kremlin até as primeiras horas de sexta-feira, em conversas que o próprio Kremlin descreveu como “excepcionalmente profundas, construtivas e extremamente francas”. Menos de 24 horas depois, Putin respondeu com a maior ofensiva aérea em semanas.

O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, acusou Putin de agir “cinicamente”, declarando que “este ataque bárbaro prova mais uma vez que o lugar de Putin não está na mesa de paz, mas no banco dos réus”. A realidade é mais sombria: Putin não está tentando sabotar as negociações – está usando terror para melhorar sua posição nelas.

É o manual clássico do chantageador: bate na vítima enquanto “negocia” o preço do resgate. Os ataques cortaram eletricidade para mais de um milhão de ucranianos em meio ao frio subzero do inverno, matando pelo menos uma pessoa e ferindo 23 civis. Imagine passar uma noite a -10°C sem aquecimento porque um ditador quer “fortalecer sua posição negociadora”.

O padrão se repete sistematicamente: sempre que há pressão internacional por diplomacia, Putin escala a violência. Não é desespero – é estratégia. Ele acredita que demonstrando brutalidade máxima forçará concessões na mesa. E o pior: tem funcionado.

Trump e o Nobel às custas de Kiev

Por trás dessa farsa diplomática está a obsessão de Trump em conquistar um acordo que lhe renda credibilidade histórica. “O presidente Trump e toda sua equipe estão dedicados a trazer paz a esta guerra”, declarou Witkoff. Tradução: estão dedicados a um acordo rápido, não necessariamente justo.

Witkoff chegou a declarar em Davos que as negociações estavam “reduzidas a uma questão”, sugerindo que se tratava de concessões territoriais da Ucrânia. A “solução” americana é simples: entregar territórios para Putin e chamar isso de paz.

É a mesma lógica de “negociar” com um assaltante entregando a carteira. Funciona no curto prazo, cria incentivos perversos no longo. Putin aprende que violência compensa, que terror funciona, que a comunidade internacional sempre escolhe a “paz” sobre a justiça.

Quando perguntado sobre que concessões Putin deveria fazer, Trump foi vago: “Ele fará concessões. Todo mundo está fazendo concessões para resolver isso”. Mas as “concessões” de Putin são continuar com o que já conquistou pela força, enquanto a Ucrânia deve entregar o que ainda defende.

Putin exige tudo, oferece nada

O assessor do Kremlin, Yuri Ushakov, deixou claro que Putin só aceitará um acordo que entregue o controle total do Donbas à Rússia, “conforme a fórmula acordada em Anchorage” – referência a uma suposta cúpula entre Putin e Trump no Alasca no verão passado.

As exigências russas são cristalinas: Putin quer os 20% do território de Donetsk que a Ucrânia ainda controla – cerca de 5.000 km². Em troca, oferece… parar de atacar o resto do país. É como um assaltante “negociar” ficando apenas com metade da carteira.

Zelensky se recusa a entregar terra que a Rússia não conseguiu capturar em quatro anos de guerra, posição apoiada por pesquisas que mostram pouco apetite dos ucranianos por concessões territoriais. Faz sentido: por que entregar na mesa o que defenderam no campo de batalha?

A Rússia diz que quer uma solução diplomática, mas continuará trabalhando para alcançar seus objetivos por meios militares enquanto uma solução negociada permanecer elusiva. Tradução: vamos bombardear vocês até aceitarem nossas condições.

Os Emirados lucram com a medição

Os Emirados não sediam essas negociações por altruísmo. Para um país que busca se posicionar como mediador neutro no Oriente Médio, cada crise internacional é uma oportunidade de construir soft power e relacionamentos que se convertem em contratos futuros.

O país já tem experiência: facilitou “aproximadamente 17 operações bem-sucedidas de troca de prisioneiros de guerra” entre Rússia e Ucrânia. Essa diplomacia de bastidores rende prestígio internacional e influência geopolítica valiosa.

Um porta-voz do governo dos Emirados disse que as conversas foram realizadas em “atmosfera construtiva e positiva”, envolvendo oficiais militares de alto escalão de ambos os lados. Para Abu Dhabi, o simples fato de sediar essas conversas já é vitória diplomática.

Os interesses americanos nas entrelinhas

Do lado americano, não é apenas sobre “paz”. Zelensky disse estar aberto a estabelecer uma zona de livre comércio no leste da Ucrânia sob controle de Kiev, ideia que levantou com Trump. Não é difícil imaginar quais empresas americanas se beneficiariam da “reconstrução” de territórios devastados.

Guerra destrói, mas também cria oportunidades de negócio para quem tem os contatos certos. A equipe americana em Abu Dhabi incluiu não apenas diplomatas, mas também o secretário do Exército Dan Driscoll e o general da OTAN Alexus Grynkewich – sinal de que interesses de defesa estão na mesa.

A delegação incluiu Josh Gruenbaum, conselheiro sênior do Board of Peace de Trump, ao qual a Rússia foi convidada a aderir. Putin até ofereceu contribuir com US$ 1 bilhão de ativos russos congelados para financiar a reconstrução de Gaza. Trump disse que achou “ótimo” usar “o dinheiro dele”.

A realidade militar que ninguém quer admitir

Enquanto diplomatas fazem teatro em Abu Dhabi, a realidade no campo de batalha conta uma história diferente. Putin não está negociando por fraqueza – está negociando porque pode conseguir pela diplomacia o que levaria mais tempo para conquistar militarmente.

Ambos os lados disseram permanecer abertos a mais diálogos já no próximo fim de semana, mas as posições fundamentais não mudaram. A Rússia quer território, a Ucrânia quer mantê-lo, os EUA querem um acordo rápido.

A matemática é simples: se a Rússia conseguir por “negociação” o que não conquistou em quatro anos de guerra, Putin sairá vitorioso. Se a Ucrânia ceder território para “parar os tiros”, estabelecerá o precedente de que agressão compensa.

A perspectiva libertária: Estados não negociam

De uma perspectiva libertária, essa situação expõe a natureza predatória dos Estados. Putin representa o Estado russo expandindo território pela força. Trump representa o Estado americano buscando credibilidade política. A Ucrânia representa um povo tentando manter sua liberdade contra ambos os impérios.

A pergunta fundamental não é “como acabar com a guerra”, mas “por que legitimar Estados que usam força para roubar território”? Cada concessão a Putin estabelece que violência funciona, que Estados poderosos podem fazer o que quiserem com Estados menores.

Para o cidadão ucraniano comum, essas negociações representam a possibilidade de perder tudo pelo que lutou nos últimos quatro anos. Para Putin, representam a chance de legitimar conquistas territoriais. Para Trump, uma chance de ganhar reconhecimento internacional.

A única certeza é que os povos – ucraniano, russo, americano – pagam a conta de ambições estatais que não escolheram. Menos Estado significa menos guerra. Menos império significa mais liberdade.

As negociações devem continuar já em 1º de fevereiro, enquanto Putin continuará bombardeando civis para “fortalecer sua posição”. É a democracia dos mísseis: quem tem mais poder de destruição dita os termos da “paz”.

Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.

Versão: 25/01/2026 19:32

Fontes

CNBC – U.S.-brokered peace talks break off without a deal

US News – Russian Airstrikes Pound Ukraine Amid Peace Talks

Vatican News – Peace talks end without deal

NBC News – Russian airstrikes pound Ukraine amid talks

ABC News – Russia, Ukraine and US hold 1st trilateral talks

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