dezembro 15, 2025

Ludwig M

Série Pluribus: Por que o individualismo e o coletivismo fracassam – EP 06 e 07

Série Pluribus: Por que o individualismo e o coletivismo fracassam – EP 06 e 07

Quando a liberdade vira prisão: o dilema dos últimos resistentes

A série Pluribus, da Apple TV+, acaba de entregar dois episódios que destroem qualquer ilusão romântica sobre pureza ideológica. Nos episódios 6 e 7, acompanhamos Carol e Manusos enfrentando o mesmo problema: descobrir que tanto o individualismo extremo quanto a rendição ao coletivo levam ao mesmo destino – a necessidade desesperada de contato humano.

Carol, a escritora rabugenta que se recusava a aceitar o novo mundo coletivizado, finalmente descobre a fonte do “leite” que alimenta a Hive Mind. São restos humanos triturados, misturados com vegetais. O HDP – Human Derived Protein, proteína derivada de humanos. A revelação que ela achava explosiva recebe apenas um bocejo do Diabatê: “E daí? Já sabíamos disso”.

A explicação é quase lógica, dentro da loucura do sistema. Como não podem matar animais nem plantas (só podem colher frutos que caíram naturalmente), o coletivo enfrenta um déficit calórico gigantesco. Sete bilhões de pessoas precisam comer. A solução? Reciclar os mortos. Não matam ninguém para comer – apenas aproveitam quem já morreu.

É o tipo de racionalização que só uma mente coletivizada consegue fazer. Como se a morte por fome fosse mais ética que abater um boi. Como se deixar milhões morrerem por princípios veganos extremos fosse superior a aceitar a realidade: estar vivo é uma luta constante contra outras formas de vida.

A solidão dos “livres” que ninguém quer por perto

Enquanto Carol digere essa descoberta, ela recebe outra pancada. Os outros 12 sobreviventes “imunes” fazem reuniões regulares. Sem ela. A mulher que lutou tanto pela individualidade descobriu que até os individualistas formam grupos – e a excluíram.

É o paradoxo cruel da liberdade total: você pode escolher não participar, mas não pode obrigar os outros a incluí-lo. Carol, com toda sua personalidade abrasiva e suas críticas constantes, simplesmente não agrega valor ao grupo. A verdade dói, mas é verdade.

O isolamento machuca mais agora que ela sabe que não será forçada a se juntar à Hive Mind. Eles descobriram que precisariam de células-tronco humanas para “consertar” o vírus nela, o que exigiria seu consentimento. Paradoxalmente, saber que está livre para sempre a deixa mais tentada a abrir mão dessa liberdade.

É a armadilha psicológica perfeita: quando você não pode ter algo, você o deseja. Quando descobrem que não podem forçá-la a aderir, ela começa a considerar aderir voluntariamente. A mente humana é assim mesmo – contrária e carente de conexão.

O purista que paga pela gasolina em um mundo abandonado

Do outro lado do continente, Manusos representa o extremo oposto. Enquanto Carol negocia com a Hive Mind (reclamando que o refrigerante não está gelado o suficiente), ele recusa qualquer ajuda. É o purista absoluto: deixa dinheiro toda vez que pega gasolina de carros abandonados.

O homem está atravessando países para chegar até Carol, depois de receber uma fita com as descobertas dela. Aprende inglês no caminho, repetindo frases como “o cachorro amarelo caça o gato cinza”. Sua determinação é admirável e desesperadora ao mesmo tempo.

Quando chega ao Darian Gap – 100 quilômetros de selva perigosa entre a América Central e do Sul – a Hive Mind oferece transporte. Podem levá-lo até Carol em poucas horas. Sua resposta é queimar o próprio carro e entrar na mata sozinho.

“Vocês não têm nada para me dar, porque nada aqui é de vocês”, declara. “Vocês são invasores. Não posso aceitar nada roubado.” É ética pura, sem concessões. Também é completamente impraticável quando você está morrendo de infecção na selva.

A tentação do paraíso sem esforço

Enquanto Manusos luta contra árvores venenosas, Carol experimenta o oposto: vida sem limitações. Nada pelada em piscinas termais, joga golf quebrando janelas de prédios (porque pode), rouba quadros de museus (quem vai reclamar?), janta sozinha em restaurantes chiques.

Por 36 dias, vive como uma rainha em um mundo sem consequências. Pode fazer qualquer coisa, ter qualquer coisa, ir a qualquer lugar. É o sonho de consumo de qualquer pessoa cansada das limitações da vida normal. Sem trânsito, sem filas, sem pessoas chatas atrapalhando seus planos.

Mas o cérebro humano não foi feito para o paraíso. Sem desafios, sem resistência, sem outras pessoas para impressionar ou competir, a vida perde o sentido. Carol começa a fazer coisas cada vez mais destrutivas só para sentir alguma coisa. Solta fogos de artifício perigosos, quase se machucando. Qualquer coisa para quebrar o vazio.

É a maldição da abundância infinita: quando você pode ter tudo, nada tem valor. Quando não precisa conquistar nada, nada vale a pena. O ser humano precisa de obstáculos, de outros seres humanos, de desafios reais para se sentir vivo.

Quando a filosofia encontra a realidade

O episódio 7 mostra o colapso das duas abordagens. Manusos, envenenado por espinhos na selva, desmaia esperando a morte antes de aceitar ajuda “roubada”. Carol, depois de mais de um mês de liberdade total, está claramente enlouquecendo de solidão.

O purista descobre que princípios não curam infecções. A individualista descobre que liberdade sem conexão humana é só uma prisão maior. Ambos acabam precisando da Hive Mind – ele literalmente, para não morrer; ela emocionalmente, pintando “COME BACK” (volte) no chão e implorando para Zosia retornar.

É a lição mais dura do seriado: não importa quão forte sejam seus princípios ou quão pura seja sua ideologia, você ainda é humano. E humanos são animais sociais. Podemos sobreviver sozinhos por um tempo, mas não podemos prosperar sozinhos para sempre.

Tanto o individualismo extremo quanto a submissão ao coletivo falham porque ignoram a natureza dual do ser humano: precisamos de independência E de conexão, de liberdade E de comunidade.

O libertário encara seu maior dilema

Para quem defende a liberdade individual, Pluribus apresenta o dilema definitivo. Como manter uma sociedade libertária sem cair no isolamento total? Como preservar a individualidade sem perder os benefícios da cooperação?

Carol e Manusos representam os dois extremos que não funcionam. Ela tenta negociar com o sistema, aceitando alguns benefícios enquanto mantém a independência. Ele rejeita qualquer compromisso, preferindo morrer a aceitar ajuda “contaminada”. Nenhuma das estratégias funciona a longo prazo.

O verdadeiro inimigo não é o coletivismo em si, mas a ausência de escolha genuína. A Hive Mind oferece conexão humana, mas ao preço da individualidade total. Os “resistentes” oferecem liberdade, mas ao preço do isolamento completo.

É o problema que todo libertário enfrenta: como construir uma sociedade que preserve tanto a liberdade quanto a comunidade? Como evitar que a busca pela independência vire uma receita para a solidão?

A natureza humana não negocia com ideologias

O mais brutal nos episódios é ver como a necessidade de contato humano supera qualquer convicção filosófica. Não importa o quão certa esteja sua ideologia – se ela ignora necessidades humanas básicas, ela vai fracassar.

Carol pode estar certa sobre os perigos do coletivismo. Manusos pode estar certo sobre a importância da ética individual. Mas ambos descobrem que estar certo não é suficiente se você está sozinho. A verdade sem companhia é apenas uma verdade fria e inútil.

É a tragédia de todos os puristas ideológicos: eles preferem estar certos e isolados a estar conectados e fazendo concessões. Mas a natureza humana não liga para pureza filosófica. Ela liga para sobrevivência, conexão e significado.

No final, tanto o utilitarismo de Carol (“vou aproveitar a vida”) quanto o purismo de Manusos (“não aceito nada roubado”) cedem à mesma força: a necessidade desesperante de não estar sozinho no mundo.

Talvez a verdadeira liberdade não seja escolher entre individualismo e coletivismo, mas encontrar formas de ter ambos sem sacrificar a humanidade no processo. Porque no fim das contas, uma ideologia que ignora a natureza social do ser humano não é libertária – é apenas uma forma sofisticada de suicídio.

A pergunta que fica é: existe uma terceira via entre a submissão total ao coletivo e o isolamento completo do indivíduo? Ou estamos todos condenados a escolher entre conexão sem liberdade e liberdade sem conexão?

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