dezembro 13, 2025

Ludwig M

Moraes comemora fim das sanções, mas vitória pode ser ilusória

Moraes comemora fim das sanções, mas vitória pode ser ilusória

A festa de lançamento do SBT News virou palco de comemoração para Alexandre de Moraes. O presidente do STF aproveitou o evento para declarar que “a verdade venceu”, logo após ter seu nome retirado da lista de sancionados da Lei Magnitsky pelos Estados Unidos. Mas a história já mostrou que vitórias diplomáticas aparentes podem esconder acordos muito mais profundos – e não necessariamente favoráveis ao governo brasileiro.

O evento reuniu toda a elite política brasileira: Lula, Janja, Alckmin, Haddad, Lewandowski, Tarcísio de Freitas, Ricardo Nunes e Gilmar Mendes. A presença maciça da cúpula do poder transformou o lançamento de mais um canal de notícias em demonstração de força do establishment. Moraes não desperdiçou a oportunidade de interpretar o fim das sanções como vitória pessoal e institucional.

Porém, um episódio histórico lança dúvidas sobre o real significado dessa “vitória”. Em 1978, o presidente americano Jimmy Carter pressionou duramente a ditadura militar brasileira por violações aos direitos humanos. As ameaças incluíam cortes na ajuda militar e rompimento de vínculos diplomáticos. Na época, o general Ernesto Geisel também comemorou quando Carter recuou e retirou as pressões.

O paralelo histórico que deveria preocupar Brasília

A crise diplomática de 1978 entre Brasil e Estados Unidos guarda semelhanças impressionantes com o episódio atual. Carter colocou os direitos humanos no centro de sua política externa e criticou abertamente a tortura praticada pela ditadura militar. O governo americano se opôs até mesmo ao acordo nuclear com a Alemanha, que resultou na construção dos reatores de Angra dos Reis.

Durante meses, as relações entre os dois países viveram seu pior momento desde a Segunda Guerra Mundial. Carter pressionou o regime militar com ameaças econômicas e diplomáticas. O Brasil resistiu, manteve sua posição e aparentemente saiu vitorioso quando os americanos mudaram de tom e o próprio Carter veio ao Brasil para um encontro cordial com Geisel.

Na época, a vitória brasileira pareceu completa. As sanções foram retiradas, as relações se normalizaram e o governo militar celebrou ter dobrado o presidente americano. Geisel foi aplaudido por defender a soberania nacional contra a pressão externa. Exatamente como Moraes está sendo aplaudido agora por seus aliados.

Mas a história revelou que a “vitória” tinha um preço oculto. Logo no ano seguinte, em 1979, foi anunciado que João Figueiredo seria o próximo presidente militar – já com a missão específica de conduzir a reabertura política. O processo de distensão “lenta, gradual e segura” começou exatamente após a suposta vitória diplomática de Geisel.

SBT News surge em meio à polarização crescente

O lançamento do SBT News acontece num contexto de crescente disputa narrativa no Brasil. O canal, comandado por Fábio Faria – ex-ministro das Comunicações de Bolsonaro -, promete “total imparcialidade”. A promessa soa otimista demais considerando a presença de toda a elite política governista na festa de inauguração.

Faria não pode ser acusado de esquerdismo, dado seu passado no governo Bolsonaro. Mas a pressão do atual establishment sobre veículos de comunicação é uma realidade que não pode ser ignorada. A presença maciça de autoridades governamentais no evento de lançamento já sinaliza qual será o tom esperado do novo canal.

O SBT News será mais uma opção no já saturado mercado de canais de notícias 24 horas no Brasil. GloboNews, Record News e BandNews já ocupam esse espaço há anos. A diferença prometida seria a imparcialidade total, mas essa promessa soa familiar – e raramente se concretiza na prática.

O canal funcionará como operação multiplataforma, com transmissão na TV fechada, YouTube e canais de streaming para TVs conectadas. A estratégia segue o padrão atual de distribuição de conteúdo, tentando alcançar diferentes gerações de consumidores de notícias. Resta saber se conseguirá se diferenciar dos concorrentes já estabelecidos.

A celebração prematura de Moraes

Alexandre de Moraes interpretou a retirada de seu nome da lista Magnitsky como vitória da “soberania nacional”. O discurso ecoou exatamente a retórica usada por Geisel em 1978, quando as pressões americanas cessaram. A coincidência não é casual – governos autoritários sempre vendem recuos diplomáticos externos como vitórias internas.

A questão é que vitórias diplomáticas raramente são gratuitas nas relações internacionais. Os Estados Unidos não costumam recuar sem obter algo em troca, especialmente quando se trata de questões que consideraram importantes o suficiente para justificar sanções. A pressão visível é frequentemente apenas a ponta do iceberg das negociações reais.

O timing da retirada das sanções, logo antes do evento do SBT, permitiu que Moraes transformasse uma cerimônia empresarial em palanque político. A mensagem foi clara: o establishment brasileiro saiu fortalecido do embate com Washington. Mas histórias de bastidores diplomáticos geralmente são bem mais complexas que as narrativas públicas.

A verdadeira medida do significado dessa “vitória” será o que acontecer nos próximos meses. Se o paralelo com 1978 se confirmar, mudanças estruturais importantes podem estar sendo negociadas longe dos holofotes. A diferença é que, desta vez, não se trata de transição de uma ditadura militar para a democracia, mas de possíveis limites ao ativismo judicial.

Tarcísio na corda bamba da realpolitik

A presença de Tarcísio de Freitas no evento e seus aplausos ao discurso de Moraes geraram críticas nas redes sociais bolsonaristas. Parte da base considera que o governador paulista deveria manter postura mais confrontativa com o presidente do STF. A crítica reflete a tensão entre pureza ideológica e pragmatismo político.

Porém, a estratégia de Tarcísio faz sentido do ponto de vista da realpolitik. Como governador e potencial candidato presidencial, ele precisa construir pontes institucionais para governar efetivamente. Confronto direto com o STF poderia inviabilizar projetos importantes para São Paulo e prejudicar uma eventual candidatura nacional.

O dilema de Tarcísio ilustra um problema maior da oposição brasileira: como equilibrar as demandas da base mais radical com a necessidade de construir alianças para chegar ao poder. A experiência internacional mostra que movimentos que privilegiam a pureza ideológica sobre a estratégia política frequentemente permanecem eternamente na oposição.

Além disso, Tarcísio pode estar apostando que questões como a perseguição a Bolsonaro e os presos do 8 de janeiro serão resolvidas quando houver mudança no comando federal. Manter canais de diálogo abertos com o sistema atual pode ser mais efetivo que o confronto direto para alcançar esses objetivos no futuro.

O que a história ensina sobre pressões americanas

O episódio de 1978 oferece lições importantes sobre como Washington opera quando quer mudanças em países aliados. A pressão pública – sanções, críticas diplomáticas, ameaças econômicas – é frequentemente acompanhada por negociações privadas muito mais substantivas. O objetivo americano raramente é apenas humilhar o governo estrangeiro.

No caso da ditadura brasileira, os americanos sabiam que tinham poder suficiente para “destruir o Brasil rapidamente, economicamente ou de qualquer forma”. Mas o interesse real era alinhar o país aos objetivos americanos, não destruí-lo. Por isso aceitaram a solução negociada que resultou na transição democrática gradual.

A lógica pode ser similar no caso atual. Os Estados Unidos não querem transformar o Brasil numa Venezuela, com economia destruída e instabilidade política crônica. O interesse americano é manter o país como aliado confiável, mas com instituições que respeitem minimamente as regras democráticas básicas.

Se essa interpretação estiver correta, a retirada das sanções contra Moraes pode ter vindo acompanhada de compromissos privados sobre limites ao ativismo judicial. A diferença é que, ao contrário de 1978, esses compromissos não precisariam esperar uma nova eleição para começar a ser implementados.

O establishment brasileiro entre vitória e incerteza

A elite presente no evento do SBT News claramente interpretou a retirada das sanções como vitória do modelo político atual. A mensagem implícita foi que o “bolsonarismo” havia sido derrotado definitivamente, tanto internamente quanto no cenário internacional. Moraes personifica essa narrativa de vitória institucional.

Porém, vitórias políticas baseadas apenas em manobras institucionais tendem a ser frágeis quando não correspondem ao humor real da população. As pesquisas continuam mostrando alta rejeição ao governo Lula e crescente desconfiança nas instituições. Nenhuma pressão externa mudou essa realidade doméstica.

Além disso, a comparação com 1978 deveria ser fonte de cautela, não de comemoração. Na época, os militares também acharam que haviam vencido os americanos definitivamente. Dois anos depois, começaram a entregar o poder gradualmente. A história sugere que vitórias diplomáticas aparentes podem esconder derrotas estratégicas reais.

O ano de 2026 será o teste definitivo para todas essas especulações. Se o paralelo histórico se confirmar, as eleições presidenciais podem trazer mudanças mais profundas que as aparentes vitórias diplomáticas de hoje. A diferença é que, desta vez, a mudança pode vir através do voto, não de negociações em gabinetes fechados.

A festa do SBT News simbolizou um momento de euforia para o establishment brasileiro. Mas a história ensina que momentos de euforia política podem ser exatamente quando os ventos começam a mudar de direção. A verdadeira medida dessa “vitória” só será conhecida nos próximos meses.

Resta saber se Moraes realmente venceu ou se, como Geisel em 1978, apenas ganhou tempo antes de mudanças mais profundas. A resposta pode determinar o futuro político do país.

Fontes

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