A Rússia voltou a usar o míssil Oreshnik contra a Ucrânia, dessa vez atingindo Lviv. Mas análises técnicas revelam que o armamento apresentado por Moscou como “revolucionário” na verdade é baseado em tecnologia soviética dos anos 60 e pode ser interceptado por sistemas de defesa existentes. A diferença entre propaganda e realidade nunca foi tão clara.
Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em debates públicos e fontes abertas. Não afirma como fatos comprovados condutas ilegais ou ilícitas. Seu objetivo é promover reflexão crítica sobre temas de interesse público.
O ataque que expôs as limitações russas
O segundo uso operacional do Oreshnik aconteceu na noite de 8 de janeiro, quando a Rússia lançou um míssil balístico de alcance intermediário contra alvos no oeste ucraniano. Diferentemente do primeiro ataque em Dnipro, que seguiu trajetória vertical característica de mísseis balísticos, o disparo contra Lviv mostrou trajetória inclinada.
Essa diferença técnica revela algo importante: os russos ainda estão experimentando com o sistema. E isso não é coincidência. Não existe um míssil operacional consolidado, mas sim variações de teste que confirmam o caráter experimental do projeto. A mudança na trajetória indica alterações no primeiro estágio do míssil, mantendo apenas o segundo.
Segundo análise militar da Defense Express, o ataque russo com o Oreshnik não teve propósito de combate real, sendo equipado apenas com simulacros dimensionais. O sistema cinético, sem explosivos reais, combinado com baixa precisão, torna o Oreshnik praticamente inútil como arma convencional.
A análise dos destroços coletados pelos ucranianos confirma o que muitos suspeitavam: trata-se de reaproveitamento de componentes soviéticos antigos. O “míssil do futuro” russo é, na verdade, lixo tecnológico do passado disfarçado de inovação. Quem quer que tenha decidido gastar dinheiro público russo nessa charada certamente não estava pensando no contribuinte comum.
Tecnologia soviética disfarçada de novidade
Contrário à propaganda russa, o Oreshnik é um míssil notoriamente difícil de interceptar segundo análises do CSIS. Pode viajar até 5.500 km, atinge velocidade terminal de aproximadamente Mach 11 e carrega seis ogivas nucleares. Mas velocidade hipersônica não é sinônimo de tecnologia revolucionária.
O míssil deriva do programa RS-26 Rubezh, um sistema que nunca entrou em produção em massa devido ao alto custo. Por sua vez, esse programa tem origem em projetos soviéticos desenvolvidos na própria Ucrânia, na região de Kharkiv. A ironia é evidente: a Rússia tenta intimidar a Ucrânia com tecnologia originalmente ucraniana. É como tentar impressionar alguém com o próprio trabalho que ela criou.
No ataque contra a Ucrânia, as ogivas foram substituídas por simulacros. Atualmente, a Ucrânia não possui armas capazes de interceptar esses mísseis. Mas isso não significa que a tecnologia não exista.
A comparação com projetos verdadeiramente inovadores é devastadora para Moscou. Enquanto outras potências desenvolvem sistemas genuinamente hipersônicos com capacidade de manobra, a Rússia recicla tecnologia dos anos 60 e a apresenta como avanço do século XXI. É o equivalente militar de tentar vender um fusca 1968 como carro do ano.
Por que o Oreshnik não é invencível
A alegação russa de que o Oreshnik seria “impossível de interceptar” não resiste à análise técnica. Sistemas como SM-3 com Aegis ou Aegis Ashore, e muito provavelmente Arrow 3 e THAAD podem lidar totalmente com esse tipo de ameaça, tecnologias já disponíveis para países ocidentais.
O ponto vulnerável do Oreshnik está na fase inicial de voo, antes da separação das cargas. Durante essa fase, fora da atmosfera, sistemas como o THAAD americano e o Arrow 3 israelense podem neutralizar todo o conjunto de ogivas de uma só vez. É a diferença entre derrubar uma hydra cortando todas as cabeças ou tentando perseguir cada uma separadamente – muito mais eficiente do primeiro jeito.
Segundo análise militar, baterias Aegis Ashore na Polônia e Romênia, equipadas com interceptadores SM-3, poderiam interceptar o Oreshnik. Uma está localizada no norte da Polônia em Redzikowo, a segunda no sul da Romênia em Deveselu. Em 3 de dezembro de 2025, a Força Aérea alemã ativou os primeiros elementos do sistema Arrow 3 na Base Aérea de Holzdorf.
Israel tem experiência prática interceptando mísseis similares do Irã usando exatamente esses sistemas. A tecnologia funciona, foi testada em combate real e está disponível comercialmente. A única questão é vontade política de fornecê-la aos ucranianos. E aqui está o problema: enquanto políticos debatem, pessoas comuns sofrem as consequências.
A verdadeira agenda por trás dos testes
É possível que neste caso a Rússia estivesse testando não seu míssil balístico de alcance intermediário, mas como ele era rastreado na Europa. Atualmente três sistemas antimísseis de alta altitude operam em países da UE.
O Arrow 3 tem alcance declarado de interceptação exoatmosférica de 2.400 km, com radar capaz de detectar alvos até 900 km de distância. Tal alcance também é suficiente para ver a trajetória final do Oreshnik sobre Lviv, que fica a 800 km do Arrow 3 alemão.
Essa hipótese explicaria por que a Rússia “desperdiçou” um míssil caro em um ataque sem propósito militar claro. Segundo análise da inteligência ucraniana, a Rússia planeja produzir apenas seis unidades do Oreshnik em 2026, com apenas um míssil disponível em outubro de 2025.
O teste real não era do míssil russo, mas da capacidade de detecção e rastreamento ocidental. Moscou queria saber se seus movimentos estão sendo monitorados e com que precisão. A resposta provavelmente os desapontou: todos os sistemas defensivos europeus acompanharam perfeitamente o lançamento e a trajetória. Afinal, quando você gasta bilhões em sistemas de defesa, é bom que eles funcionem.
Impacto limitado, propaganda máxima
O poder destrutivo efetivo do Oreshnik é questionável. Com baixa precisão e ogiva cinética, é como lançar projéteis de 150kg do espaço, cuja área de impacto equivale ao seu próprio diâmetro.
Para armas convencionais, precisão é fundamental. Se você não consegue garantir que vai acertar o alvo planejado, a utilidade militar despenca drasticamente. O próprio ataque a Lviv confirma isso: deveria atingir uma instalação industrial específica, mas acabou atingindo um depósito de gás próximo. É como tentar acertar um mosquito com um martelo – muito barulho, pouco resultado.
O valor propagandístico, porém, é inegável. Especialista militar do Chatham House afirmou que embora o míssil Oreshnik não altere a dinâmica no campo de batalha, serve efetivamente ao propósito do Kremlin de intimidar audiências ocidentais. É psicologia militar aplicada em escala continental.
A estratégia russa aposta no medo do desconhecido. Quanto menos informação técnica precisa estiver disponível, maior o espaço para especulação e ansiedade. Por isso Moscou enfatiza características misteriosas e capacidades “sem precedentes”, mesmo quando a realidade técnica é bem mais modesta. É a velha tática de fazer muito barulho para esconder a falta de substância.
O que isso significa para o futuro do conflito
O uso do Oreshnik forçou uma revisão acelerada de cenários defensivos. Especialistas alertam que se a proteção anti-drone do Arrow 3 não for significativamente fortalecida, o sistema pode se tornar um dos primeiros alvos em caso de conflito direto com a Rússia. Pode não levar mísseis caros para desabilitá-lo, mas sim alguns drones baratos. O risco é exacerbado pelo fato de que a estação de radar do Arrow 3 é estacionária e suas coordenadas são bem conhecidas.
A resposta européia está sendo pragmática: acelerar a aquisição e implantação de sistemas capazes de lidar com ameaças balísticas avançadas. A Alemanha já ativou seu Arrow 3, outros países consideram aquisições similares. O resultado paradoxal? A intimidação russa está estimulando o fortalecimento das defesas ocidentais. É quase como se Putin estivesse fazendo propaganda gratuita para a indústria de defesa ocidental.
Para a Ucrânia, a situação reforça a urgência de obter acesso a sistemas de defesa de alta altitude. Não faltam opções técnicas; falta decisão política dos aliados. A tecnologia existe, funciona e está comercialmente disponível. O que falta é alguém ter coragem de assinar o cheque.
O episódio também expõe as limitações industriais russas. Produzir apenas seis mísseis por ano de seu “sistema revolucionário” mostra constrangimentos sérios de capacidade produtiva. Para comparação, os Estados Unidos produzem centenas de interceptadores por ano para seus sistemas defensivos. É a diferença entre uma fábrica artesanal e uma linha de produção industrial.
Lições para o livre mercado de defesa
O caso Oreshnik ilustra perfeitamente as diferenças entre economia planificada e livre mercado na área de defesa. Enquanto a Rússia gasta recursos limitados em projetos de prestígio com capacidade produtiva restrita, o Ocidente desenvolve soluções efetivas em escala comercial.
Israel desenvolveu e comercializa o Arrow 3. Os Estados Unidos operam múltiplos sistemas interceptadores. A Alemanha comprou tecnologia israelense comprovada ao invés de tentar reinventar a roda. O resultado é uma rede defensiva robusta, testada e expansível. É assim que o mercado deveria funcionar: competição gerando inovação real.
A inovação real vem da competição entre empresas, não de decretos governamentais. Sistemas como THAAD e Arrow 3 existem porque empresas precisaram competir por contratos, demonstrar eficácia real e cumprir especificações rigorosas. O Oreshnik existe porque alguém em Moscou decidiu que precisava de um “míssil revolucionário” para fins propagandísticos.
A diferença nos resultados é evidente: de um lado, sistemas operacionais, testados e comercialmente viáveis; do outro, protótipos caros com capacidade duvidosa e produção limitadíssima. É a prova viva de que quando o Estado tenta brincar de empresário, o resultado costuma ser decepcionante – e caro para quem paga as contas.
Diante de tudo isso, fica evidente que a maior ameaça do Oreshnik não está em suas capacidades técnicas, mas na desinformação que o cerca. Quando conhecimento técnico preciso substitui propaganda militar, as verdadeiras dimensões da ameaça se tornam muito mais gerenciáveis. É sempre assim: a ignorância alimenta o medo, o conhecimento traz a liberdade.
Resta saber se o Ocidente terá coragem política de fornecer à Ucrânia as ferramentas defensivas que sabidamente funcionam contra esse tipo de ameaça. A tecnologia existe, a capacidade produtiva também. Falta apenas vontade de usá-las. E enquanto isso, pessoas comuns pagam o preço da hesitação política.
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 11/01/2026 11:04



