A guerra da Rússia na Ucrânia atingiu hoje uma marca histórica: 1.418 dias de duração, exatamente a mesma quantidade de dias da chamada “Grande Guerra Patriótica”, como os russos se referem ao período entre a invasão nazista em 1941 e a vitória em Berlim em 1945. A diferença? Bem, dessa vez os resultados são — como diríamos diplomaticamente — um pouco mais constrangedores.
Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em debates públicos e fontes abertas. Não afirma como fatos comprovados condutas ilegais ou ilícitas. Seu objetivo é promover reflexão crítica sobre temas de interesse público.
O marco que expõe o fracasso russo
A guerra da Rússia na Ucrânia já durou um dia a mais do que a guerra da União Soviética contra a Alemanha nazi na Segunda Guerra Mundial. Para os russos, que contam o início da Segunda Guerra Mundial a partir da operação Barbarossa em 1941, não a invasão da Polônia em 1939, esse marco é devastador.
Na “Grande Guerra Patriótica”, os soviéticos partiram de Stalingrado (hoje Volgogrado) e chegaram até Berlim. Reconquistaram a Ucrânia inteira, avançaram pela Romênia e chegaram ao coração da Alemanha. Foi uma demonstração de força que consolidou a União Soviética como potência mundial.
Agora, após o mesmo período de tempo, segundo reportagem da CNN Portugal, a Rússia lançou um ataque aéreo a Kiev durante a noite de segunda-feira, provocando um incêndio em um dos distritos da cidade. Uma vila aqui, um distrito ali. Após 1.418 dias de guerra, essas são as “conquistas” de Putin.
Os números são, para ser franco, constrangedores. No início da invasão, a Rússia chegou a controlar quase 30% do território ucraniano. Esteve perto de Kiev, havia tomado grande parte de Kharkiv. Hoje? Durante 14 meses, a Rússia concentrou esforços para capturar Pokrovsk, uma cidade que antes da guerra tinha apenas 61 mil habitantes. Mesmo após mais de um ano de ofensiva, segundo reportagens, Pokrovsk não está totalmente sob controle russo. É como usar um martelo para matar uma mosca… e ainda assim errar o golpe.
A matemática das baixas que ninguém quer ver
As contas não fecham no lado russo. E quando digo “não fecham”, é porque literalmente não há soldados suficientes para fechar a conta. Analistas militares russos fazem perguntas incômodas: onde estão os soldados?
Segundo dados oficiais russos, foram contratados 540.000 soldados em 2023, 440.000 em 2024 e 400.000 em 2025. Somando os mobilizados (pelo menos 300.000), grupos militares privados e conscritos enviados irregularmente, chegamos a mais de 1,7 milhão de homens mobilizados para a guerra.
Putin afirmou em dezembro ter 700.000 soldados na linha de frente. A pergunta que os próprios russos fazem é simples: onde estão os outros? A resposta mais provável, segundo análise da CNN Portugal, é que morreram. Estima-se que a conquista destes escassos 1,45% de território tenha matado ou ferido entre um a 1,35 milhões de soldados russos. Não houve rotação significativa de unidades, e as perdas russas são sistematicamente ocultadas do público.
A estratégia ucraniana é clara: trocar território por soldados russos. Para cada quilômetro conquistado, a Rússia paga um preço em vidas humanas que se torna insustentável. É uma matemática brutal, mas eficaz — e que expõe a completa incompetência de um Estado que trata seus próprios cidadãos como carne de canhão descartável.
O isolamento da Transnístria: vitória sem disparar um tiro
Às vezes, as maiores vitórias vêm não dos campos de batalha, mas das decisões econômicas. E aqui temos uma lição magistral sobre como cortar o cordão umbilical de um regime fantoche.
A Ucrânia e a Moldávia cortaram completamente o fornecimento de suprimentos militares à Transnístria. Ambos os países fecharam todos os postos de controle em todas as estradas que levam à região separatista da Moldávia, deixando 1.500 soldados russos isolados no território.
A Transnístria era o protótipo das “repúblicas separatistas” russas, criada em 1992 com ajuda da própria Ucrânia, que na época ainda estava alinhada com Moscou. O objetivo era impedir que a Moldova se integrasse à Europa. Funcionou por décadas. Até agora.
Em 1º de janeiro, a Ucrânia anunciou o fim da passagem de gás russo pelo território ucraniano. Sem gás russo, as autoridades da Transnístria tiveram de impor cortes de energia elétrica e suspender o funcionamento de muitas indústrias.
A região está em colapso total. As pessoas não têm eletricidade por quatro horas por dia, sem aquecimento e, acima de tudo, sem acesso ao gás. É uma situação terrível para os 450.000 residentes — cidadãos comuns que pagam o preço pelas ambições geopolíticas de seus “protetores”.
A propaganda russa entra em colapso
Quando até os próprios apoiadores começam a questionar, você sabe que a coisa está feia. Bloggers militares russos, tradicionalmente apoiadores do Kremlin, começam a expressar desespero.
Maxim Kalashnikov, influente analista militar russo, escreveu que “nossa infantaria é forçada a jogar com corpos contra drones para avanços com a velocidade de tartarugas”. Para ele, está claro que os benefícios desta guerra serão divididos entre Estados Unidos e China, enquanto “os russos vão ficar com o sangue, as ruínas e as perdas”.
Não é exagero retórico. É a admissão de que a estratégia russa fracassou completamente. Outro blogger russo, do canal DSHRG, questiona abertamente onde foram parar os mais de 1,7 milhão de soldados mobilizados. A conclusão é óbvia, mas ninguém ousa dizê-la oficialmente: morreram na linha de frente, vítimas de uma guerra que nunca deveria ter começado.
O pessimismo se espalha como um vírus. Analistas russos começam a especular sobre o “pós-guerra” como se Putin já tivesse caído. Falam de uma “nova perestroica”, de mudanças de poder, de responsabilização pelos fracassos. É o discurso de quem sabe que o regime atual não sobreviveu politicamente ao desastre militar.
A Ucrânia se prepara para um acordo que pode não vir
Enquanto a Rússia entra em depressão coletiva, a Ucrânia dá sinais contraditórios. Por um lado, constrói fortificações ao longo do rio Dniepro na região de Kherson, sugerindo preparativos para um possível acordo de paz que cristalize as posições atuais.
Por outro lado, intensifica ataques à infraestrutura russa. O Exército da Ucrânia confirmou um ataque noturno ao depósito de petróleo de Zhutovskaya, na região de Volgogrado, na Rússia, nos dias 9 e 10 de janeiro, como parte dos esforços para reduzir a capacidade ofensiva da Rússia.
Os ucranianos também atacaram três plataformas petrolíferas da Lukoil no Mar Cáspio e uma estação termelétrica em Novocherkassk, perto de Rostov. O resultado foi deixar regiões ocupadas pela Rússia no Donbass sem energia elétrica. É uma demonstração de que podem atingir interesses russos muito além da linha de frente.
E mais: as informações indicam que Zelensky apresentou projetos de lei que propõem estender tanto o estado de emergência quanto a mobilização na Ucrânia por mais 90 dias, com vigência até maio de 2026. Definitivamente não parece ser a atitude de quem planeja assinar a paz amanhã.
O Ocidente se posiciona para o pós-guerra
Não é apenas armamento. É uma mensagem clara: o Ocidente não pretende abandonar a Ucrânia mesmo que Trump negocie algum tipo de trégua com Putin. Londres desenvolver mísseis especificamente para Kiev atingir território russo é uma escalada significativa do comprometimento britânico.
A Grã-Bretanha também vai alocar £200 milhões para preparar as tropas para um possível desdobramento na Ucrânia. A Europa se prepara para uma presença militar permanente na Ucrânia pós-conflito. É o reconhecimento de que qualquer acordo com a Rússia precisará de garantias militares concretas, não apenas promessas diplomáticas — porque, afinal, quem ainda confia na palavra de Putin?
Trump entre a realidade e as expectativas
Donald Trump, que prometeu resolver o conflito rapidamente, começa a mostrar sinais de que compreende a complexidade da situação. Disse que acha que não será necessário capturar Putin, mas não descartou essa possibilidade. “Tenho um ótimo relacionamento com Putin”, afirma.
É um discurso muito diferente do tom mais agressivo que adotou com outros líderes. Trump prendeu Maduro na Venezuela, mas trata Putin com cuidado. Talvez porque entenda que a Rússia tem armas nucleares, talvez porque perceba que Putin está em posição mais fraca do que aparenta.
A “última cartada” de Putin era fazer Trump resolver a guerra em seus termos. Não funcionou. Trump pode até negociar, mas não nos termos russos. A matemática militar não permite: a Rússia não está ganhando esta guerra, está apenas prolongando uma derrota inevitável.
Os aliados de Putin começam a abandoná-lo. Perdeu a Síria, está perdendo influência no Irã e na Venezuela. Restam China e Coreia do Norte — e a China trata a Rússia cada vez mais como parceiro júnior, não como aliado igual. É a solidão do poder em decadência.
A conta final de uma guerra perdida
Após 1.418 dias, a Rússia conquistou algumas vilas no leste da Ucrânia ao custo de centenas de milhares de soldados mortos, uma economia devastada pelas sanções, o isolamento internacional e a perda de influência global. Não conseguiu tomar Kiev, não conseguiu derrubar o governo ucraniano, não conseguiu impedir a aproximação da Ucrânia com o Ocidente.
Pior: demonstrou ao mundo que suas Forças Armadas são muito menos capazes do que se imaginava. O mito da invencibilidade militar russa morreu nos campos da Ucrânia. Países que antes temiam Moscou agora sabem que a Rússia é, nas palavras de seus próprios analistas, uma “potência regional” em declínio.
A Transnístria isolada é o símbolo perfeito desta nova realidade. Uma “república” fantoche que nem a própria Rússia consegue mais sustentar. Soldados russos cercados, sem suprimentos, sem perspectiva de resgate. É a miniatura do que aconteceu com todo o projeto imperial russo na Ucrânia.
O tempo trabalha contra Putin. Cada dia adicional desta guerra torna mais difícil justificar o sacrifício para a população russa. Quando os soldados voltarem para casa — os que sobreviverem — será muito difícil explicar por que tantos morreram para conquistar tão pouco.
Afinal, quando um Estado trata seus próprios cidadãos como números descartáveis numa planilha militar, quando sacrifica uma geração inteira por ambições imperiais, quando mente sistematicamente para seu próprio povo sobre os resultados de sua aventura militar — esse Estado perdeu qualquer legitimidade moral para governar.
E você, o que pensa sobre essa virada histórica? Será que a Rússia conseguirá reverter este cenário devastador, ou estamos vendo o fim definitivo do sonho imperial russo?
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 12/01/2026 11:34
Fontes
- Exame – Guerra russa na Ucrânia atinge mesma duração da Segunda Guerra Mundial
- CNN Portugal – 1.418 dias depois, a guerra de Putin ultrapassa a duração da II Guerra Mundial
- Pravda Portugal – Ucrânia e Moldávia cortaram fornecimento militar à Transnístria
- Observador – Transnístria sem gás russo e com falhas energéticas
- CNN Portugal – Guerra ao minuto na Ucrânia



