Imagem ilustrativa sobre sistema de monitoramento de criptomoedas implementado pelo governo brasileiro

janeiro 13, 2026

Ludwig M

Governo Lula investe R$ 8,6 milhões em sistema de rastreamento cripto

O Ministério da Justiça e Segurança Pública formalizou contrato de R$ 8,6 milhões para adquirir tecnologia de monitoramento de criptomoedas. O sistema, fornecido pela empresa Iafis Systems do Brasil, começou a operar em dezembro de 2025 com validade até dezembro de 2026. A ferramenta promete monitorar transações em Bitcoin, Ethereum, Tron, Dash, XRP e outras redes blockchain. Resta saber se essa vigilância funciona conforme o prometido.

Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não afirma a prática de crimes ou ilícitos como fatos comprovados, nem atribui intenções a pessoas ou instituições. As críticas expressas representam a linha editorial do veículo, no exercício da liberdade de opinião. Mencionados que desejarem manifestar-se podem entrar em contato para direito de resposta.

O contrato milionário para monitorar criptomoedas

Segundo informações da TradingView, a Iafis Systems do Brasil venceu a licitação após concorrência que envolveu outras 11 empresas, oferecendo R$ 170 mil por licença de acesso, totalizando R$ 8,67 milhões pelo contrato de 51 acessos.

O valor final surpreendeu por estar muito abaixo do teto inicial. Conforme reportado pela Livecoins, os planos federais indicavam um valor máximo de R$ 49 milhões para a contratação. A diferença de mais de R$ 40 milhões indica que o governo conseguiu reduzir drasticamente o custo previsto — ou que superestimou inicialmente o valor da tecnologia.

O contrato determina treinamento por 36 meses para servidores públicos, incluindo suporte técnico, atualizações e capacitação prática. É dinheiro público sendo direcionado para ensinar funcionários a monitorar a vida financeira digital dos cidadãos — uma prioridade questionável para um país com tantos problemas básicos…

A solução abrange múltiplas redes. Segundo o TechCripto, o sistema permite rastreamento em Ethereum, Tron, Dash, XRP, Binance Coin, Dogecoin, Polygon e Avalanche. Em outras palavras, nenhuma criptomoeda popular escapa do radar estatal. Afinal, por que deixar alguma forma de liberdade financeira passar despercebida?

A promessa versus a realidade técnica

O governo promete capacidade para mapear IPs e identificar pessoas por trás das carteiras de Bitcoin. A realidade técnica, contudo, é bem diferente. O Bitcoin foi projetado justamente para funcionar sem depender de servidores centrais ou conexões diretas entre usuários.

Quando você realiza uma transação Bitcoin, não está enviando mensagem diretamente para a carteira do destinatário. O processo é mais complexo: você criptografa a transação com sua chave privada e a chave pública do destinatário, depois envia essa informação para qualquer nó da rede Bitcoin.

Esses nós conectam-se aleatoriamente com outros dez nós, que por sua vez conectam-se com outros dez, criando uma rede descentralizada. Sua transação se espalha por toda a rede sem que seja possível identificar de qual máquina ou IP ela originou. É como soltar um papel em uma multidão — impossível rastrear quem foi o primeiro a passar adiante.

O blockchain do Bitcoin é público, sim. Qualquer pessoa pode ver que a carteira A enviou X bitcoins para a carteira B. Mas saber de quem são essas carteiras é o verdadeiro desafio. Conforme explica a BlockTrends, softwares de blockchain analytics operam cruzando dados públicos on-chain com bases de endereços rotulados e heurísticas de vinculação entre transações, resultando em uma camada de inteligência que permite visualizar fluxos e identificar padrões.

Onde o rastreamento realmente funciona

As ferramentas de vigilância governamental têm eficácia limitada a pontos específicos do ecossistema cripto. E é exatamente onde o Estado quer que você esteja: dependente de intermediários que ele pode controlar.

O ponto fraco está nas corretoras centralizadas. Quando você compra Bitcoin em uma exchange brasileira, ela sabe exatamente quem você é — seu CPF, endereço, conta bancária. Se você transferir Bitcoin da corretora para uma carteira externa, essa transferência fica registrada no blockchain público.

É aí que entram as empresas de monitoramento. Elas mapeiam quais endereços pertencem a quais corretoras, exchanges ou serviços conhecidos. Segundo reportagem da Livecoins, uma avaliação da EUROPOL sobre quatro ferramentas mostrou que a Chainalysis se destacou nos resultados, seguida pelas soluções da TRM Labs, Elliptic e CipherTrace.

Mas essa capacidade de rastreamento esbarra em uma limitação fundamental: se você mantém seus bitcoins em uma carteira pessoal que criou em seu computador ou celular, não existe forma técnica de provar que aquela carteira é sua. O governo pode saber que houve transferência da corretora para um endereço específico, mas não pode provar que você controla esse endereço. E isso gera desconforto nas autoridades.

O verdadeiro objetivo: efeito psicológico

Se a capacidade técnica é tão limitada, por que o governo investe R$ 8,6 milhões nisso? A resposta pode estar na psicologia, não na tecnologia. O objetivo pode ser criar receio e insegurança entre os usuários de criptomoedas.

Quando as pessoas leem manchetes sobre “governo vai rastrear todas as suas cripto”, muitas podem parar de usar Bitcoin ou voltar a manter investimentos em bancos tradicionais. É exatamente isso que o Estado pode desejar: que você continue dependente do sistema financeiro tradicional.

Segundo reportagem da BitNotícias, o debate permanece aberto, já que o governo não esclareceu como pretende utilizar, na prática, o rastreamento de criptomoedas. Analistas e especialistas em privacidade reforçam que a adoção dessas ferramentas exige cuidado, transparência e protocolos rígidos. Transparência que, curiosamente, o governo não tem oferecido. Aliás, quando foi que o Estado brasileiro se destacou pela transparência em qualquer iniciativa?

O sistema cripto representa potencial alternativa ao sistema financeiro tradicional. Bitcoin permite que pessoas transacionem sem intermediários bancários, sem taxas abusivas e sem a vigilância constante que caracteriza o sistema financeiro convencional. Por isso mesmo, há interpretações de que o Estado busca ferramentas para recuperar controle sobre essas operações.

Os riscos reais da vigilância estatal

Conforme reportado pela Livecoins, o advogado e professor Fernando Lopes publicou análise alertando para os riscos do uso dessas plataformas, ressaltando que os softwares não representam verdades absolutas. “A ‘prova matemática’ virou a nova rainha dos tribunais, mas há um problema: ela falha”, afirmou Lopes, destacando que sistemas como Chainalysis e TRM Labs operam com heurísticas, ou seja, suposições.

O problema surge quando algoritmos substituem investigações reais. Quando um algoritmo aponta conexão suspeita, o cidadão pode ser tratado como culpado antes mesmo de se defender. O professor mencionou riscos como prisões baseadas em erros de etiqueta e bloqueios de bens de cidadãos inocentes.

Imagine a situação: você recebe Bitcoin de alguém que, sem seu conhecimento, esteve envolvido em atividades questionáveis. O algoritmo detecta a conexão e automaticamente você vira suspeito. Seus bens podem ser bloqueados, sua vida investigada, tudo baseado em “evidências” geradas por software.

Essa é a diferença entre evidência real e probabilidade estatística. No mundo jurídico tradicional, coincidências não bastam para condenações. Mas na era digital, algoritmos estão ganhando status de verdade absoluta, mesmo quando operam com base em suposições e correlações. É a justiça robotizada — mais eficiente para o Estado, mais arriscada para o cidadão.

A estratégia fiscal por trás da vigilância

A vigilância sobre criptomoedas não é apenas questão de segurança pública. Existe componente fiscal importante nessa história. Embora a MP 1.303/2025 tenha sido derrubada pelo Congresso, a proposta inicial previa tributar ganhos com criptomoedas em 17,5%. O governo busca sua fatia dos lucros obtidos com Bitcoin.

O rastreamento serve para identificar quem está ganhando dinheiro com cripto e pode não estar declarando à Receita Federal. Conforme reportado pela Exame, a Receita Federal já usa IA para rastrear transações cripto, e segundo o Seu Crédito Digital, o Ministério Público Federal investiu R$ 6,4 milhões em tecnologia semelhante em 2023, com resultados — inclusive na recuperação de valores roubados em crimes digitais.

É a estratégia estatal clássica: primeiro dificultam ou complicam uma atividade, depois oferecem “regularização” mediante pagamento de impostos. Bitcoin nasceu como alternativa ao sistema financeiro tradicional, mas o Estado trabalha incansavelmente para transformá-lo em mais uma fonte de arrecadação.

Há interpretações de que a Justiça tem recebido cada vez mais liberdade para apreender e bloquear ativos digitais. Ou seja, além de vigiar e taxar, o governo também quer poder confiscar bitcoins quando julgar conveniente. É o ciclo completo da expropriação moderna.

Como se proteger na prática

Diante desse cenário de vigilância crescente, a proteção da privacidade financeira se torna questão de sobrevivência no mundo digital. A boa notícia é que a tecnologia ainda favorece quem entende como usá-la corretamente.

A regra fundamental continua sendo: mantenha seus bitcoins em carteiras pessoais, nunca em corretoras. Quando você deixa criptomoedas em exchanges, está entregando controle total para terceiros. Esses terceiros podem ser obrigados a congelar seus fundos, reportar suas transações ou entregar suas informações para autoridades.

Carteiras pessoais — aquelas onde você controla as chaves privadas — oferecem proteção muito superior. Mesmo que o governo saiba que houve transferência de uma corretora para um endereço específico, não consegue provar que você controla esse endereço, a menos que tenha acesso físico ao seu dispositivo.

Diversificar o uso entre diferentes corretoras também ajuda. Se você precisa converter Bitcoin em reais eventualmente, considere exchanges menores, internacionais ou descentralizadas. Cada camada adicional torna o rastreamento mais difícil e custoso para o Estado. E custos elevados são positivos — forçam o governo a priorizar alvos realmente importantes.

O futuro da liberdade financeira

O investimento de R$ 8,6 milhões em vigilância cripto revela muito sobre a mentalidade governamental atual. Em vez de abraçar a inovação tecnológica e suas possibilidades de descentralização financeira, o Estado escolhe o caminho do controle e da intimidação.

Bitcoin representa algo que muitos governos não suportam: a possibilidade de as pessoas serem financeiramente livres. Transações sem intermediários, sem taxas abusivas, sem necessidade de permissão estatal. É natural que o aparelho governamental reaja tentando recuperar controle perdido.

Mas a tecnologia evolui mais rápido que a burocracia. Enquanto o governo gasta milhões em ferramentas de vigilância baseadas em suposições e probabilidades, desenvolvedores crypto trabalham em soluções de privacidade cada vez mais sofisticadas. É uma corrida entre liberdade e controle, entre descentralização e estatismo.

A verdade é que o governo pode dificultar, pode intimidar, pode complicar burocraticamente. Mas não pode impedir completamente o avanço da liberdade financeira representada pelas criptomoedas. A menos, claro, que os próprios usuários se intimidem e desistam de usar essas ferramentas.

Diante de tudo isso, a pergunta que fica é: você vai permitir que o receio governamental impeça sua liberdade financeira, ou vai aprender a usar corretamente as ferramentas de independência que a tecnologia oferece? Afinal, a liberdade nunca foi um presente do Estado — sempre foi uma conquista individual.

Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.

Versão: 12/01/2026 23:34

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