
Uma pesquisa do instituto GERP mostrou pela primeira vez Flávio Bolsonaro à frente de Lula no segundo turno: 43 a 40. O resultado marca um momento decisivo na corrida presidencial de 2026 e confirma que a candidatura do senador não é apenas um capricho familiar, mas uma realidade política que está ganhando força.
A consolidação do nome de Flávio representa algo que muitos analistas consideravam improvável há poucos meses. Quando Jair Bolsonaro anunciou o filho como seu escolhido, parte significativa da direita e centro-direita tratou a decisão como temporária. Esperavam que o ex-presidente recuaria e indicaria Tarcísio de Freitas como candidato.
Mas os números não mentem. Além da pesquisa GERP, outras sondagens mostram Flávio à frente dos demais nomes da direita, incluindo Romeu Zema, Ronaldo Caiado e até mesmo nomes da chamada terceira via. O cenário aponta para uma disputa direta entre Flávio e Lula no segundo turno.
A matemática é simples: enquanto o apoio de Jair Bolsonaro se consolida em torno do filho, a candidatura ganha musculatura política. Quem esperava por uma mudança de rumo pode estar se preparando para uma longa espera.
A estratégia econômica que pode definir a eleição
Flávio Bolsonaro não está deixando a consolidação da candidatura ao acaso. Em entrevista ao podcast Irmãos Dias, o senador fez questão de estabelecer suas credenciais econômicas. Disse que pretende manter a agenda econômica de Paulo Guedes e que conversou com o ex-ministro antes de anunciar a pré-candidatura.
“Acredito no livre mercado e acho que temos que continuar por essa linha de desburocratização, porque quem move economia são empreendedores da iniciativa privada, não é o governo”, declarou Flávio. A fala não foi casual. Representa uma resposta direta às críticas do mercado financeiro, que inicialmente recebeu sua pré-candidatura com desconfiança.
O senador tem conversado com nomes como Gustavo Montezano, ex-presidente do BNDES, e Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia. São economistas com credenciais liberais que podem compor sua futura equipe econômica. A estratégia é clara: mostrar que a agenda liberal não morreu com o fim do governo Bolsonaro.
Flávio também mencionou ter MBA em empreendedorismo, uma resposta às dúvidas sobre sua preparação técnica. Se apresenta como um “Bolsonaro moderado”, tentando equilibrar a herança política do pai com um perfil menos controverso.
Por que o mercado estava desconfiado
A reação inicial negativa do mercado financeiro à candidatura de Flávio tinha fundamentos. Investidores e analistas preferem Tarcísio de Freitas por acreditarem que o governador de São Paulo teria mais facilidade para derrotar Lula. É uma preocupação pragmática: querem qualquer um que tire o PT do poder.
Existe também a questão da incerteza. Política econômica não passa por herança genética. O fato de Jair Bolsonaro ter mantido Paulo Guedes no comando da economia não garante automaticamente que Flávio seguirá o mesmo caminho. O mercado precisa de sinalizações claras, e foi isso que o senador tentou fazer.
A desconfiança tem precedente histórico. Quando Jair Bolsonaro se candidatou em 2018, muitos o viam como um militar estatizante, avesso a privatizações. A indicação de Paulo Guedes como ministro da Economia foi fundamental para dissipar essas dúvidas e atrair o apoio do setor empresarial.
Agora Flávio enfrenta desafio similar. Precisa convencer que manterá a agenda liberal sem ser visto apenas como um nome imposto pela família. As conversas com economistas liberais e as declarações pró-mercado fazem parte dessa estratégia de convencimento.
A força dos números eleitorais
As pesquisas mostram um cenário interessante. Flávio Bolsonaro não apenas lidera entre os nomes da direita, mas apresenta números competitivos contra Lula no segundo turno. A pesquisa GERP pode ser vista como apenas uma amostra, mas confirma uma tendência que outros institutos também captaram.
Em 2022, Jair Bolsonaro perdeu a eleição principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. No Nordeste, tradicionalmente petista, Bolsonaro na verdade aumentou sua votação em relação a 2018. A derrota veio do eleitor urbano, educado, que ficou com “nojinho” do ex-presidente e preferiu apostar em Lula.
Esse eleitor sofisticado acreditou que Lula seria uma opção democrática e não quebraria a economia. O resultado está aí: inflação em alta, economia estagnada e constante tensão institucional. A estratégia de Flávio é justamente reconquistar esse público, apresentando-se como uma versão moderada do bolsonarismo.
Os números também revelam algo importante: em todos os cenários testados, a disputa fica em empate técnico. Isso significa que a eleição de 2026 será decidida nos detalhes, na capacidade de mobilização e na construção de alianças. Flávio parece ter entendido essa dinâmica.
A aliança que pode mudar tudo
Flávio foi categórico ao afirmar que “o projeto não para em pé se eu e Tarcísio não estivermos juntos”. A declaração revela a dimensão estratégica de sua candidatura. Não se trata apenas de uma eleição, mas de um projeto político de longo prazo para a direita brasileira.
Tarcísio de Freitas está enfrentando pressão de subordinados e do centrão para lançar candidatura própria. Muitos achavam que seria natural o governador de São Paulo ser o candidato, dada sua popularidade e perfil técnico. Mas a realidade política é mais complexa.
A força do bolsonarismo não pode ser ignorada. Jair Bolsonaro mantém uma base eleitoral sólida, especialmente entre os mais conservadores. Tarcísio, mesmo com todas as qualidades, precisaria dessa base para ser competitivo. A aliança com Flávio garante esse apoio e evita uma divisão da direita.
O projeto conjunto também faz sentido do ponto de vista da governabilidade. Com Flávio na Presidência e Tarcísio no governo de São Paulo (ou em posição de destaque nacional), a direita teria uma estrutura mais sólida para implementar reformas e resistir à oposição petista.
O que vem pela frente
A consolidação da candidatura de Flávio deve provocar reações intensas nos próximos meses. A chamada “isentosfera” e setores da centro-direita que esperavam por Tarcísio ou um nome de terceira via precisarão redefinir suas estratégias. Muitos vão “bater pino”, usando a expressão do próprio comentarista.
Enquanto a candidatura parecia uma “loucura” ou um “sequestro” da sucessão, era possível esperar que Jair Bolsonaro mudasse de ideia. Com os números de pesquisa e as articulações políticas se consolidando, essa expectativa perde sentido. Flávio não é mais um nome transitório, mas uma realidade eleitoral.
O desafio agora será manter a união da direita enquanto constrói pontes com o centro. A agenda econômica liberal pode ser a chave para isso. Nomes como Sachsida, mais libertário que Paulo Guedes, podem atrair setores que preferem uma agenda ainda mais reformista.
A esquerda, por sua vez, terá que lidar com um adversário diferente de Jair Bolsonaro. Flávio se apresenta como mais moderado, menos controverso, mas mantendo as mesmas bandeiras conservadoras. Será um desafio de comunicação e estratégia para ambos os lados.
Cada ponto nas pesquisas que Flávio conquistar tornará mais difícil qualquer mudança de rumo. A política tem sua própria lógica: candidaturas viáveis atraem apoios, e apoios geram mais viabilidade. É um ciclo que pode levar Flávio bem longe.
A eleição de 2026 promete ser uma das mais disputadas da história recente. Com Lula envelhecido e desgastado, e a direita reorganizada em torno de nomes novos, o resultado está longe de ser previsível. Quem apostava em cenários óbvios pode ter que rever suas análises.
Diante desse quadro de mudanças aceleradas na política brasileira, uma pergunta se impõe: será que a direita finalmente encontrou a fórmula para derrotar definitivamente o lulopetismo, ou ainda veremos mais capítulos dessa disputa que marca a política nacional há décadas?


