
A escolha polêmica que expõe o abismo entre percepções
Alexandre de Moraes foi classificado pela Financial Times como um dos heróis de 2025. A revista britânica incluiu o ministro do STF em sua lista de influenciadores do ano, na categoria destinada àqueles que “moldaram o mundo” em 2025. A indicação veio de Lilia Moritz Schwarz, historiadora e antropóloga brasileira.
O reconhecimento internacional chega em um momento em que Moraes enfrenta críticas internas por suas declarações sobre o poder do judiciário brasileiro. Durante evento em Santa Catarina, o ministro afirmou que “não há no mundo poder judiciário tão forte quanto o do Brasil”. A frase gerou reações imediatas de analistas políticos.
Para a Financial Times, Moraes se tornou “símbolo da democracia e da justiça no Brasil” após se recusar a “endossar a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023”. A revista destaca sua atuação no combate a “redes de desinformação” e na responsabilização de “figuras públicas”.
O contraste entre o elogio internacional e a recepção doméstica ilustra a polarização em torno das ações do ministro. Enquanto parte da esquerda europeia o vê como defensor da democracia, críticos apontam excessos autoritários em suas decisões.
O que representa ser “forte” para um judiciário
A declaração de Moraes sobre ter o judiciário “mais forte do mundo” provocou análises críticas sobre o papel do Poder Judiciário. Especialistas questionam se “força” deveria ser o atributo mais relevante para caracterizar um sistema de justiça eficiente.
Em um país onde apenas 8% dos casos de homicídio são resolvidos, falar em “força” soa desconectado da realidade. O judiciário brasileiro enfrenta problemas crônicos de lentidão e ineficiência que afetam milhões de cidadãos diariamente.
A colunista Thaís Oyama classificou a fala como um “devaneio napoleônico”. Segundo ela, o termo “forte” denota caráter político inadequado para o Judiciário, que deveria ser caracterizado como justo, eficiente e respeitoso à Constituição.
O problema não está apenas na escolha das palavras. Está na mentalidade por trás delas. Um judiciário que se vangloria de sua “força” pode estar perdendo de vista sua verdadeira função: garantir justiça com imparcialidade e eficiência.
A lista da Financial Times e seus critérios questionáveis
A Financial Times dividiu sua lista de influenciadores em três categorias: criadores, líderes e heróis. Moraes integra a categoria de “heróis”, ao lado de nomes controversos que revelam a subjetividade dos critérios adotados.
Entre os indicados estão Nigel Farage, político britânico de direita, e Margarita Simonia, descrita como propagandista russa. A presença de figuras com orientações políticas opostas sugere que a revista priorizou impacto sobre alinhamento ideológico.
Peter Thiel, empresário ligado ao Trump e fundador da Palantir, também figura na lista. A diversidade ideológica dos escolhidos contradiz a narrativa de que seria uma seleção puramente esquerdista, embora o viés seja evidente na justificativa sobre Moraes.
O fato de a lista não ser ranqueada permite incluir personalidades polêmicas sem estabelecer hierarquias claras. É uma estratégia editorial que gera buzz mas compromete a credibilidade analítica da seleção.
O apoio da esquerda internacional e suas motivações
O elogio da Financial Times reflete um fenômeno mais amplo: a admiração da esquerda internacional pelas ações de Moraes. Para movimentos progressistas que perderam espaço no debate público, o ministro brasileiro representa uma esperança de resistência institucional.
Na Europa e nos Estados Unidos, a esquerda enfrenta dificuldades similares às do Brasil. O crescimento de movimentos conservadores e libertários mina sua influência sobre “corações e mentes” da população. Resta o apelo ao poder institucional como última trincheira.
Moraes encarna esse sonho de intervenção judicial contra o que consideram “autoritarismo populista”. Suas decisões sobre redes sociais e censura encontram eco entre progressistas que veem as plataformas digitais como ameaças à sua hegemonia cultural.
É revelador que a indicação tenha vindo de uma acadêmica brasileira de esquerda. Lilia Moritz Schwarz, historiadora e antropóloga, representa exatamente o tipo de intelectual que perdeu relevância no debate público e busca validação através do poder judicial.
A defesa de salários mais altos em meio à crise
Além das declarações sobre “força”, Moraes defendeu aumentos salariais para juízes. Em um país com milhões de desempregados e subempregados, a proposta soa desconectada das prioridades nacionais.
O judiciário brasileiro já consome recursos significativos do orçamento público. Juízes recebem salários substancialmente superiores à média nacional, além de benefícios diversos. Defender novos aumentos demonstra insensibilidade social preocupante.
A justificativa de que “juízes são importantes” ignora que importância não se traduz automaticamente em direito a remuneração excessiva. Médicos, professores e engenheiros também são importantes, mas não recebem os mesmos privilégios.
Essa postura reforça a percepção de que Moraes atua politicamente, buscando apoio corporativo dentro do próprio Poder Judiciário. É uma estratégia de consolidação de poder que nada tem a ver com justiça ou eficiência.
O ciclo histórico dos “heróis” autoritários
A comparação histórica é inevitável: em 1964, os militares eram saudados como heróis por parte significativa da população. Quatro anos depois, em 1968, já eram amplamente reconhecidos como ditadores que efetivamente se tornaram.
Moraes pode estar seguindo trajetória similar. O apoio inicial de setores da sociedade e da mídia internacional não garante legitimidade duradoura. A história mostra que excessos autoritários eventualmente geram reação proporcional.
O problema é que, quando a percepção pública muda, os danos às instituições já estão consolidados. O judiciário brasileiro pode levar décadas para recuperar a credibilidade perdida durante este período de politização excessiva.
A esquerda mundial que hoje aplaude Moraes pode estar criando um precedente perigoso. Se o poder judicial pode ser usado para perseguir adversários políticos em nome da “democracia”, o que impede que amanhã seja usado contra eles próprios?
As consequências para a credibilidade institucional
O maior problema não é Moraes individualmente, mas o precedente que suas ações estabelecem. Um judiciário que se vangloria de sua “força” política sinaliza que abandonou a imparcialidade como valor fundamental.
A democracia brasileira precisa de instituições respeitadas, não de heróis salvadores. Quando juízes assumem papel de protagonistas políticos, o equilíbrio entre poderes se rompe de forma potencialmente irreversível.
O apoio internacional baseado em vieses ideológicos não compensa a perda de legitimidade interna. Um sistema judicial só funciona quando a população confia em sua imparcialidade e competência técnica.
O Brasil caminha para uma crise de credibilidade institucional que pode ter consequências duradouras. Reformar o judiciário será uma das tarefas mais complexas das próximas décadas, exigindo muito mais do que mudanças superficiais.
Diante deste cenário preocupante, resta perguntar: vale a pena sacrificar a credibilidade institucional em nome de vitórias políticas momentâneas? O debate está apenas começando.


