Russell Crowe interpreta Hermann Göring no filme Nuremberg de 2025, disponível desde novembro nos cinemas americanos. A produção recria o julgamento que condenou a cúpula nazista após a Segunda Guerra Mundial. Mas o filme faz mais que contar história. Ele questiona até onde vai a soberania nacional quando um regime agride o próprio povo.
Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens amplamente divulgadas (com links para as fontes). Não afirma como fatos comprovados a prática de crimes ou ilícitos, nem substitui decisões judiciais. Seu objetivo é promover reflexão crítica sob uma perspectiva editorial libertária.
A questão jurídica que mudou a história
O filme levanta uma questão fundamental do direito internacional. Como processar criminosos de guerra quando não existia lei internacional consolidada para isso? As Nações Unidas foram criadas depois dos julgamentos de Nuremberg. O direito internacional era limitado em 1945. Todo o sistema jurídico funcionava através de leis nacionais.
A Alemanha nazista havia deixado de existir como Estado. Hitler estava morto. A cúpula nazista foi capturada pelos aliados. Hermann Göring, o número dois do regime, se entregou pensando que não aconteceria nada grave com ele. Afinal, nas palavras do próprio Göring: “Não fiz nada de errado. Estava cumprindo meu papel no Estado.”
A saída encontrada pelos aliados foi revolucionária para a época. Criaram um precedente jurídico baseado não na soberania alemã, mas em princípios universais. O Estado alemão não existia mais para proteger seus ex-funcionários. A humanidade como um todo havia sido agredida.
Esse precedente histórico gera questionamentos sobre o argumento de que soberania nacional é absoluta. Se fosse assim, nem mesmo a invasão da Alemanha nazista seria justificável. Como explicar que os Estados Unidos e a União Soviética “desrespeitaram” a soberania alemã ao invadir o país?
O dilema contemporâneo da Venezuela
A OEA confirmou em 2024 que o regime de Nicolás Maduro praticou fraude eleitoral e segue violando direitos humanos na Venezuela. Grupos de oposição afirmam que houve fraude no processo eleitoral, com evidências apresentadas de irregularidades sistemáticas.
Segundo analistas internacionais, Maduro mantém-se no poder através da força. Organizações de direitos humanos condenaram as ações repressivas do regime e documentaram perseguição a opositores políticos. Todos os principais indicadores sugerem que as eleições foram comprometidas.
Mas pelas regras internas da Venezuela, Maduro continua sendo o presidente oficial. Surge então o dilema: a comunidade internacional deve respeitar essa “legalidade” interna? Ou deve intervir para proteger o povo venezuelano da opressão?
O argumento da soberania absoluta criaria uma contradição histórica. Se soberania vale para tudo, então os aliados não podiam ter invadido a Alemanha nazista. Não podiam ter processado Hitler e sua cúpula. Teriam que aceitar o genocídio como “assunto interno alemão”.
A lógica da soberania absoluta protegeria ditadores de suas próprias vítimas. Transformaria fronteiras nacionais em escudos para tiranos. É o mesmo raciocínio que algumas autoridades brasileiras usam para defender Maduro da pressão internacional.
Russell Crowe e a representação do mal
O filme mostra Russell Crowe interpretando Hermann Göring de forma aclamada pela crítica. Não como um monstro caricato, mas como um homem inteligente e carismático. Alguém capaz de justificar seus crimes através da lógica estatal. Göring não se via como criminoso. Via-se como funcionário público cumprindo ordens.
Rami Malek interpreta Douglas Kelley, o psiquiatra americano enviado para avaliar a sanidade mental dos prisioneiros nazistas. Kelley queria provar que o mal poderia ser diagnosticado cientificamente. Buscava encontrar uma doença mental que explicasse o nazismo.
O que Kelley descobriu foi perturbador, segundo relatos históricos. Os nazistas não eram loucos. Eram pessoas funcionais que escolheram a monstruosidade. Não tinham distúrbios psiquiátricos. Tinham uma visão de mundo que colocava o Estado acima do indivíduo. O coletivo acima da consciência pessoal.
O filme demonstra como regimes autoritários seduzem pessoas comuns. Não através da loucura, mas através da promessa de ordem e grandeza nacional. O Estado se torna a medida de todas as coisas. O que serve ao Estado é considerado bom. O que ameaça o Estado é considerado mau.
A mentalidade estatista contemporânea
O nazismo não era uma aberração histórica isolada. Era a consequência extrema de uma mentalidade estatista que ainda existe hoje. Quando o Estado se torna o valor supremo, a perseguição de “inimigos internos” pode virar política de Estado.
Essa mentalidade aparece em discursos contemporâneos que propõem “eliminar completamente” determinados grupos. Quando políticos usam retórica de “do rio ao mar” sobre conflitos territoriais, há quem interprete como ecos da mesma lógica. Quando defendem perseguição política por razões ideológicas, levantam questionamentos sobre paralelos históricos.
O filme mostra que o problema não estava nas pessoas individualmente. Estava no sistema que desumaniza adversários políticos. O Estado nazista criou uma máquina de ódio que funcionava com eficiência burocrática. Cada funcionário cumpria sua parte sem questionar o conjunto.
Críticos apontam que movimentos de esquerda são mais suscetíveis a essa deriva autoritária quando defendem Estados grandes e poderosos. A crença de que o poder estatal pode solucionar todos os problemas sociais, segundo essa análise, cria as condições para futuros autoritarismos.
O precedente de Nuremberg aplicado hoje
Os julgamentos de Nuremberg estabeleceram que existem crimes contra a humanidade. Esses crimes não podem ser escondidos atrás da soberania nacional. Quando um governo agride sistematicamente seu próprio povo, levanta questionamentos sobre sua legitimidade internacional.
Esse princípio é debatido em relação a qualquer ditador contemporâneo. Putin foi indiciado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra na Ucrânia. Os Estados Unidos rejeitam oficialmente a legitimidade de Maduro como presidente da Venezuela. Ambos usam a máquina estatal de formas que geram controvérsias internacionais.
A diferença é que Putin tem pretensões territoriais permanentes sobre a Ucrânia. Os Estados Unidos, segundo suas declarações oficiais, não querem anexar a Venezuela. Declaram apenas querer remover um líder que, em sua visão, oprime seu povo.
Alguns brasileiros criticam a pressão americana na Venezuela, mas não criticam a invasão russa da Ucrânia. Essa inconsistência revela uma visão ideológica, não necessariamente ética. Aplicam critérios diferentes conforme a conveniência política.
A ética libertária e o princípio da não-agressão
Do ponto de vista libertário, a questão da soberania é mais simples. Estados não têm soberania real. Soberania pertence aos indivíduos. Cada pessoa é soberana sobre sua própria vida e propriedade. O Estado é uma ficção jurídica com fronteiras imaginárias.
O princípio da não-agressão vale universalmente. Qualquer pessoa pode reagir contra agressões, independente de nacionalidade. Se Maduro agrediu venezuelanos pacíficos, qualquer um tem o direito moral de defendê-los dessa agressão, segundo essa perspectiva.
Não é preciso aceitar regras que você nunca concordou. As únicas regras válidas são aquelas aceitas voluntariamente. O mínimo ético universal é não agredir pessoas inocentes. Quando líderes políticos violam esse princípio básico, perdem legitimidade moral.
O filme Nuremberg demonstra que essa visão tem precedentes históricos. Os aliados aplicaram exatamente essa lógica em 1945. Rejeitaram a soberania alemã porque ela protegia agressores. Criaram um tribunal baseado em princípios universais de justiça.
Onde assistir e por que vale a pena
O filme estreou nos cinemas americanos em novembro de 2025. No Brasil, ainda não está disponível oficialmente nos cinemas. Na Amazon Prime é possível assistir mudando a configuração de país para Estados Unidos, sendo necessário pagar uma taxa adicional além da mensalidade.
O filme recebeu uma das ovações mais longas da história do Festival de Toronto. Críticos elogiam especialmente a atuação de Russell Crowe como “uma aula de atuação sutil e nuanceada”.
A produção tem aproximadamente 2 horas e 30 minutos de duração. Segundo avaliações, “para um drama histórico, seus 140 minutos passam incrivelmente rápido”. O filme combina drama psicológico com lições históricas fundamentais.
Vale a pena assistir não apenas como entretenimento, mas como educação política. O filme mostra como ditaduras surgem e se mantêm. Explica os mecanismos psicológicos que levam pessoas comuns a apoiar regimes questionáveis.
A soberania nacional não é carta branca para tiranos. O filme Nuremberg de 2025 ensina essa lição através da história real. Mostra que justiça universal existe e deve prevalecer sobre conveniências diplomáticas.
Quando Estados agridem seus povos, geram questionamentos sobre seu direito à soberania. Essa é a grande lição dos julgamentos de Nuremberg. Uma lição que continua válida 80 anos depois. Especialmente numa época em que novos líderes testam os limites da tolerância internacional.
E você, acredita que soberania nacional justifica qualquer atrocidade? Ou concorda que existem princípios universais acima das fronteiras políticas?
Fontes e Referências
- IMDB – Página oficial do filme Nuremberg (2025)
- Rotten Tomatoes – Críticas e avaliações do filme
- Gazeta do Povo – OEA confirma fraude eleitoral na Venezuela
- Wikipedia – Eleição presidencial na Venezuela em 2024
- Wikipedia (EN) – Eleição venezuelana de 2024
- Departamento de Estado dos EUA – Posição oficial sobre Venezuela
- Tribunal Penal Internacional – Mandado de prisão contra Putin
- Amazon Prime Video – Página do filme Nuremberg



