janeiro 5, 2026

Ludwig M

Do Plágio às Armas Nucleares: Como Putin e Kiril Corrompem Instituições

Dezesseis páginas de uma dissertação de doutorado copiadas na década de 1990. Pesquisadores da Brookings Institution descobriram em 2006 que pelo menos 16 páginas da dissertação de Putin eram praticamente idênticas a um manual acadêmico da Universidade de Pittsburgh. Segundo investigação reportada pela Radio Free Europe/Radio Liberty, o futuro presidente da Rússia usou tesoura, cola e fotocópia para montar sua tese sobre economia na Universidade de Mineração de São Petersburgo. Analistas interpretam que não foi erro ou referência mal citada, mas comportamento que levanta questionamentos sobre padrões acadêmicos.

Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens amplamente divulgadas (com links para as fontes). Não afirma como fatos comprovados a prática de crimes ou ilícitos, nem substitui decisões judiciais. Seu objetivo é promover reflexão crítica sob uma perspectiva editorial libertária.

O Manual de Operação de um Autocrata

O alegado plágio acadêmico de Putin não foi apenas uma travessura juvenil – críticos argumentam que foi o primeiro capítulo do manual que ele seguiria pelo resto da carreira. A forma como Putin lida com a verdade mostra um padrão: no governo, usa a mesma lógica ao manipular informações e impor narrativas oficiais. Quando você tem poder suficiente, a verdade se torna… opcional.

A dissertação se chamava “Planejamento Estratégico de Reprodução de Base de Recursos Minerais da Região sob Condições de Formação de Relações de Mercado”. Título pomposo para um trabalho que foi questionado por especialistas. O silêncio das instituições permitiu que títulos acadêmicos fossem utilizados como símbolos de prestígio, mesmo quando obtidos de forma duvidosa.

E aqui já vemos o padrão se formando. Não importa se o título foi conquistado honestamente — importa apenas que existe e confere legitimidade. Quando a realidade não serve ao poder, ela é reescrita. É exatamente isso que críticos acusam Putin de ter feito durante décadas: reescrever a realidade conforme sua conveniência.

O mais inquietante é que nenhuma instituição se mexeu para corrigir o erro. A universidade não revogou o título. A comunidade acadêmica não protestou. O silêncio foi cúmplice, criando o precedente para todos os abusos que viriam depois. Quando as instituições falham em defender seus próprios padrões, abrem caminho para que o poder as use como ferramentas de propaganda.

A Captura da Igreja Ortodoxa Russa

Se o plágio acadêmico foi o ensaio, a transformação da Igreja Ortodoxa Russa em departamento de propaganda do Kremlin foi a obra principal. Entre os mais inusitados estão caças de combate, tanques e mísseis. Segundo a Igreja, embora sejam projetados para matar pessoas em guerras, tais objetos são “necessários, porém indesejáveis” sob certas condições.

Não é ficção distópica. É a Rússia de Putin em 2025. Kiril elogiou a invasão da Ucrânia, justificando a guerra como uma batalha contra as “forças do mal”. Jesus Cristo, que disse “amai os vossos inimigos”, agora aparentemente abençoa ogivas nucleares capazes de extinguir a civilização.

O responsável por essa inversão teológica é o Patriarca Kiril, líder espiritual de milhões de cristãos ortodoxos. Segundo documentos revelados pelos jornais suíços Le Matin Dimanche e Sonntagszeitung, baseados em arquivos desclassificados, Kiril tinha 25 anos quando foi nomeado representante do Patriarcado de Moscou no Conselho Mundial de Igrejas em Genebra em 1971. A polícia federal suíça o classificou como agente da KGB desde 1970, sob o nome “Mikhaïlov”.

A Igreja que deveria ser contraponto moral ao poder político foi completamente capturada. Para Kiril, “Deus colocou Putin no comando da Rússia” e descreveu o governo Putin como um “milagre de Deus”. Quando o padre da sua cidade abençoa tanques, quando o patriarca diz que Putin é enviado de Deus, resistir deixa de ser ato político. Vira apostasia.

A Doutrina do “Mundo Russo”

Kiril não é apenas um colaborador passivo do regime. Ele desenvolveu toda uma doutrina teológica para justificar as ambições imperialistas do Kremlin. A crença no chamado “mundo russo” defende a criação de uma única nação pan-russa, incluindo Rússia, Ucrânia e Belarus, sob controle da Igreja Ortodoxa Russa.

Conveniente, não? A religião providencialmente justificando o que Putin queria fazer mesmo. Durante o mandato de Kiril, a Igreja Ortodoxa Russa se aproximou do Estado russo, trabalhando em estreita colaboração para promover o cristianismo na Rússia. Mas que tipo de cristianismo é esse que abençoa instrumentos de morte em massa?

O Departamento Sinodal para Cooperação com as Forças Armadas usa sua conta no Telegram para conduzir campanha de propaganda pró-guerra. Padres relatam sobre a “situação nas linhas de frente”. Kiril afirmou que a “operação militar especial” da Rússia na Ucrânia foi um ato de resistência contra o consumismo ocidental e contra a tentativa do Ocidente de impor o “orgulho gay”.

Chamar a invasão da Ucrânia de “Guerra Santa” justifica e moraliza uma expansão nacionalista para além das fronteiras russas. O Conselho Mundial do Povo Russo sob sua liderança descreveu o conflito como uma “Guerra Santa”. É guerra cultural no sentido mais literal: usar a religião como arma para mobilizar a população, silenciar dissidentes e transformar agressão em dever sagrado. E funciona porque milhões de fiéis confiam em seus líderes espirituais.

O Negócio por Trás da Fé

A corrupção da Igreja Ortodoxa não é apenas espiritual. É também financeira. Segundo opositores, Kiril teve acesso privilegiado a importação de cigarros com isenção de impostos como recompensa pela lealdade à KGB nos anos 1990, com patrimônio estimado em 4 bilhões de dólares.

Quando Kiril visitava a Ucrânia como novo Patriarca da Rússia, um jornal publicou foto onde aparecia com um relógio Breguet de 30 mil euros. O Kommersant o apelidou de “metropolitano do tabaco”. Kiril negou possuir tal relógio, mas a foto falava por si só.

O que vemos aqui é o casamento perfeito entre poder espiritual e temporal. Nas pregas deste entrelaçamento se escondem controvérsias sobre Kiril: das propriedades imobiliárias aos iates, ele enriqueceu graças às atividades financeiras controvertidas da Igreja como importação de tabaco e alcoólicos.

Não é sobre fé. É sobre negócios. A Igreja virou empresa, com Kiril como CEO que presta contas não a Deus, mas ao Kremlin. Os fiéis são clientes. As bênçãos viraram produtos. E a guerra na Ucrânia é apenas mais uma oportunidade de mercado para vender narrativas que justifiquem o injustificável.

A Resistência Dentro da Própria Igreja

Nem todo mundo na Igreja Ortodoxa comprou essa narrativa. Alguns membros do clero propuseram banir a bênção de armas nucleares em 2020, argumentando que isso não está refletido na tradição da igreja e não corresponde ao conteúdo do rito. São vozes corajosas tentando resgatar o que restou da integridade espiritual da instituição.

Depois de Kiril louvar a invasão, o clero de outras dioceses ortodoxas condenou suas observações. O Patriarca de Constantinopla disse que o apoio de Kiril a Putin estava “prejudicando o prestígio de toda a Ortodoxia”. Centenas de clérigos ortodoxos russos assinaram uma carta pedindo o fim da guerra: “A vida de toda pessoa é um dom inestimável e único de Deus”.

A tragédia é que essas vozes deveriam ser a norma, não a exceção. Uma igreja que abençoa instrumentos de guerra deveria causar escândalo em toda a cristandade. Mas vivemos tempos em que o absurdo se normalizou, onde o sagrado foi sequestrado pelo profano e ninguém mais se espanta.

O Patriarca Kiril e sua estrutura eclesiástica não são vítimas de Putin. São cúmplices conscientes. Desde os primeiros dias se mostrou como defensor inabalável de Putin. Escolheram poder temporal sobre integridade espiritual — e isso tem um preço que vai além dos cofres da igreja.

O Padrão Universal do Estado

Putin não inventou esse jogo. Ele só é péssimo em disfarçar. Todo Estado opera com a mesma lógica fundamental: concentrar poder, neutralizar contrapesos e transformar instituições independentes em extensões do aparato governamental. A diferença entre a Rússia e as democracias ocidentais não é de natureza — é de grau.

Putin abençoa mísseis com padres ortodoxos. O Ocidente realiza suas próprias cerimônias de legitimação antes de bombardear outros países. Putin controla a narrativa acadêmica. Universidades públicas em todo mundo dependem de verbas estatais e sabem exatamente quais pesquisas não devem fazer se quiserem continuar recebendo financiamento.

O Estado precisa se legitimar e para isso precisa capturar as instituições que moldam como as pessoas pensam: educação, religião, mídia, cultura. Não por malícia particular de Putin, mas porque é assim que o poder centralizado funciona. Ele não tolera competição na produção de narrativas.

Aliás, o mais inquietante é que funciona porque toca em algo essencialmente humano: o desejo de que a dor e o sacrifício tenham significado maior. Putin não inventou essa necessidade, apenas a capturou e transformou em combustível para sua máquina de poder. Quando as pessoas querem acreditar, qualquer narrativa serve — por mais absurda que seja.

A Verdade Como Arma de Resistência

A história de Putin, do plágio acadêmico à militarização da fé, nos ensina algo fundamental sobre como a autocracia moderna funciona. Não é apenas força bruta ou repressão policial. É sobre controlar as narrativas, sequestrar instituições que dão sentido à vida das pessoas e transformar até o sagrado em ferramenta de doutrinação.

É sobre criar um universo onde a verdade não importa mais, onde fatos são o que o poder diz que são, onde até Deus pode ser recrutado para abençoar uma guerra. A maior mentira de Putin não é o plágio acadêmico, nem a transformação da igreja em departamento de guerra. A maior mentira é fazer as pessoas acreditarem que não há alternativa.

Mas há sempre uma alternativa. E ela começa quando paramos de aceitar que instituições possam ser corrompidas sem consequências, quando lembramos que a verdade existe independente do que ditadores e seus patriarcas decidem proclamar. Desde o início dos tempos, todos que se sentaram no trono do Kremlin estiveram ocupados em controlar todas as expressões de religião que pudessem atrapalhar suas ambições políticas.

O Estado é uma doença infecciosa que contamina tudo que toca. Até que o povo russo perceba que o Estado é essa laranja podre contaminando todas as demais frutas, Putin e Kiril continuarão seu show macabro. Ex-espiões da KGB vestindo máscaras diferentes, servindo ao mesmo projeto: transformar seres humanos em súditos, fé em propaganda e verdade em qualquer coisa que mantenha o poder nas mãos de quem já o tem.

A liberdade não é dádiva do Estado. É direito natural que o Estado tenta suprimir. Quando os padres param de abençoar mísseis e voltam a abençoar pessoas, quando as igrejas param de servir a César e voltam a servir ao povo, quando a fé se liberta do poder e volta a ser o que sempre deveria ter sido — um refúgio da tirania, não uma ferramenta dela — só então a verdade poderá respirar novamente.

E se você acha que essa história é só sobre a Rússia, preste atenção. O manual está aí, pronto para ser copiado. Afinal, Putin sempre foi bom nisso.


Fontes e Referências

  1. TIME – Investigação sobre plágio na dissertação de Putin
  2. Radio Free Europe – Análise acadêmica sobre dissertação
  3. Moscow Times – Kiril como agente KGB
  4. Insight News – Documentos arquivos suíços sobre Kiril
  5. CNN Brasil – Perfil do Patriarca Kiril
  6. Vatican News – Carta de clérigos pedindo fim da guerra
  7. Wikipédia – Guerra santa e posição da Igreja Ortodoxa
  8. Russia Beyond – Bênçãos de armas militares
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