dezembro 10, 2025

Ludwig M

Cuba condena ministro à prisão perpétua por tentar consertar economia

Cuba condena ministro à prisão perpétua por tentar consertar economia

O ex-ministro da economia de Cuba, Alejandro Gil, foi condenado à prisão perpétua mais 20 anos em julgamento sigiloso. O crime? Tentar consertar a economia cubana durante uma crise de combustíveis que elevou os preços em mais de 500%. Gil, de 61 anos, figura próxima ao presidente Miguel Días Canel, recebeu a sentença por espionagem e crimes econômicos.

A Suprema Corte Cubana conduziu o julgamento a portas fechadas, sem cobertura da imprensa estatal. Segundo o comunicado oficial, Gil foi considerado culpado por espionagem e atos que prejudicam a atividade econômica. Detalhe importante: a corte não revelou para qual país ou entidade os atos de espionagem foram cometidos.

Não é incompetência do regime. É projeto. Quando governos autoritários enfrentam crises, precisam encontrar culpados. E Gil estava no lugar errado, na hora errada, tentando fazer o trabalho certo.

A condenação acontece dois anos depois de Gil ter sido destituído do cargo, em fevereiro de 2024. Na época, Cuba atravessava uma crise severa de combustíveis, forçando o governo a anunciar aumentos de preços superiores a 500% para tentar reduzir o déficit fiscal.

A crise que ninguém queria resolver de verdade

Cuba enfrenta uma tragédia econômica que se arrasta há décadas. O país não produz praticamente nada para o exterior e depende totalmente de ajuda externa para sobreviver. Durante anos, essa ajuda veio principalmente da Venezuela e da Rússia. Mas os dois países enfrentam suas próprias crises.

A Venezuela, atolada em problemas econômicos causados pelo próprio socialismo, reduziu drasticamente o fornecimento de combustível subsidiado para Cuba. A Rússia, envolvida no conflito com a Ucrânia, também diminuiu sua assistência. O resultado foi devastador para a economia cubana.

Em dezembro de 2023, o governo cubano reconheceu que era insustentável continuar vendendo combustível a preços subsidiados. O litro da gasolina normal passou de 25 pesos cubanos (R$ 0,70) para 132 pesos (R$ 5,30). Um aumento de 528%, mas que ainda deixava o combustível mais barato que no Brasil.

Gil estava no cargo quando essas medidas impopulares precisaram ser tomadas. Alguém tinha que assumir a responsabilidade política. E quando você trabalha para um regime autoritário, assumir responsabilidade pode custar muito caro.

O padrão clássico dos regimes autoritários

A história de Gil segue um roteiro conhecido em regimes comunistas e autoritários. Quando a economia desaba, o governo precisa encontrar um bode expiatório. Não pode admitir que o sistema está falido. Precisa culpar alguém específico.

Este é um padrão que se repete há décadas em Cuba. Roberto Robaina, ex-ministro das relações exteriores, foi afastado em 1999 por “deslealdade a Fidel Castro”. Felipe Pérez Roque e Carlos Laje foram destituídos em 2009 por “conduta indigna”. O general Arnaldo Ochoa foi executado em 1989 após julgamento acusado de ser estalinista.

A família de Gil defende sua inocência. Laura Maria Gil, filha do ex-ministro, pediu um julgamento público transmitido ao vivo e exigiu que a procuradoria apresentasse provas das acusações. Pedido negado, obviamente.

Em regimes autoritários, due process é luxo desnecessário. Prova? Para quê? O regime já decidiu quem é culpado. O resto é teatro.

A tragédia econômica que ninguém consegue resolver

A condenação de Gil não resolveu nada. Pelo contrário, a situação em Cuba só piorou. No último final de semana, 40% do país estava sem energia elétrica. A falta de combustível continua causando apagões frequentes e desabastecimento generalizado.

Cuba ilustra perfeitamente o problema do cálculo econômico no socialismo, identificado pelo economista Ludwig von Mises. Sem preços de mercado, é impossível alocar recursos de forma eficiente. Durante algum tempo, regimes socialistas conseguem funcionar usando como referência os preços de países capitalistas próximos.

Mas depois de quase 70 anos de comunismo, Cuba perdeu completamente essa capacidade. O país não consegue mais calcular custos reais, determinar prioridades econômicas ou produzir riqueza genuína. O resultado é o colapso que vemos hoje.

A dependência de ajuda externa mostra a falência total do modelo. Um país que não consegue produzir nem combustível nem alimentos para sua população não tem economia. Tem apenas um esquema de distribuição de recursos escassos controlado pelo Estado.

O êxodo silencioso que conta a verdade

Enquanto o governo cubano procura culpados para a crise, os cubanos votam com os pés. Nunca tantas pessoas tentaram deixar a ilha como nos últimos anos. Jangadas improvisadas com garrafas pet se tornaram símbolo desesperado da busca por liberdade e oportunidades.

Famílias inteiras arriscam a vida no mar tentando chegar à Flórida. Profissionais qualificados abandonam tudo em busca de países onde possam trabalhar e prosperar. O êxodo crescente é o termômetro mais preciso do fracasso do regime.

Os que ficam enfrentam racionamento, apagões constantes e falta de produtos básicos. Médicos, engenheiros e professores ganham salários de fome enquanto o governo gasta recursos escassos mantendo o aparato repressivo funcionando.

Este é o verdadeiro legado do socialismo cubano: transformar uma ilha tropical rica em recursos naturais numa prisão a céu aberto da qual as pessoas fogem desesperadamente.

As lições que o Brasil precisa aprender

A história de Alejandro Gil deveria servir de alerta para qualquer país que flerta com soluções autoritárias. Julgamentos sigilosos, ausência de due process e busca por bodes expiatórios são sinais claros de deterioração institucional.

Quando governos começam a tratar oposição política como inimigos do Estado, quando processos jurídicos viram instrumentos de perseguição, quando a transparência é substituída pelo sigilo, o caminho para o autoritarismo está aberto.

A economia cubana faliu porque rejeitou os mecanismos de mercado que permitem cálculo econômico racional. Preços controlados, propriedade estatal dos meios de produção e planejamento centralizado são receitas garantidas para o desastre econômico.

O que Cuba demonstra é que não existe “socialismo democrático” sustentável. A concentração de poder econômico nas mãos do Estado inevitavelmente leva à concentração de poder político. E poder concentrado sempre degenera em tirania.

O que resta para Cuba

A condenação de Gil marca mais um capítulo na longa agonia do regime cubano. Com a economia em colapso, a população fugindo e os aliados internacionais com seus próprios problemas, Cuba caminha para um impasse cada vez maior.

O governo pode continuar procurando culpados e condenando ex-ministros à prisão perpétua. Pode manter a repressão e o controle autoritário sobre a população. Mas não pode criar riqueza do nada nem fazer o socialismo funcionar por decreto.

A realidade econômica é implacável. Sem produção, não há consumo. Sem mercado, não há desenvolvimento. Sem liberdade, não há prosperidade. Cuba precisa escolher entre manter o regime e salvar o país.

Enquanto essa escolha não for feita, mais Alejandro Gils serão sacrificados no altar da ideologia. E o povo cubano continuará pagando o preço mais alto: viver numa ilha-prisão onde tentar consertar a economia pode custar a liberdade para sempre.

Diante de tamanha tragédia, a pergunta que fica é: quantos países ainda precisam repetir os mesmos erros antes que o mundo aprenda as lições definitivas sobre os perigos do autoritarismo?

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