dezembro 10, 2025

Ludwig M

Corpo encontrado há 20 anos: como o Estado falhou por décadas

Corpo encontrado há 20 anos: como o Estado falhou por décadas

O caso que expõe a ineficiência do monopólio estatal

Em 25 de setembro de 2025, a Interpol finalmente identificou Ludmila Zavada, cidadã russa cujo corpo foi encontrado há duas décadas às margens de uma estrada em Barcelona. O que deveria ter levado semanas demorou 7.305 dias para ser resolvido. Esta não é apenas a história de um crime sem solução. É o retrato da falência de um sistema monopolizado que promete proteção, mas entrega abandono.

O corpo foi descoberto em julho de 2005, vestindo um conjunto rosa que lhe rendeu o apelido de “mulher de rosa”. A autópsia apontou morte suspeita, mas sem identificação, sem parentes reclamando e sem pressão midiática, a investigação foi engolida pela pilha de processos das delegacias europeias. Durante duas décadas, Ludmila permaneceu como um número em arquivo morto.

A identificação só aconteceu após a criação da operação Identify-me, iniciativa da Interpol que em 2023 passou a usar difusões negras para cadáveres não identificados. O cruzamento de impressões digitais com bancos de dados nacionais revelou a identidade através de registros deixados na Turquia, onde ela havia solicitado visto. A pergunta incômoda permanece: por que esse mesmo cruzamento não foi feito em 2005?

A resposta é simples e perturbadora. Não havia interesse econômico em fazê-lo. A Interpol não é uma empresa que perde clientes por demorar 20 anos. É uma burocracia estatal que opera sem consequências pela sua ineficiência. Quando o Estado detém o monopólio da justiça, o incentivo à eficiência simplesmente desaparece.

44 mulheres ainda sem nome: a dimensão do problema

Ludmila Zavada não é caso isolado. Segundo dados da própria Interpol, 44 mulheres permanecem não identificadas em seis países europeus. Todas tinham entre 15 e 30 anos. Todas morreram em circunstâncias suspeitas. Todas foram reduzidas a fichas de arquivo que acumulam poeira em delegacias.

A operação Identify-me, celebrada como avanço, conseguiu identificar apenas três vítimas em dois anos. Em qualquer empresa privada, esse desempenho significaria falência imediata. Na esfera estatal, é considerado progresso. A diferença é clara: o Estado não compete, ele simplesmente impõe sua lentidão e ineficiência.

Murray Rothbard, em “Por uma Nova Liberdade” de 1973, já alertava que o Estado não é a única forma de organizar a justiça – é apenas a menos eficiente. Quando o serviço é financiado por impostos compulsórios e não por clientes voluntários, o resultado é exatamente este: demanda infinita, oferta burocrática e vítimas esquecidas.

O custo humano dessa ineficiência não pode ser medido apenas em números. São 44 famílias vivendo na incerteza, sem poder enterrar seus mortos, sem respostas, sem justiça. Durante 20 anos, a família de Ludmila na Rússia não recebeu notícias porque o sistema estatal espanhol não tinha obrigação de responder.

Como a regulação migratória alimenta o problema

Ludmila Zavada estava na Espanha sem registro visível de entrada legal. Como muitas imigrantes, provavelmente transitava por zonas cinzentas do mercado formal: trabalho sem contrato, moradia informal, relacionamentos instáveis. Quando desapareceu, sumiu duas vezes – primeiro do mapa social, depois do mapa policial.

O tráfico de pessoas, mencionado pela Interpol como fator por trás do aumento de desaparecimentos, é alimentado justamente pela proibição estatal da livre circulação. Quando o Estado impede a entrada legal de trabalhadores, não elimina a demanda por trabalho – apenas a empurra para a clandestinidade.

Sem registros oficiais, sem contratos formais e sem rastreabilidade, essas pessoas se tornam invisíveis ao sistema. A regulação estatal que promete proteger fronteiras acaba criando um submundo onde crimes acontecem sem deixar rastros. A própria estrutura que deveria garantir segurança torna-se cúmplice do desaparecimento.

Em um modelo de livre migração, empresas de transporte, hotéis e empregadores teriam interesse direto em registrar a entrada e saída de pessoas. Não para controlá-las, mas para proteger seus próprios interesses comerciais e reputação. Esses registros descentralizados permitiriam rastreamento sem depender de burocracias estatais.

A solução libertária: três pilares para eficiência

A abordagem libertária para desaparecimentos não é utópica – é prática e já testada em setores paralelos. O sistema LoJack, criado nos anos 1980 nos Estados Unidos, permite rastreamento de veículos roubados sem depender da polícia estatal. A empresa tem incentivo financeiro direto para resolver casos em horas, não em décadas.

A solução passa por três pilares fundamentais. Primeiro, desburocratização da identidade através de sistemas descentralizados baseados em blockchain e biometria controlada pelo usuário. Qualquer pessoa, independente da nacionalidade, poderia ser rastreada com seu consentimento por empresas contratadas por familiares ou seguradoras.

Segundo, privatização da investigação como serviço pago, similar a planos de saúde ou seguros de vida. Empresas especializadas competiriam por resolver casos rapidamente, pois seu lucro dependeria da eficiência. Não haveria espera de 20 anos quando há dinheiro em jogo.

Terceiro, restituição monetária vinda do responsável pelo dano ou de fundos privados alimentados por contratos obrigatórios entre empregadores, empregados e prestadores de serviço. O custo do desaparecimento seria internalizado pelo sistema, não externalizado para o contribuinte que já paga impostos para um serviço que não funciona.

Exemplos reais de eficiência privada

A proposta libertária não é apenas teoria. No México, onde a polícia estatal foi cooptada pelo narcotráfico, familiares de desaparecidos contratam investigadores privados financiados por vaquinhas e igrejas. Em São Paulo, grupos independentes usam drones, cães e arqueologia forense para encontrar corpos em áreas ignoradas pela polícia oficial.

Empresas de seguro privado operam há décadas com mecanismos de rastreamento, recompensa e investigação independente. David Friedman, em “A Máquina da Liberdade”, propõe que sistemas de justiça privada operariam como qualquer serviço de mercado: com concorrência, reputação e preço competitivo.

O caso Zavada poderia ter sido resolvido em meses se uma seguradora de vida tivesse interesse em evitar prejuízo de reputação ou pagamento de indenizações. Empresas especializadas em forense contratariam laboratórios, bancos genéticos e investigadores independentes. O custo seria assumido por familiares, seguradoras ou fundos voluntários.

O próprio sistema de pessoas desaparecidas citado na reportagem é um serviço estatal que imita o formato privado: permite registros online, compartilhamento de dados e geolocalização. Mas ainda depende de boletim de ocorrência estatal porque o monopólio não permite concorrência real.

O monopólio estatal sobre a dor alheia

Por 20 anos, a família de Ludmila viveu na incerteza total. Não puderam enterrar a filha, não tiveram acesso ao corpo, não receberam informações. Tudo porque o sistema estatal espanhol não tinha obrigação contratual de responder. Em um modelo de justiça privada, essa obrigação seria clara e juridicamente exigível.

Se Zavada tivesse um seguro de vida ou plano de localização familiar, a empresa teria responsabilidade civil por não localizá-la. A família poderia processar por inércia, não apenas por erro. O Estado não pode ser processado por omissão – essa é sua proteção legal contra a própria incompetência.

O DNA não é caro – a burocracia é. Se bancos de dados genéticos fossem privados, operados por laboratórios contratados por familiares ou seguradoras, a identificação seria demandada e paga imediatamente. Não haveria espera de duas décadas para cruzar informações que já existiam desde 2005.

A operação Identify-me existe não porque o Estado se tornou eficiente, mas porque pressão internacional e constrangimento público forçaram reação tardia. É o mesmo padrão observado no Brasil, onde o cadastro nacional de pessoas desaparecidas foi lançado apenas em agosto de 2025, após décadas de reivindicações.

A tecnologia existe, falta liberdade para usá-la

Identidades descentralizadas, rastreamento por blockchain, bancos genéticos privados, investigação competitiva – toda tecnologia necessária já existe. O que falta é liberdade para implementá-la sem interferência estatal. O monopólio da justiça impede inovação e condena famílias ao sofrimento desnecessário.

Empresas de transporte, hotéis, locadoras e empregadores poderiam registrar entrada e saída de pessoas de forma descentralizada. Esses dados, acessíveis apenas com autorização, permitiriam rastreamento sem passaportes ou vistos burocráticos. A tecnologia resolve em minutos o que o Estado leva décadas para processar.

O lucro é o melhor incentivo para justiça eficiente. Quando há dinheiro a perder por inércia, a solução aparece rapidamente. O Estado, por definição, não conhece esse incentivo. Opera com dinheiro alheio, sem competição, sem consequências pela demora ou falha.

A identidade é um bem, a justiça é um serviço – mas nenhum deve ser monopolizado por quem não tem interesse em entregar qualidade. Ludmila Zavada recuperou seu nome, mas não os 20 anos roubados pela lentidão estatal.

Se queremos mudar essa realidade perversa, precisamos tirar a justiça das mãos do Estado e colocá-la nas mãos de quem tem algo real a perder se falhar. Só assim outras famílias não passarão duas décadas esperando por respostas que a tecnologia já pode dar hoje.

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