R$ 48 milhões sacados em dinheiro vivo por um policial militar. Cadeiras a 1.000% do preço de mercado. Empresas investigadas por fraude recebendo contratos bilionários. E a ironia suprema: obras da conferência do clima desmatando a própria Amazônia. O escândalo da COP30 não é apenas sobre superfaturamento – é um catálogo completo da corrupção que engole o dinheiro público brasileiro.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
O contrato de R$ 480 milhões que burlou todas as regras
O governo federal fechou um contrato de R$ 478,3 milhões sem licitação com a Organização de Estados Ibero-Americanos (OEI) para organizar a COP30. A justificativa oficial? Por ser “organismo internacional”, não precisa licitar. Na prática, criou-se um canal direto para desviar recursos sem a inconveniente transparência dos processos públicos.
O timing desta contratação levanta questões ainda mais sérias. Leonardo Barchini, ex-diretor da própria OEI, tornou-se secretário-executivo do Ministério da Educação, e os valores dos contratos da OEI explodiram durante o atual governo. Durante os governos Temer e Bolsonaro, a OEI recebeu R$ 32 milhões em quatro anos. Apenas nos primeiros meses do governo Lula, esse valor explodiu para R$ 600 milhões.
Registros do Portal da Transparência indicam que R$ 5 milhões foram pagos em agosto e outros R$ 15,7 milhões em dezembro de 2024, antes da formalização do acordo. O TCU classificou essa prática como “temerária”, mas na linguagem clara: é dinheiro público saindo do cofre antes mesmo de existir contrato. Onde há controle tão frouxo, o abuso é inevitável.
A escolha da OEI também ignora alternativas óbvias. Diferentemente de edições anteriores como a COP26 (Reino Unido, 2021) e a COP27 (Egito, 2022), que se valeram de parcerias com o setor privado e ampla concorrência, o Governo Federal optou por um modelo de contratação direta. O mercado poderia organizar o evento com eficiência e transparência, mas isso não interessava a quem pretendia controlar o fluxo de recursos.
O policial que virou operador de R$ 48 milhões
A história mais cinematográfica do escândalo começa em uma agência bancária em Castanhal, interior do Pará. Em 4 de outubro de 2024, dois dias antes do primeiro turno das eleições, Francisco de Assis Galhardo do Vale, tenente-coronel da PM do Pará, foi preso em flagrante após realizar um saque de R$ 5 milhões em espécie. Mas esse era apenas a ponta do iceberg.
A investigação da Polícia Federal identificou que o policial militar Francisco Galhardo realizou saques em dinheiro, em 2023 e 2024, que somam R$ 48,8 milhões. A maior parte, R$ 40 milhões, ocorreu em 2024. Todo esse dinheiro saiu das contas de duas construtoras: J.A Construcons e JAC Engenharia, ambas ligadas ao deputado federal Antônio Doido (MDB-PA).
As duas empresas têm como sócia Andrea Dantas, esposa de Antônio Doido. A segunda está registrada em nome de Geremias Hungria, funcionário de uma fazenda do deputado, e o mesmo homem preso ao receber os R$ 380 mil de Francisco Galhardo. O esquema não poderia ser mais óbvio: empresas de fachada para movimentar dinheiro público através de um policial militar.
As mensagens encontradas no celular de Galhardo revelam a operação em detalhes. As conversas iniciam-se no mesmo dia, 20 de setembro de 2024, em que o consórcio formado pelas duas empresas ligadas a Antônio Doido vence a licitação da COP30. Também na mesma data, o PM Francisco Galhardo sacou R$ 6 milhões. A coincidência temporal não deixa margem para dúvidas sobre a natureza dos pagamentos.
As mensagens que revelam o esquema de propina
O conteúdo das conversas entre o policial e o secretário de Obras do Pará, Ruy Cabral, oferece uma janela transparente para a mecânica da corrupção. Logo após retirar os valores, o PM trocou mensagens cifradas que indicavam um encontro com o secretário de Obras e a entrega de algo. Na visão dos investigadores, os diálogos “sugerem a ocorrência de crimes de corrupção passiva e ativa”.
A PGR narra que, após o saque milionário, o PM Francisco Galhardo “efetuou chamada de voz para Rui Secretário”, conforme consta no contato salvo no celular do policial. “Rui Secretário” é o secretário de Obras Públicas do Pará, Ruy Cabral, segundo a PGR. O homem responsável pelos contratos bilionários da COP30 estava em linha direta com o operador financeiro do esquema.
As mensagens subsequentes documentam a entrega dos valores. “Inicialmente, o secretário encaminhou a Galhardo a mensagem: ‘Vem’. Vinte minutos depois, Galhardo respondeu com três mensagens, posteriormente apagadas, e tentou uma chamada de voz”. Passados 40 minutos, o secretário Ruy Cabral encaminhou uma nova mensagem: “Entra. Vem. Na minha porta atrás”. A linguagem é a mesma usada em qualquer filme sobre crime organizado.
Três dias depois da vitória na licitação, as conversas continuaram. A PGR ainda cita uma nova tentativa de encontro tratada em mensagens pelo PM Francisco Galhardo e o secretário de Obras no dia 23 de setembro, três dias depois do consórcio ganhar a licitação da COP30. Por fim, segundo a PGR, o encontro entre os dois ocorreu em 24 de setembro, quatro dias após o consórcio formado pelas empresas ligadas ao deputado Antônio Doido vencer a licitação da COP30 conduzida pelo secretário Ruy Cabral.
R$ 911 milhões para empresas investigadas por fraude
O problema não se limita às empresas do deputado Antônio Doido. As duas empreiteiras vinculadas a Antônio Doido venceram duas licitações da COP30. Uma de R$ 142 milhões e a outra de R$ 123 milhões, totalizando quase R$ 300 milhões. Mas essa é apenas uma pequena parte dos contratos suspeitos distribuídos para empresas já investigadas por irregularidades.
Empresas com histórico de fraude continuaram sendo contempladas com contratos bilionários. A B.A. Meio Ambiente (Bemaven), denunciada pelo Ministério Público Federal em 2017 por fraude em licitação, integrou consórcios que receberam R$ 179 milhões para obras de saneamento da COP30. A empresa estava em recuperação judicial desde 2013, mas isso não impediu sua contratação para obras públicas.
O Consórcio RMB, que recebeu R$ 231 milhões, é formado por cinco empresas, incluindo a ARF Construção, suspeita de direcionamento de licitações e superfaturamento pela Controladoria-Geral da União. A CGU identificou R$ 3,3 milhões de superfaturamento em obras anteriores da ARF, mas isso não impediu sua participação nos contratos da COP30.
A Fortes Serviços, contratada por R$ 17,9 milhões, foi classificada pela Polícia Federal como “empresa de fachada”, usada em contratos fraudulentos, saques em espécie e pagamentos de propina. Mesmo assim, recebeu contrato para demolição em área da Marinha. De 2020 a 2024, as empresas ligadas ao esquema receberam R$ 911 milhões do governo de Helder Barbalho (MDB). O padrão é claro: empresas investigadas continuam sendo premiadas com dinheiro público.
Superfaturamento de até 1.000% vira rotina
Em alguns casos, as diferenças chegam a 1.000%. O relatório cita, por exemplo: Uma cadeira Charles Eames de R$ 150,00 sendo vendida por R$ 1.650,00. A análise do TCU partiu de uma representação feita pela oposição ao governo e encontrou fortes indícios de superfaturamento. Segundo os técnicos, há “plausibilidade jurídica robusta” nas denúncias apresentadas, que mostram disparidades escandalosas entre os preços cobrados pela empresa contratada e os valores praticados no mercado.
O superfaturamento não se limitou ao mobiliário. Impressoras multifuncionais foram vendidas a 650% acima do preço de mercado. Frigobar teve sobrepreço de 180%. Galões de água de 20 litros custaram 611% mais que o valor normal. Água mineral chegou a R$ 17 por unidade. O orçamento do stand do STF alcançou R$ 2,1 milhões. Cada item revelava o mesmo padrão: preços absurdamente inflacionados em contratos sem concorrência real.
Há forte suspeita de conluio entre as empresas vencedoras. Concorrentes da OEI no processo licitatório dos espaços “zona azul” e “zona verde” da COP30 registraram propostas com valores exatamente idênticos nos centavos, aplicando o desconto máximo permitido de 50% sobre os preços de referência. É o velho truque de aparentar economia inicial para depois sangrar o erário.
O governo informou ao Congresso que a COP30 custaria R$ 859,3 milhões. Os gastos reais já ultrapassaram esse valor em 20%, com previsão de custos totais superiores a R$ 1 bilhão. O governo Lula gastou cerca de R$1 bilhão para preparar a COP30. Mais de meio bilhão foi gasto em um acordo com a Organização dos Estados Ibero-americanos para a organização do evento. Quando o Estado promete um preço e entrega outro, o cidadão sempre paga a diferença.
A ironia suprema: desmatamento para salvar o clima
O aspecto mais absurdo do escândalo é que obras para a COP30 – a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas – desmataram floresta amazônica. O BNDES aprovou R$ 248,5 milhões para a duplicação da Rua da Marinha, em Belém, que impacta uma área remanescente de floresta urbana.
Documentos do licenciamento ambiental apontam supressão de vegetação em estágio moderado de regeneração, perda de árvores de 64 espécies diferentes, sendo 5 espécies de alta importância ecológica e 2 espécies na lista oficial de extinção: angelim-pedra e ucuuba. A Avenida da Liberdade, outra obra com cronograma acelerado para a COP30, está sob a área de influência de mais de 1.500 hectares de Áreas de Preservação Permanente (APPs).
A contradição é gritante. O Brasil organiza uma conferência climática mundial e, para isso, derruba a própria Amazônia. É como promover a sobriedade servindo cachaça na porta. A hipocrisia é tão flagrante que até Donald Trump ironizou: “Arrancaram um pedaço da floresta amazônica para construir uma rodovia de quatro faixas para ambientalistas viajarem.”
Defensores do livre mercado há muito alertam que o Estado não consegue nem proteger adequadamente o meio ambiente. Aqui está a prova: quando o governo tenta “salvar o clima”, acaba desmatando a floresta e desviando bilhões em contratos fraudulentos. O mercado, ao contrário, tem incentivos reais para a eficiência – inclusive ambiental, quando há demanda por sustentabilidade.
O TCU que vê mas não age
O alerta consta em um documento de 11 páginas no qual o TCU aponta “a gravidade das irregularidades identificadas” e afirma ser “indispensável a oitiva da Secretaria Extraordinária da COP30”. A decisão de Dantas, no entanto, não tocou em pedidos para apurações que envolveriam o sobrepreço e superfaturamento nos contratos.
O TCU identificou todas essas irregularidades, mas decidiu não anular os contratos “para não prejudicar a imagem do Brasil”. A ironia é brutal: ao acobertar a corrupção, o Tribunal garantiu que a imagem do país ficasse ainda mais manchada. Agora o Brasil não é visto apenas como incompetente, mas como cúmplice da própria corrupção.
Essa postura do TCU exemplifica um dos maiores problemas do aparelho estatal: a tendência de proteger o sistema em vez de proteger o cidadão. O tribunal existe teoricamente para controlar os gastos públicos, mas na prática funciona como um legitimador de irregularidades quando os interesses políticos estão em jogo.
A decisão revela como funciona a lógica invertida do Estado brasileiro. Quando deveria ser rígido com o dinheiro público, é complacente. Quando deveria promover eficiência, promove desperdício. Quando deveria punir a corrupção, a acoberta sob o pretexto da “imagem do país”.
Mais de R$ 2 bilhões em contratos sob suspeita
O escândalo da COP30 representa mais que superfaturamento pontual. É um sistema completo de desvio de recursos que totaliza mais de R$ 2 bilhões em contratos sob suspeita. O contrato com a OEI sem licitação: R$ 480 milhões. Empresas do deputado Antônio Doido: R$ 911 milhões em notas empenhadas, sendo R$ 911 milhões já pagos. Consórcio RMB com empresas investigadas: R$ 231 milhões. Empresa B.A. com histórico de fraude: R$ 179 milhões.
A obra que desmata a Amazônia financiada pelo BNDES: R$ 248 milhões. Os saques em dinheiro vivo do policial militar: R$ 48,8 milhões. A empresa de fachada: R$ 17,9 milhões. O total aproximado chega a R$ 2,1 bilhões em contratos que apresentam algum tipo de irregularidade, fraude ou suspeita.
Esse volume de recursos desviados não é acidente. É projeto. O Estado criou um sistema onde a corrupção é mais lucrativa que a honestidade, onde empresas fraudulentas são premiadas com novos contratos, onde policiais militares operam esquemas de lavagem de dinheiro, onde tribunais de contas protegem irregularidades em nome da “imagem do país”.
O livre mercado jamais permitiria tamanho desperdício por uma razão simples: é dinheiro próprio em jogo. Quando uma empresa privada organiza um evento, cada real economizado vira lucro. Quando o Estado organiza, cada real desviado vira “custo administrativo”. A diferença entre gastar dinheiro próprio e dinheiro alheio explica toda a discrepância.
O maior escândalo ambiental do governo Lula
A COP30 deveria ser o grande momento diplomático do terceiro governo Lula – a vitrine para mostrar ao mundo o compromisso do Brasil com o meio ambiente. Acabou se tornando um catálogo completo de tudo que há de errado na gestão pública brasileira: contratos bilionários sem licitação, empresas investigadas por fraude recebendo dinheiro público, políticos usando policiais militares para sacar dezenas de milhões em dinheiro vivo.
O caso expõe a contradição fundamental do ambientalismo estatal. O mesmo Estado que promete salvar a Amazônia é o que a desmata para construir obras superfaturadas. O mesmo governo que critica o “capitalismo selvagem” é o que permite o saque selvagem dos cofres públicos. O mesmo sistema que promete transparência é o que operou R$ 2 bilhões em contratos suspeitos.
Não é incompetência. É projeto. O Estado não falha em proteger o meio ambiente por acaso – falha porque os incentivos estão completamente invertidos. Quem lucra com o desmatamento para obras públicas não é quem paga o custo ambiental. Quem ganha com contratos superfaturados não é quem paga a conta. Quem se beneficia da corrupção não é quem sofre as consequências.
A pergunta que fica é: se cadeiras a 1.000% do preço, R$ 48 milhões em saques suspeitos e desmatamento da Amazônia para uma conferência climática não são suficientes para anular contratos, o que seria? Aparentemente, no Brasil de hoje, não há limite para o que o Estado pode fazer com o dinheiro do contribuinte – desde que seja em nome de uma “causa maior”.
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 22/01/2026 12:36
Fontes:
- Investigação da PGR aponta corrupção em licitação milionária da COP30 – Metrópoles
- Escândalo da COP30: TCU por superfaturamento e monopólio – Blog do Prisco
- TCU aponta irregularidades em contrato de R$ 480 milhões – Ver o Fato
- Obra de R$ 231 mi da COP30 tem empresas investigadas – ICL Notícias
- Fraude em licitação da COP30: Dino abre inquérito – Opinião em Pauta


