O regime iraniano conseguiu algo que especialistas consideravam quase impossível: neutralizar sistematicamente o serviço de internet satelital Starlink em território nacional durante os protestos que intensificaram desde dezembro de 2025. Segundo análises técnicas publicadas pela Euronews, o país desenvolveu métodos que causam perda de até 80% dos dados transmitidos, limitando drasticamente a capacidade de comunicação de manifestantes.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
A receita técnica que desafiou Elon Musk
A descoberta veio de logs de depuração extraídos diretamente de uma antena Starlink operando no Irã durante o bloqueio. Desde 8 de janeiro de 2026, conforme documenta a Wikipedia, o Irã impôs um bloqueio quase total da internet, cortando comunicações durante protestos que se intensificaram desde dezembro de 2025.
O método descoberto combina duas tecnologias militares: jamming tradicional com spoofing de GPS. O primeiro é conhecido — transmissores potentes emitem sinais na mesma frequência dos satélites, embaralhando a comunicação. Mas o segundo elemento foi o que tornou tudo devastadoramente eficaz.
O spoofing de GPS cria satélites falsos. Como explica análise técnica do NextBigFuture, as antenas Starlink precisam de dados precisos de localização do GPS para se alinhar com satélites acima e sincronizar feixes.
Quando detectaram 18 satélites GPS — um número anormalmente alto — as antenas perceberam interferência proposital. Normalmente, cinco ou seis satélites já oferecem localização precisa. Dezoito indicam guerra eletrônica em curso.
Como funciona o sistema de dupla frente
Sem GPS confiável, a antena Starlink precisa descobrir sua posição por outros métodos. E aqui começam os problemas: ela não consegue fazer isso com precisão suficiente em meio aos ataques eletrônicos. Os dados mostram que terminais ficaram apontando cerca de um grau fora do alvo ideal.
Pode parecer pouco, mas um grau de diferença no apontamento de antena satelital é devastador para a conexão. Segundo reportagem do Rest of World, terminais Starlink dependem de sinais GPS para se localizar e conectar aos satélites — ao interromper esses sinais, autoridades podem tornar os dispositivos não confiáveis.
O resultado prático: 25% ou mais de perda de pacotes constantemente. A comunicação nunca se estabiliza, mesmo depois de 24 minutos de tentativas. Isso significa que vídeos e imagens ficam quase impossíveis de transmitir — exatamente o que regimes autoritários querem evitar durante protestos.
Afinal, manifestantes dependem da capacidade de mostrar ao mundo o que está acontecendo. Como nota o Times of Israel, até mesmo enfrentando sanções sobre o programa nuclear, iranianos ainda conseguiam acessar aplicativos e sites bloqueados usando redes privadas virtuais.
Por que funcionou no Irã mas falhou na Ucrânia
A diferença está na aplicação e sofisticação. Conforme documenta o Rest of World, a Rússia tentou bloquear Starlink na Ucrânia desde 2022, mas a SpaceX enviou atualizações de software que rapidamente neutralizaram os ataques.
No Irã a história é diferente. O país aparentemente aprendeu com os erros russos e desenvolveu técnicas mais sofisticadas, espelhando táticas russas mas adaptando-as para controle doméstico urbano, com foco na negação de GPS.
A SpaceX ainda não ofereceu correção eficaz para o problema iraniano. Diferentemente da resposta rápida na Ucrânia, a empresa parece ter dificuldades para contornar essa combinação específica de ataques coordenados.
Os números que revelam o tamanho do problema
Segundo reportagem do Rest of World, Amir Rashidi, diretor de direitos digitais do Miaan Group e especialista em Irã, detectou cerca de 30% de perda em pacotes sendo enviados por dispositivos Starlink, chegando a 80% em algumas áreas.
Esses números são devastadores para qualquer sistema de comunicação. Uma perda de 30% já torna difícil o envio de arquivos grandes. Com 80% de perda, restam apenas mensagens de texto básicas — quando funcionam.
Para contextualizar a escala do blecaute geral: dados da Cloudflare registraram colapso de 98,5% no tráfego iraniano dentro de 30 minutos do desligamento. O NetBlocks confirmou que conectividade não-satelital caiu abaixo de 2% dos níveis normais.
A tecnologia militar por trás do bloqueio
Análises técnicas detalhadas explicam que transmissores de alta potência sobrecarregam as frequências do Starlink com ruído de banda larga, explorando a baixa potência dos satélites (1-10 W por feixe) e a sensibilidade dos terminais à interferência.
Como sinais Starlink chegam ao solo com baixa densidade de energia (-120 dBm), um bloqueador terrestre com saída de 100-500 W pode dominar dentro de um raio de 5-20 km. O sistema iraniano usa jammers móveis montados em veículos para mobilidade dinâmica.
Especulações técnicas apontam para uso de sistema com nome “Kalinka”, supostamente de origem russa, capaz de bloquear terminais Starlink individuais sem necessidade de antenas grandes ou tecnologia conspícua, com alcance de cerca de 15 quilômetros.
Estado contra liberdade de informação
Críticos observam que não é coincidência o bloqueio ter intensificado quando os protestos se expandiram. Conforme documenta a Wikipedia, o “blecaute digital” começou imediatamente após grandes multidões atenderem chamado para protestos nacionais pelo Príncipe Reza Pahlavi.
Especialistas em direitos digitais interpretam a estratégia como criação de vácuo informacional. O Centro de Direitos Humanos no Irã expressou preocupações de que forças de segurança possam estar realizando repressão letal sob cobertura do desligamento.
Mohammed Soliman, do Middle East Institute, observa que anos de sanções deixaram o governo com controle quase total sobre infraestrutura de internet, facilitando operações como a atual.
Implicações para comunicação livre global
Como nota reportagem especializada, em Myanmar, Sudão e outras zonas de conflito, Starlink tornou-se infraestrutura crítica para rebeldes, trabalhadores humanitários e jornalistas. Se técnicas iranianas se espalharem, essa alternativa comunicacional torna-se menos confiável.
Este é o verdadeiro perigo da descoberta. Ela quebra o mito de que Starlink é impossível de neutralizar. Analistas argumentam que, se métodos similares se espalharem para outros regimes autoritários, uma das últimas ferramentas de comunicação livre pode se tornar vulnerável.
A situação expõe uma realidade desconfortável: mesmo as tecnologias mais avançadas têm vulnerabilidades quando Estados aplicam recursos militares suficientes para quebrá-las.
O que isso significa na perspectiva libertária
Na visão libertária, este caso ilustra perfeitamente por que concentração de poder estatal é sempre perigosa — mesmo em questões técnicas aparentemente neutras. Quando governos controlam tanto infraestrutura tradicional quanto conseguem neutralizar alternativas tecnológicas, o resultado é sufocamento total da liberdade de expressão.
Para defensores da liberdade individual, a lição é clara: não existe tecnologia 100% à prova de interferência estatal quando regimes determinados aplicam recursos militares suficientes. A liberdade de comunicação torna-se um jogo constante entre inovação tecnológica e repressão governamental.
O caso iraniano demonstra que esse jogo entrou em nova fase, onde Estados desenvolvem capacidades específicas para neutralizar até mesmo as mais avançadas ferramentas de comunicação independente.
Aliás, isso levanta uma questão fundamental: se fazem isso no Irã hoje, que outros países podem adotar métodos similares amanhã? E quanto tempo leva para que técnicas de controle se espalhem entre regimes que veem información livre como ameaça?
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 14/01/2026 17:16
Fontes
- Euronews – Iran could be blocking Starlink during internet blackout
- Rest of World – Iran’s internet shutdown crippled Starlink
- Times of Israel – Iran appears to jam Starlink
- NextBigFuture – Iran Jamming of Starlink and Ways to Overcome
- Wikipedia – 2026 Internet blackout in Iran
- Legal Data – Iran blocks Starlink



