A China decidiu aplicar uma tarifa de 55% sobre a carne brasileira que exceder as cotas estabelecidas, a partir de 1º de janeiro de 2025. O Ministério do Comércio da China anunciou que aplicará tarifas adicionais de 55% às importações de carne bovina do Brasil, principal fornecedor do produto ao país asiático. A medida vai durar três anos e atinge nosso produto em seu principal mercado externo. Bem-vindos à realidade do “multilateralismo” chinês.
Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens amplamente divulgadas (com links para as fontes). Não afirma como fatos comprovados a prática de crimes ou ilícitos, nem substitui decisões judiciais. Seu objetivo é promover reflexão crítica sob uma perspectiva editorial libertária.
Os números que expõem o tamanho da encrenca
Segundo dados divulgados pela Revista Oeste, o Brasil exportou por volta de 1,4 milhão de toneladas de carne bovina para a China até novembro, o que tornou o país asiático como o maior destino do produto brasileiro. Conforme reportagem da Gazeta do Povo, a China foi o destino de quase metade de toda a carne bovina exportada pelo Brasil em 2025, com total faturado de US$ 8,08 bilhões. Para 2026, segundo a CartaCapital, o Brasil terá uma cota de importação de 1,1 milhão de toneladas. Perceberam o problema?
A matemática é cruel: o número é inferior ao volume exportado pelo Brasil para a China nos primeiros 11 meses deste ano, que foi de 1,52 milhão de toneladas de carne bovina. Ou seja, já vendemos mais do que poderemos vender sem tarifa. Qualquer volume acima da cota enfrentará uma sobretaxa que praticamente mata o negócio. É como se você descobrisse que pode vender apenas 70% do que já vende hoje — e pelo resto, tem que pagar multa.
Conforme divulgado pela Tribuna do Sertão, o aumento é classificado como uma medida “protecionista” voltada à defesa dos produtores domésticos de carne, com previsão de redução gradual nos próximos três anos. A China justifica dizendo que investigadores concluíram que as importações de carne bovina prejudicaram a economia chinesa. É o velho protecionismo de manual: prejudicar milhões de consumidores para beneficiar alguns produtores ineficientes. Pura lógica estatista.
E não é só o Brasil que se ferrou. A Argentina terá um limite de aproximadamente metade do Brasil e o Uruguai, de 324 mil toneladas. A Austrália enfrenta uma cota de cerca de 200 mil toneladas e os Estados Unidos, de 164 mil toneladas. Quando a China decide proteger seus “campeões nacionais”, todo mundo dança.
A economia chinesa em frangalhos e suas consequências
Segundo análises publicadas, nos últimos anos, o mercado chinês vem registrando queda nos preços da carne, reflexo de oferta elevada e demanda enfraquecida diante do ritmo mais lento da economia local. O preço da carne bovina na China tem apresentado uma tendência de queda nos últimos anos, devido ao excesso de oferta e à falta de demanda causada pela desaceleração da segunda maior economia mundial.
A situação econômica chinesa não é novidade para quem acompanha os dados. Desde 2018, a máquina de crescimento do gigante asiático começou a mostrar suas rachaduras. O modelo baseado em investimento estatal massivo e exportações encontrou seus limites naturais. Agora, com uma população envelhecendo rapidamente e consumo interno fraco, a China tenta proteger seus produtores domésticos. Socialismo com características chinesas em ação.
Mas essa “proteção” tem um preço — e quem paga são os consumidores chineses, que vão desembolsar mais pela carne no prato. É a lógica perversa do protecionismo: o governo protege alguns poucos produtores nacionais, enquanto milhões de pessoas arcam com o custo. A carne brasileira, mais eficiente e competitiva, perde espaço para produtores locais menos eficientes. Resultado? Todo mundo sai perdendo, exceto os burocratas e os grupos de interesse.
Para nós, isso expõe uma dependência perigosa. Quando você concentra suas exportações em poucos mercados — especialmente mercados controlados por regimes autoritários —, fica vulnerável a decisões unilaterais como essa. É o risco de apostar todas as fichas numa parceria com quem não tem compromisso real com livre mercado.
BRICS: questões sobre efetividade da parceria estratégica
A decisão chinesa levanta questionamentos sobre a efetividade das “parcerias estratégicas” entre os países do BRICS. O Brasil apostou fichas pesadas na aliança com China e Rússia, vendendo a narrativa de uma “nova ordem mundial” multipolar. A realidade? Quando os interesses chineses estão em jogo, é interpretado por críticos como uma demonstração de que acordos comerciais podem ser subordinados a políticas domésticas unilaterais.
A China não hesitou em adotar medidas que afetam o maior fornecedor de carne do bloco para proteger seus produtores domésticos. Não houve consulta prévia, negociação ou “diálogo fraterno”. Foi uma tacada unilateral que atinge diretamente milhares de produtores brasileiros. Há questionamentos no debate público sobre onde ficou toda aquela conversa sobre “cooperação Sul-Sul”.
É o que acontece quando você constrói política externa baseada em ideologia, e não em pragmatismo. O Brasil gastou capital político defendendo regimes autoritários no cenário internacional, mas na hora do aperto, alguns analistas interpretam que ficou no vácuo. A China age pelos próprios interesses — como qualquer país deveria fazer. O problema é o Brasil ter acreditado que seria diferente só porque ambos fazem parte do mesmo clubinho geopolítico.
Agora os produtores brasileiros pagam o preço de uma diplomacia que, segundo críticos, priorizou discursos grandiosos sobre “nova ordem mundial” ao invés de diversificar mercados e fortalecer relações comerciais sólidas. É a diferença entre fazer política externa para plateia doméstica e fazer para resultados concretos.
O impacto direto no bolso do produtor brasileiro
Analistas avaliam que a mudança deve provocar retração nas compras chinesas em 2026. Para frigoríficos e pecuaristas, isso significa pressão nos preços e necessidade urgente de encontrar novos mercados. A adoção de medidas de salvaguarda pela China era vista como “iminente” pelo governo e pelo setor produtivo brasileiro, que temem o impacto com a queda nas exportações da proteína vermelha ao país asiático.
A situação é particularmente grave porque o Brasil responde por 45% da carne bovina importada pela China. Perder acesso privilegiado ao maior mercado mundial significa reorganizar toda a cadeia produtiva. Frigoríficos que investiram pesado para atender especificações chinesas agora precisam buscar alternativas — e rápido.
Para o pecuarista, o impacto pode ser duplo. Primeiro, menos demanda externa pressiona os preços do boi gordo para baixo. Segundo, a retração nas exportações aumenta a oferta no mercado interno, pressionando ainda mais os valores. É o típico efeito cascata de uma medida protecionista: prejudica exportadores e consumidores ao mesmo tempo. Eficiência estatal em sua forma mais pura.
Segundo Felipe Fabbri, analista de proteína animal da Scot Consultoria, a mudança anunciada pela China não deve impactar o mercado físico do boi no curto prazo, especialmente no primeiro semestre. “Até que a totalidade dessa cota seja atingida, segue valendo o que está em vigor. Pode haver, sim, uma desaceleração nas compras por parte do importador chinês no curto prazo, considerando que é um mercado que se abasteceu bem em 2025. Ao mesmo tempo, a oferta de boiadas entre janeiro e fevereiro tende a ser menor, o que é um fator positivo para os preços”.
A reação do governo: interpretações divergentes sobre impacto
A resposta oficial brasileira gerou controvérsias — como era de se esperar. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, afirmou que o anúncio não representa motivo de grande preocupação. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, minimizou a decisão chinesa, dizendo em entrevista à TV Globo que ela “não é algo tão preocupante” porque o Brasil estaria exportando um montante próximo ao da cota – na verdade, o total de 1,52 milhão de toneladas vendidas até novembro deste ano é quase 40% maior que a cota imposta pela China para 2026.
Críticos consideram impressionante como conseguem minimizar o impacto com os números na mesa. Dizer que “não é preocupante” quando o Brasil já vende 40% mais do que a nova cota permite gera questionamentos sobre a avaliação oficial. Qualquer pessoa que saiba somar percebe que haverá impacto significativo. Mas há interpretações de que o governo prefere minimizar para não admitir dificuldades de sua estratégia diplomática.
O setor agropecuário exportador se manifestou por meio de nota da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). As entidades afirmaram que a medida chinesa “altera as condições de acesso ao seu mercado e impõe uma reorganização dos fluxos de produção e de exportação”. Pelo menos o setor produtivo tem a honestidade de reconhecer a gravidade da situação. E mais: tem que se virar para resolver o problema que a diplomacia não conseguiu evitar.
A verdade é que nosso governo tem instrumentos limitados para reagir. Não pode retaliar porque depende do mercado chinês para muito mais do que carne. Não pode negociar de igual para igual porque se colocou em posição de dependência. É interpretado por analistas como resultado de anos de uma diplomacia que priorizou alinhamento ideológico ao invés de diversificação comercial inteligente.
Estados Unidos: a oportunidade que quase foi desperdiçada
Por sorte — e não por mérito do governo —, o ministro destacou que o país avançou ao longo de 2025 na abertura e consolidação de novos mercados internacionais para a carne bovina, o que reduz a dependência do mercado chinês. O principal deles são os Estados Unidos, que reabriram o mercado para nossa carne depois de anos de restrições.
É irônico — ou melhor, é trágico — que justamente o país que o governo brasileiro tanto criticou agora se torne uma alternativa importante para os exportadores de carne. Os Estados Unidos registraram forte queda nos embarques, em meio a tensões comerciais e à não renovação de licenças de frigoríficos norte-americanos. Isso abre espaço para o Brasil ocupar uma fatia maior do mercado americano.
Mas existe um porém: com Trump assumindo a presidência, as relações comerciais podem ficar mais voláteis. O novo presidente americano não esconde sua preferência por medidas protecionistas e “America First”. Se conseguimos reabrir o mercado americano, podemos perdê-lo novamente com a mesma facilidade. Afinal, Trump também acredita no poder do Estado para “proteger” a economia nacional.
A lição é cristalina: diversificação é fundamental. Depender excessivamente de um único mercado — seja China, Estados Unidos ou qualquer outro — é estratégia arriscada. O ideal seria ter uma carteira de mercados bem distribuída, reduzindo nossa vulnerabilidade a decisões unilaterais de qualquer governo. Mas para isso, precisaríamos de uma diplomacia profissional, não ideológica.
Brasil líder mundial: sucesso que não nasceu em Brasília
É importante deixar claro: essa liderança não é mérito do governo atual. Além de liderar a produção em 2025, o Brasil mantém a posição de maior exportador mundial de carne bovina. O sucesso da nossa pecuária é resultado de décadas de investimento privado, inovação tecnológica e eficiência produtiva. Temos as maiores pastagens do mundo, clima favorável e pecuaristas que investiram pesado em genética e manejo.
O governo não criou essa competitividade — na verdade, muitas vezes atrapalhou com burocracia excessiva, impostos altos e políticas que favorecem o consumo interno em detrimento das exportações. Nossa pecuária é competitiva apesar do governo, não por causa dele. É o empreendedorismo brasileiro funcionando mesmo com o Estado atravancando o caminho.
Mas para 2026, porém, a projeção do órgão norte-americano indica equilíbrio entre os dois países. A estimativa aponta produção de 11,7 milhões de toneladas no Brasil e 11,71 milhões de toneladas nos Estados Unidos. Manter a liderança exigirá mais investimento — e principalmente, menos interferência estatal na economia.
A lição sobre protecionismo que ninguém quer aprender
A decisão chinesa é um exemplo perfeito de como o protecionismo prejudica todo mundo. “A aplicação de salvaguardas à carne bovina importada visa ajudar temporariamente a indústria nacional a superar dificuldades, não restringir o comércio normal de carne”, disse um porta-voz chinês. É a mesma retórica batida de sempre: proteção “temporária” que nunca acaba. Vocês conhecem alguma medida “temporária” do governo que realmente terminou no prazo?
Na prática, quem paga a conta são os consumidores chineses, que terão carne mais cara no prato. Para Hongzhi Xu, analista sênior da Beijing Orient Agribusiness Consultants, a pecuária bovina da China enfrenta limitações estruturais e não consegue competir com grandes exportadores, como Brasil e Argentina. Segundo ele, esse desequilíbrio não pode ser corrigido no curto prazo, mesmo com avanços tecnológicos ou ajustes institucionais.
Ou seja, mesmo analistas chineses admitem que a indústria local não consegue competir. Mas ao invés de permitir que consumidores se beneficiem de carne mais barata e de melhor qualidade, o governo prefere proteger produtores ineficientes. É a lógica invertida do estatismo: sacrificar a maioria para beneficiar poucos grupos de interesse. E ainda dizem que isso é “pelo bem do povo”.
O Brasil deveria aprender com esse exemplo, mas provavelmente fará o contrário. Nossa tendência é sempre copiar as políticas erradas dos outros países. Não me surpreenderia ver o governo brasileiro implementando “medidas de salvaguarda” similares contra produtos estrangeiros, prejudicando nossos próprios consumidores no processo. Afinal, por que facilitar quando se pode complicar?
O futuro do agronegócio: menos Estado, mais liberdade
A crise com a China expõe uma questão fundamental: nosso agronegócio precisa de menos dependência do governo e mais liberdade para buscar seus próprios mercados. A medida ocorre em um contexto de escassez global de carne bovina, que tem pressionado os preços em diversas regiões do mundo, incluindo os Estados Unidos. Há demanda mundial — o problema é o acesso aos mercados.
Em um mundo ideal, produtores brasileiros poderiam exportar livremente para qualquer país disposto a comprar seus produtos. Não precisariam da mediação de diplomatas ou da “benevolência” de governos estrangeiros. O comércio seria direto entre quem produz e quem consome, sem interferência de burocracias nacionais. Seria isso pedir demais?
Mas vivemos em um mundo de Estados-nação que usam o comércio como arma geopolítica. A China protege seus produtores, Trump ameaça com tarifas, a Europa impõe barreiras sanitárias. Cada governo usa o poder para beneficiar seus grupos de interesse domésticos. É uma guerra comercial disfarçada de “política industrial”.
O Brasil não deveria imitar essas práticas. Pelo contrário, deveria se posicionar como o país mais aberto ao comércio mundial, oferecendo reciprocidade real: “Compramos de quem compra de nós”. Seria uma vantagem competitiva real em um mundo cada vez mais protecionista. Enquanto outros países fecham suas economias, poderíamos nos beneficiar sendo o mais aberto. Mas isso exigiria coragem política — commodity em falta por aqui.
O futuro da nossa agropecuária depende de mercados livres, não de acordos diplomáticos. A competitividade dos produtores brasileiros fala por si. O que falta é liberdade para explorar todo seu potencial. E menos governo atrapalhando no meio do caminho.
Diante de tudo isso, fica a pergunta: quanto tempo o Brasil vai demorar para aprender que apostar todas as fichas em “parcerias estratégicas” com regimes autoritários levanta questionamentos sobre dependência comercial? E você, acredita que nosso governo vai finalmente priorizar diversificação comercial ou continuará fazendo diplomacia ideológica às custas do setor produtivo? Conhecendo o histórico, já temos pistas sobre a resposta.



