dezembro 12, 2025

Ludwig M

BYD em colapso: greve, recall de 89 mil carros e a farsa industrial

BYD em colapso: greve, recall de 89 mil carros e a farsa industrial

A maior fábrica de carros elétricos do Brasil está parando. Greve geral, confronto com a polícia, recall de 88.981 veículos por risco de incêndio e uma operação que funciona a apenas 15% da capacidade. O projeto de R$ 5 bilhões que Lula vendeu como “renascimento industrial” virou símbolo de tudo que está errado na política econômica brasileira.

A BYD recebeu terreno, isenções fiscais e incentivos bilionários. Em troca, entregou um galpão de montagem onde trabalhadores caminham 4 km por dia por falta de transporte interno. Faltam banheiros, bebedouros e vestiários. Os salários chegam com atraso e as condições lembram trabalho análogo à escravidão.

Quando os trabalhadores pararam para exigir dignidade básica, a resposta veio em forma de bomba de gás lacrimogênico. A Polícia Militar da Bahia, comandada pelo governador petista Jerônimo Rodrigues, atacou quem deveria proteger. O Partido dos Trabalhadores escolheu defender os interesses chineses contra os trabalhadores brasileiros.

Mas a crise vai além do chão de fábrica. Quase 90 mil famílias estão com carros novos na garagem e uma dúvida na cabeça: será que é seguro ou uma bomba-relógio?

O galpão que se disfarça de fábrica

Chamar a operação da BYD de “fábrica” é generosidade demais. Na realidade, trata-se de um simples galpão de montagem onde carros chegam praticamente prontos da China. Não há produção de bateria, células, estamparia, solda ou usinagem. Zero tecnologia brasileira.

A planta foi projetada para produzir 600 mil veículos anuais. Hoje opera com míseros 15% dessa capacidade. O Brasil ficou apenas com o rótulo de “fábrica” e recebeu somente a etapa mais superficial da produção. Mesmo assim, nem essa etapa funciona direito.

Essa estrutura frágil coloca a BYD numa posição extremamente confortável e o Brasil em total vulnerabilidade. A operação pode ser expandida ou reduzida instantaneamente, dependendo do fluxo de peças da China. Quem dita o compasso do jogo não somos nós.

Quando você tem uma fábrica real, com processos complexos integrados, você cria raízes, cadeia produtiva e especialização. Mas quando você tem apenas um galpão de montagem, você vira refém de quem controla a produção. E esse alguém mora do outro lado do mundo.

O governo vendeu uma história de nova industrialização, mas entregou dependência tecnológica disfarçada de modernidade. Não é incompetência. É projeto.

Trabalho escravo com incentivos públicos

A lista de reivindicações dos trabalhadores da BYD revela o tamanho da humilhação. Eles pedem o básico: pagamento de 30% de insalubridade previsto em lei, mais banheiros químicos com limpeza, fim do assédio moral e das ameaças de demissão.

Os operários gastam R$ 600 do próprio salário com transporte porque moram longe e a empresa não oferece condução adequada. Dentro da fábrica, caminham mais de 4 km diários por falta de transporte interno. Não existem vestiários nem banheiros suficientes. Faltam até bebedouros com água gelada.

O piso salarial atualizado é R$ 2.658, mas as terceirizadas pagam R$ 2.558 – R$ 100 a menos que o legal. E ainda por cima com atraso. A empresa que recebeu R$ 5 bilhões em incentivos não consegue pagar nem a sexta básica e a quinzena em dia.

Quando os trabalhadores decidiram parar, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) mandou a Polícia Militar jogar bomba de gás lacrimogêneo. O Partido dos Trabalhadores, que deveria estar ao lado dos operários, escolheu defender os chineses para não atrapalhar o “esqueminha” com o governo federal.

É assim que funciona a parceria público-privada no Brasil: o público banca, o privado lucra, e quem reclama leva bomba.

Recall massivo expõe a farsa da qualidade

Enquanto a fábrica pegava fogo (literalmente, com bombas de gás), os produtos da BYD também começaram a pegar fogo – desta vez por defeito de fabricação. A empresa anunciou recall de 88.981 veículos híbridos por risco de incêndio na bateria.

Os modelos afetados são o King Plus DMI, produzidos entre janeiro de 2021 e setembro de 2023. Mas esse é apenas um dos recalls. Em 2025, a BYD já chamou de volta mais de 210 mil veículos elétricos por defeitos diversos.

Em outubro de 2025, a empresa fez seu maior recall: 115 mil veículos Tang e Yuan Pro fabricados entre 2015 e 2022. Sete anos de produção defeituosa. Em setembro de 2024, foram outros 97 mil carros dos modelos Dolphin e e1 Plus por falha que causava risco de incêndio.

Enquanto isso, a BYD domina 62% do mercado brasileiro de carros elétricos e vende 8 mil unidades mensais. Só na Black Friday vendeu 16.500 veículos em um fim de semana. Quase 90 mil famílias brasileiras estão com carros novos na garagem e uma bomba-relógio na consciência.

O pior é que muitos compraram acreditando na narrativa de modernidade e sustentabilidade. Descobriram tarde demais que viraram cobaias de uma indústria desesperada para desovar produtos defeituosos.

China em desespero procura trouxas pelo mundo

A BYD não veio ao Brasil por amor à nossa indústria. Veio por desespero. A própria vice-presidente executiva da empresa, Stella Lee, admitiu publicamente que mais de 100 montadoras chinesas vão quebrar nos próximos anos.

A China produziu demais, vendeu de menos, saturou o mercado interno e explodiu a concorrência. Agora precisa inundar o mundo com seus carros para sobreviver. E onde é mais fácil entrar? Onde tem menos resistência, menos exigência, menos fiscalização e mais incentivos.

Estados Unidos e Europa subiram tarifas para carros elétricos chineses, impuseram regras rígidas e limitaram entrada. Exigem segurança, responsabilidade e reciprocidade. O Brasil fez o oposto: abriu as pernas e disse “seja bem-vinda, China”.

Não negociamos. Não questionamos. Não condicionamos. Não cobramos contrapartida real. Entregamos terreno, dinheiro público, mercado cativo e ainda fazemos propaganda gratuita. Em troca, recebemos um galpão de montagem com produtos defeituosos.

É o retrato do Brasil cada vez mais refém da China. Dependente de uma empresa que domina nosso mercado com produtos duvidosos e incentivos do nosso próprio bolso. A conta sempre chega no final – e sempre para nós.

Projeto de Estado vira teste de estresse

A greve da BYD não interrompeu apenas um canteiro de obras. Interrompeu um projeto de Estado. O governo construiu toda sua narrativa de “nova industrialização” em cima dessa planta de Camaçari. Transformou uma operação empresarial em vitrine política.

Quando um projeto nasce tão dependente de marketing político, qualquer falha operacional vira falha estratégica. É exatamente isso que está acontecendo. O que deveria ser vitrine virou teste de estresse. E pelo que vemos, o sistema não estava preparado para ser testado tão cedo.

A planta foi vendida como a nova Ford, mas tecnicamente nunca foi pensada para ser uma fábrica de alta complexidade. Nasceu com baixa integração produtiva, baixa densidade industrial e dependência total de peças importadas. Isso muda completamente o cenário.

Uma fábrica real cria raízes profundas na economia local. Desenvolve fornecedores, especializa mão de obra, gera conhecimento tecnológico e cria barreira de saída. Um galpão de montagem pode ser desmontado na mesma velocidade que foi montado.

A operação da BYD no Brasil está longe de ser a estrutura robusta que o governo propaga. É uma operação frágil, dependente, acelerada demais e agora colocada à prova pela realidade. As três fragilidades – operação, produto e narrativa – se encontraram num único ponto. O problema deixou de ser conjuntural para ser sistêmico.

O governo que some na hora da crise

Enquanto trabalhadores levavam bomba de gás e consumidores descobriam que compraram carros defeituosos, onde estava o governo Lula? Tapando os olhos e fingindo que não via nada. O silêncio oficial é ensurdecedor.

O mesmo governo que fez festa na inauguração, que prometeu empregos dignos e produtos de qualidade, some quando a conta chega. Deixa os trabalhadores na mão, os consumidores no prejuízo e ainda protege a empresa chinesa que causou toda a confusão.

É a lógica perversa do capitalismo de compadrio brasileiro. O Estado banca os riscos, as empresas ficam com os lucros. Quando dá errado, quem paga são os trabalhadores e consumidores. Os políticos lavam as mãos e partem para o próximo projeto eleitoreiro.

O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, mostrou o verdadeiro DNA petista: na hora de escolher entre trabalhadores brasileiros e interesses chineses, ficou com os chineses. Mandou a PM jogar bomba em quem deveria defender.

Essa é a “política industrial” do século XXI: entregar soberania, aceitar migalhas, fingir que é vitória e ainda agradecer pela humilhação. O Estado brasileiro virou sócio minoritário dos próprios projetos em território nacional.

As consequências para quem paga a conta

Todo esse circo tem nome e endereço: sai do seu bolso. Os R$ 5 bilhões em incentivos, as isenções fiscais, o terreno cedido, tudo vem dos impostos que você paga. A BYD lucra, a China se fortalece, e você arca com os custos.

Para os trabalhadores, sobra a humilhação de condições precárias numa empresa que recebeu bilhões públicos. Para os consumidores, sobra o risco de ter um carro defeituoso na garagem. Para o país, sobra mais dependência externa disfarçada de progresso.

A conta não para por aí. Cada recall custa caro para os donos dos carros – tempo perdido, insegurança, desvalorização do veículo. Muitos compraram parcelado e vão continuar pagando por um produto que pode pegar fogo a qualquer momento.

Enquanto isso, montadoras tradicionais que poderiam desenvolver tecnologia nacional são prejudicadas pela concorrência subsidiada. O mercado fica distorcido, a inovação local é desestimulada, e nossa capacidade industrial real regride.

É o preço da ilusão de que é possível ter almoço grátis. No final, quem paga o almoço é sempre o mesmo: você.

A BYD veio ao Brasil não para nos ajudar, mas para se salvar. Trouxe seus problemas, seus produtos defeituosos e sua mentalidade de exploração. Em troca, levou nosso dinheiro, nossa confiança e um pedaço da nossa soberania.

Se esse é o começo da “nova industrialização”, imagina o que vem pela frente. A pergunta que fica é: até quando vamos aceitar ser tratados como mercado cativo para produtos duvidosos financiados com nosso próprio dinheiro?

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