Mapa mostrando conexões de cabos submarinos entre países do BRICS para nova rede de internet independente

fevereiro 3, 2026

Ludwig M

BRICS constrói internet própria: revolução digital ou nova dependência?

BRICS quer criar sua própria internet — e isso é péssimo para a liberdade

Sob o pretexto de “soberania digital”, governos autoritários querem decidir quem pode falar, o que pode ser acessado e quem será desconectado. O Brasil não deveria ser cúmplice disso.

O BRICS aprovou em julho de 2025 um projeto que ameaça fragmentar a internet global e expandir o controle estatal sobre as comunicações de bilhões de pessoas. A 17ª Reunião de Cúpula do Rio de Janeiro aprovou um estudo de viabilidade para construção de uma rede própria de cabos submarinos de fibra óptica conectando os 11 países-membros.

“Fazer um estudo de viabilidade para o estabelecimento de cabos submarinos ligando diretamente membros do BRICS aumentará a velocidade, a segurança e a soberania na troca de dados”, afirmou o presidente Lula. O estudo será financiado pelo Novo Banco de Desenvolvimento (NDB).

Parece técnico e inofensivo. Não é.

O eufemismo da “soberania digital”

“Soberania digital” é um termo que soa bem, mas esconde uma realidade sinistra. Quando governos falam em “soberania sobre dados”, o que realmente querem dizer é: controle sobre o que seus cidadãos podem ver, dizer e compartilhar.

A internet nasceu descentralizada justamente para escapar desse tipo de poder. Nenhum governo, nenhuma corporação, nenhuma entidade central poderia decidir quem participa e quem é silenciado. O projeto BRICS caminha na direção oposta — e o Brasil está ajudando a pavimentar esse caminho.

“Nós estamos em um tempo dadocêntrico, cuja questão dos dados é decisiva para uma agenda de desenvolvimento dos países”, explicou a ministra Luciana Santos. Tradução: dados são poder, e governos querem esse poder para si.

Os números impressionantes — e por que isso importa

Não se trata de um bloco marginal. Os 11 membros permanentes do BRICS representam 39% da economia mundial, 48,5% da população do planeta e 23% do comércio global. Em 2024, países do BRICS receberam 36% das exportações brasileiras.

Se esse bloco decidir criar uma internet paralela com regras próprias de censura e vigilância, bilhões de pessoas serão afetadas. E o país que mais tem a ganhar com isso não é o Brasil — é a China.

A ameaça real: o “New IP” chinês

Por trás da proposta aparentemente “colaborativa” do BRICS existe um projeto muito mais ambicioso e aterrador. A China, através da Huawei, desenvolveu o “New IP” — um protocolo completamente novo para substituir a arquitetura atual da internet.

As implicações são assustadoras. O New IP inclui o que especialistas chamam de “kill switch” global: um comando central que permitiria desconectar qualquer usuário, qualquer site, qualquer país, com um clique. O protocolo exige funções de rastreamento para autenticar e autorizar cada endereço na rede.

É o sonho de qualquer regime autoritário transformado em arquitetura de rede. E a China quer exportar esse modelo para o mundo através do BRICS.

Pense nisso: um governo que mantém campos de concentração para uigures, que massacrou estudantes na Praça da Paz Celestial, que censura qualquer menção a Taiwan ou Tibet, que baniu o Google, Facebook, Twitter e praticamente toda plataforma onde cidadãos podem se expressar livremente — esse governo quer redesenhar a infraestrutura da internet global.

Entre dois males, escolha o menor

Críticos dirão: “Mas a internet atual é dominada pelos Estados Unidos! As big techs americanas também vigiam!” É verdade. A NSA existe. O Patriot Act existe. A vigilância americana é real e problemática.

Mas há uma diferença fundamental: nos Estados Unidos, você pode processar o governo. Existe separação de poderes, imprensa livre, habeas corpus, e uma cultura de desconfiança saudável do poder estatal. Edward Snowden expôs a NSA — e o debate público que se seguiu resultou em reformas reais. Jornalistas americanos podem criticar o presidente sem desaparecer.

Tente fazer isso na China. Tente processar o Partido Comunista Chinês. Tente publicar um artigo crítico ao Xi Jinping de dentro da China. Tente acessar informações sobre o massacre de 1989.

A internet americana não é perfeita — longe disso. Mas entre um sistema imperfeito com freios e contrapesos e um sistema desenhado desde o início para controle totalitário, a escolha deveria ser óbvia.

O projeto BRICS não oferece uma terceira via libertadora. Oferece a substituição de um sistema imperfeito por um sistema explicitamente autoritário, liderado pela maior ditadura do planeta.

Lula versus Trump: falsa dicotomia

Trump reagiu às movimentações do BRICS com ameaças tarifárias: “Qualquer país que se alinhe com as políticas anti-americanas do BRICS será cobrado uma tarifa adicional de 10%.”

Lula respondeu: “O mundo mudou. Não queremos um imperador.”

A retórica é bonita, mas esconde a realidade. Trocar a influência americana pela influência chinesa não é libertação — é trocar de patrão. E o novo patrão é objetivamente pior em todos os critérios que importam para quem valoriza liberdade individual.

Os consumidores e empresas americanas podem pagar até 56 bilhões de dólares anualmente com as tarifas. Mas o custo de uma internet fragmentada e controlada por regimes autoritários seria incalculavelmente maior — e seria pago em liberdade, não em dólares.

O Brasil como útil idiota

O Brasil tem vantagens geográficas únicas. Fortaleza concentra 14 cabos submarinos e é o segundo maior ponto de aterrissagem do mundo. A ICP-Brasil opera há 24 anos. O IX.br está entre os maiores pontos de troca de tráfego global.

Poderíamos usar essa posição para defender uma internet aberta e descentralizada. Em vez disso, o governo brasileiro está oferecendo nossa infraestrutura estratégica para um projeto liderado por China e Rússia — dois países com histórico comprovado de repressão digital.

A pergunta que ninguém faz: por que diabos o Brasil deveria ajudar a construir uma rede que dará mais poder a governos que prendem dissidentes, censuram jornalistas e monitoram cada passo de seus cidadãos?

Os riscos que ninguém quer discutir

A implementação enfrenta obstáculos técnicos monumentais, mas os riscos políticos são ainda maiores:

Divergência nos sistemas políticos: O controle estatal rígido da China contrasta com os modelos teoricamente mais abertos de Índia e Brasil. Mas quando a infraestrutura estiver pronta, quem define as regras? A experiência mostra que, em parcerias assimétricas, quem tem mais poder tecnológico dita os termos.

Captura autoritária: China e Rússia têm histórico de controle digital repressivo. “Salvaguardas contra abusos” são promessas no papel — na prática, a arquitetura permitirá o abuso, e a arquitetura é o que importa.

Dependência tecnológica: Enquanto China possui ecossistema digital robusto, o Brasil depende de tecnologia importada. A “transferência tecnológica” prometida raramente se materializa — o que se materializa é dependência de fornecedores chineses como a Huawei.

A internet deve ser livre — não “soberana”

O princípio é simples: a internet deve ser livre.

Não “soberana” — porque soberania estatal sobre comunicações significa censura. Não “segura” segundo a definição de governos — porque segurança estatal significa vigilância. Não “regulada” por blocos geopolíticos — porque regulação significa controle.

A internet que permitiu revoluções, que deu voz a dissidentes, que conectou pessoas além das fronteiras artificiais dos Estados-nação — essa internet foi possível justamente porque nenhum governo a controlava completamente.

O projeto BRICS não é sobre dar mais liberdade aos povos do Sul Global. É sobre dar mais controle aos governos do Sul Global — especialmente ao governo chinês, que terá a tecnologia e a influência para moldar essa nova rede à sua imagem.

O que o Brasil deveria fazer

Se o Brasil realmente quisesse defender a liberdade digital, o caminho seria outro:

Defender protocolos abertos e descentralizados, não redes controladas por blocos geopolíticos. Investir em criptografia forte e ferramentas que protejam cidadãos da vigilância — de qualquer governo. Resistir à pressão tanto americana quanto chinesa, mantendo a internet como espaço neutro. Apoiar iniciativas como o Tor, a criptografia de ponta a ponta, e tecnologias que empoderam indivíduos contra Estados.

Em vez disso, o governo brasileiro escolheu se alinhar com a maior ditadura do planeta para construir uma infraestrutura de controle. E chama isso de “soberania”.

Conclusão: não existe almoço grátis geopolítico

A escolha não é entre “internet americana” e “internet livre do BRICS”. A escolha é entre um sistema imperfeito mas reformável, com tradição de liberdades civis e contrapesos institucionais, e um sistema desenhado desde o início para controle estatal por regimes que não reconhecem direitos individuais.

O Brasil não deveria buscar ser “protagonista” de um sistema de controle. Não deveria trocar a influência de uma potência por outra ainda mais autoritária. Deveria defender o único princípio que realmente importa: a internet deve ser livre.

Livre de governos. Livre de blocos. Livre de “soberanias” que são apenas eufemismos para censura e vigilância.

Infelizmente, não é essa a escolha que nossos governantes estão fazendo. E quando a infraestrutura estiver pronta, será tarde demais para reclamar.


Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas. Não imputa crimes ou ilegalidades a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões políticas e seus efeitos sobre a liberdade individual, sob perspectiva editorial libertária.

Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos relevantes.

Versão: 03/02/2026 08:00

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