Usina solar com painéis desligados enquanto o sol brilha forte — energia desperdiçada no Brasil em 2025

fevereiro 9, 2026

Ludwig M

Brasil joga fora R$ 6,5 bilhões em energia limpa — e você paga a conta

O Brasil desperdiçou 20,6% de toda a energia solar e eólica que poderia ter produzido em 2025. O volume jogado fora equivale a quase dez meses de geração da usina de Belo Monte. Em dinheiro, são R$ 6,5 bilhões de prejuízo. Prejuízo que, como sempre, vai parar na conta de luz do cidadão. Enquanto políticos celebram “recordes de energia limpa” em conferências internacionais, a realidade é que o país construiu usinas sem ter onde armazenar o que elas produzem. É como construir uma fábrica sem estrada para escoar a produção.

Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.

O desperdício em números

Os dados são do relatório Curtailment 2025, da consultoria Volt Robotics. O Brasil desperdiçou 20,6% de toda a energia solar e eólica disponível ao longo de 2025, e a energia não aproveitada representou uma perda superior a R$ 6 bilhões. Segundo cálculos complementares da XP Investimentos, os cortes de geração levaram um prejuízo de R$ 6,5 bilhões aos empreendimentos no ano.

Para ter dimensão do que isso significa: a energia desperdiçada seria suficiente para abastecer 600 mil carros elétricos por um ano, manter 40 grandes data centers funcionando ou suprir o consumo mensal de 16 milhões de residências. Não é pouca coisa. É energia limpa, pronta para uso, sendo literalmente jogada no lixo.

Os cortes médios de geração atingiram 4.021 MW ao longo do ano. Em pelo menos 16 dias de 2025, o sistema operou próximo do limite técnico de segurança — um salto brutal em relação a 2024, quando apenas um evento comparável foi registrado. O sistema elétrico brasileiro não estava em risco por falta de energia. Estava em risco por excesso.

Em sistemas energéticos maduros ao redor do mundo, o curtailment costuma representar entre 1% e 3% da produção. O Brasil está em 20%. Mais de seis vezes acima do que é considerado aceitável. A China, por exemplo, chegou a registrar curtailment superior a 20%, mas após investimentos em armazenamento, esse número caiu para menos de 6% em 2023. O Brasil fez o caminho inverso: expandiu a geração sem investir na infraestrutura correspondente.

O que acontece na prática

Curtailment é o desligamento obrigatório de usinas renováveis pelo ONS (Operador Nacional do Sistema), mesmo quando há vento ou sol. Isso acontece porque o sistema elétrico precisa equilibrar geração e consumo em tempo real. Quando a rede não consegue absorver toda a energia disponível, o ONS reduz a produção.

As manhãs de domingo emergiram como o ponto de estresse mais frequente para a rede. A redução da atividade econômica nos fins de semana diminui a demanda por eletricidade, enquanto a produção solar atinge o pico e frequentemente é reforçada por forte geração eólica. Esse descompasso recorrente leva a sobrecargas na rede e cortes forçados de geração.

Imagine a cena: o sol brilha, os ventos sopram, as usinas estão prontas para gerar. Mas o ONS manda desligar tudo. O problema se intensificou entre agosto e outubro, intervalo marcado por três recordes consecutivos de cortes de geração. A combinação de oferta elevada, limitações na infraestrutura de transmissão e restrições operativas levou ao desligamento forçado de usinas, mesmo com recursos naturais abundantes.

Os cortes se concentraram principalmente no Rio Grande do Norte, Ceará e Minas Gerais, estados com forte presença de parques eólicos e solares — formando o que a Volt Robotics chamou de “triângulo do curtailment”. Algumas usinas experimentaram cortes de 30% a mais de 80% de sua capacidade potencial. É dinheiro sendo incinerado todos os dias.

A raiz do problema: planejamento central

Como isso aconteceu? A resposta é um caso clássico de intervenção estatal mal planejada. O governo brasileiro passou anos distribuindo isenções fiscais, subsídios bilionários e incentivos regulatórios para energia solar e eólica. Empurrou a expansão renovável a todo custo, sem se preocupar com um detalhe fundamental: onde armazenar o excesso.

Dos R$ 45,15 bilhões em subsídios do setor elétrico em 2024, 27,78% (R$ 12,54 bilhões) foram destinados a fontes incentivadas. Na década de 2000, o governo concedeu desconto entre 50% e 100% das tarifas de uso de transmissão e distribuição para estimular a construção de eólicas, solares, térmicas a biomassa e PCHs. O resultado foi uma explosão de capacidade instalada sem a infraestrutura correspondente para absorver tudo.

A geração distribuída — os painéis solares em telhados de casas e empresas — foi turbinada por subsídios que isentam esses consumidores de pagar pelo uso da rede elétrica. Com mais de 43 GW de capacidade instalada, a geração distribuída já rivaliza com toda a capacidade eólica e solar centralizada do país. Essa energia entra no sistema sem controle do ONS, agravando o desequilíbrio.

O professor Ivan Camargo, da Universidade de Brasília, resumiu bem o problema ao Correio Braziliense: “Não há linha de transmissão que resolva esse problema. Transmitir energia exige que exista carga do outro lado, e essa carga simplesmente não existe ao meio-dia.” Quando políticos prometem resolver tudo com mais linhas de transmissão, estão vendendo ilusão. O problema é estrutural.

Quem paga pelo desperdício?

Você, contribuinte. As geradoras que tiveram sua produção cortada continuam com contratos firmados e energia vendida. O curtailment causou perdas econômicas de R$ 6,5 bilhões em 2025. Contratos regulados sofreram perdas de receita e penalidades, enquanto geradores no mercado livre foram expostos à volatilidade de preços e tiveram que comprar eletricidade para cumprir obrigações contratuais. Esse prejuízo não evapora. Ele é repassado ao sistema e encarece a tarifa.

A Aneel aprovou o orçamento de 2025 da Conta de Desenvolvimento Energético em R$ 49,2 bilhões. Desse total, R$ 46,8 bilhões serão pagos pelos consumidores de energia elétrica, mediante encargos incluídos nas tarifas. Leia de novo: R$ 46,8 bilhões em subsídios pagos diretamente pelo cidadão na conta de luz. Isso representa um aumento de 32,4% em relação a 2024.

Segundo a ABRACE Energia, os valores correspondentes a ineficiências e subsídios equivalem a 26% do valor pago na conta de luz. Isso significa que, de cada R$ 100 pagos pelo consumidor, R$ 26 não se traduzem em benefício direto. São R$ 103,6 bilhões em custos que não trazem benefício algum ao cidadão.

E o aspecto mais perverso: os subsídios à geração distribuída beneficiam justamente quem menos precisa. Famílias de renda mais alta, que podem investir em painéis solares, recebem os descontos. R$ 5,4 bilhões da CDE-GD servem para cobrir os descontos concedidos a quem gera a própria energia com painéis solares e sistemas de minigeração. Quem não tem placa solar no telhado subsidia quem tem. É transferência de renda ao contrário.

A “solução” que não resolve

A Lei nº 15.269/2025, publicada em 24 de novembro de 2025 a partir da Medida Provisória nº 1.304/2025, promove mudanças no setor elétrico. Entre seus objetivos estão a modicidade tarifária, a modernização do marco regulatório, diretrizes para armazenamento de energia elétrica e incentivos econômicos para sistemas de baterias. Na teoria, parece bom. Na prática, os resultados só devem começar a aparecer em 2028, com alívio efetivo projetado para 2030.

Cinco anos. Enquanto isso, bilhões em energia continuam sendo jogados fora e a conta segue subindo. A lei cria o marco regulatório para armazenamento de energia, reconhecendo baterias como instrumentos de flexibilidade. A Aneel passa a regular e fiscalizar as baterias. O REIDI foi ampliado para incluir projetos de baterias. O governo pode zerar o imposto de importação sobre baterias e seus componentes.

Mas aqui entra a ironia típica do planejamento estatal: para resolver o problema criado por subsídios, o governo cria mais subsídios. Para consertar a distorção causada pela intervenção, mais intervenção. O ciclo é sempre o mesmo. E quem paga é sempre o mesmo: o cidadão comum.

Houve um veto ao dispositivo que previa o ressarcimento amplo de cortes de geração para usinas eólicas e solares, com efeitos retroativos. O governo justificou o veto para evitar um impacto estimado de R$ 6 bilhões na tarifa. Ou seja: o governo reconhece que a conta do seu próprio erro seria bilionária, e por isso vetou a compensação. As geradoras ficam com o prejuízo. E o consumidor fica com a tarifa mais cara de qualquer forma.

Os interesses em jogo

Quando o governo distribui subsídios bilionários para energia renovável, não faz isso por amor ao meio ambiente. Há interesses concretos por trás. Fabricantes de painéis solares e equipamentos eólicos — em grande parte chineses — lucram diretamente com a expansão acelerada. O lobby do setor renovável é poderoso e bem articulado em Brasília.

Há também o interesse político. Político adora inaugurar usina. Adora aparecer em conferência climática dizendo que o Brasil é “potência em energia limpa”. Ninguém menciona os 20% de desperdício. Ninguém fala dos R$ 6,5 bilhões jogados no lixo. Essa parte da história não rende foto bonita.

Segundo a própria Volt Robotics, sem uma reforma robusta, os investimentos começam a ser freados, elevam-se o risco de defaults no mercado e a tarifa cresce por causa dos subsídios. O resultado da política de subsídios é claro: insegurança jurídica para investidores, risco sistêmico para o setor elétrico e conta mais cara para o consumidor.

Enquanto isso, a mesma reforma do setor elétrico estabelece a contratação de usinas a carvão com contratos até 2040. A medida beneficia principalmente a usina de Candiota, no Rio Grande do Sul. A energia gerada por térmicas a carvão é mais cara e mais poluente. Os textos sobre carvão não constavam na medida provisória original — foram acrescentados por parlamentares em emendas posteriores, e o governo optou por mantê-los. Então o governo subsidia renováveis com uma mão e prorroga carvão com a outra. A coerência nunca foi o forte do planejamento central.

A lição que ninguém quer ouvir

Se o mercado de energia fosse genuinamente livre, os investidores avaliariam não apenas o custo de gerar energia, mas também a viabilidade de armazená-la e transmiti-la. Sem subsídios artificiais, ninguém construiria usinas sabendo que 20% da produção seria jogada no lixo. O próprio sistema de preços sinalizaria onde investir e onde não investir.

Mas no Brasil, o sinal de preço foi substituído por decreto. O planejamento de mercado foi substituído por planilha de burocrata. O curtailment se tornou, nas palavras da Volt Robotics, “uma característica recorrente, e não um evento isolado”, evidenciando limitações estruturais de um sistema originalmente projetado para escassez e não para excesso de geração renovável.

Quando burocratas decidem quais tecnologias devem receber subsídios, quando reguladores definem metas de capacidade instalada sem considerar a infraestrutura de armazenamento e transmissão, quando políticos distribuem isenções fiscais para parecerem “verdes” nas conferências climáticas, o resultado é previsível: distorção, desperdício e conta mais cara para quem menos tem.

O governo Lula, fiel ao seu histórico de expansão do Estado, não é exceção. É a continuação de um padrão que vem de governos anteriores, mas que se agrava com o aumento dos subsídios. Em relação a 2024, houve aumento de 32,4% nas despesas do orçamento da CDE. O subsídio do sistema de compensação da geração distribuída subiu 118%. Mais subsídio, mais distorção, mais conta para o cidadão pagar. Para ser justo: a construção desse castelo de cartas não começou em janeiro de 2023. Governos anteriores — incluindo o de Bolsonaro — também distribuíram isenções e incentivos ao setor. A diferença é de grau, não de natureza. Mas os números não mentem: a escalada dos subsídios se acelerou, e é sob a gestão atual que o sistema chegou ao ponto de ruptura.

O paradoxo que resume o Brasil

O Brasil enfrenta risco de apagão por excesso de energia. Não por falta. Por excesso. Como alertou o diretor-geral da Volt Robotics ao Correio Braziliense: “Existe, sim, o risco de apagão por excesso de energia. Se toda a geração renovável centralizada for cortada e, ainda assim, houver sobra, principalmente da geração distribuída, o sistema pode entrar em colapso.”

Esse paradoxo é a síntese perfeita do que acontece quando o Estado tenta ser mais inteligente que o mercado. Gasta bilhões para criar capacidade de geração e esquece de criar capacidade de armazenamento. Subsidia a oferta sem se preocupar com a demanda. Celebra recordes de instalação enquanto esconde recordes de desperdício.

O excesso diurno convive com a escassez noturna. À noite, quando a energia solar deixa de contribuir, o sistema precisa recorrer a usinas termelétricas, fontes mais caras e mais poluentes. Ou seja: de dia, joga-se fora energia limpa e barata. De noite, liga-se energia suja e cara. O consumidor paga pelas duas.

Da próxima vez que você ouvir um político celebrando “recordes de energia renovável”, faça a pergunta que ele não quer responder: e os R$ 6,5 bilhões jogados no lixo? E os 20% de desperdício? E os R$ 46,8 bilhões em subsídios na conta de luz? Quanto da sua liberdade econômica foi sacrificada para bancar essa vitrine política?

A única energia que o Estado deveria gerar é a coragem de sair do caminho e deixar o mercado funcionar.

Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.

Versão: 09/02/2026 08:40

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