dezembro 29, 2025

Ludwig M

Assessor de Lula recebeu cinco vezes ‘Careca do INSS’ no Ministério

Assessor de Lula recebeu cinco vezes ‘Careca do INSS’ no Ministério

As investigações sobre o escândalo do INSS revelam novas conexões entre o governo federal e o lobby de Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como ‘Careca do INSS’. Uma mensagem interceptada pela Polícia Federal mostra que Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo do Ministério da Saúde e atual chefe do Gabinete Adjunto de Gestão Interna do gabinete pessoal do presidente Lula, recebeu o lobista pelo menos cinco vezes ao longo dos últimos dois anos. A primeira reunião aconteceu em março de 2024 e a última em fevereiro de 2025.

Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em debates públicos e fontes abertas. Não afirma como fatos comprovados condutas ilegais ou ilícitas. Seu objetivo é promover reflexão crítica sobre temas de interesse público.

A mensagem que levanta suspeitas sobre orientações

Em novembro de 2024, uma mensagem específica chamou atenção dos investigadores. Em 6 de novembro de 2024, o Careca do INSS encaminhou uma mensagem a um contato afirmando que “Berger já está com aquela orientação em mãos”. Berger é o apelido de Swedenberger Barbosa, que ocupava posição estratégica no segundo escalão do Ministério da Saúde.

A mensagem sugere que havia algum tipo de direcionamento ou orientação específica sendo transmitida ao então secretário-executivo. Isso aconteceu justamente no período em que o lobista tentava viabilizar contratos de medicamentos à base de canabidiol para o Sistema Único de Saúde, sem processo licitatório.

Registros de portaria do Ministério da Saúde mostram ainda que o lobista e Roberta Luchsinger estiveram juntos na sede da pasta para falar sobre cannabis com Berger. A dupla representava empresas ligadas ao ramo de produtos medicinais derivados da cannabis.

O fato de um lobista ter acesso privilegiado ao número dois de um ministério por cinco ocasiões diferentes não é comum na administração pública. Esse tipo de encontro geralmente depende de intermediação política ou influência significativa nos bastidores do poder.

A defesa oficial e suas limitações

Em nota, a Secretaria de Comunicação da Presidência informou que Swedenberger Barbosa recebeu representantes das empresas World Cann e Duosistem para visita institucional devidamente registrada em sua agenda pública. A agenda ocorreu em conformidade com as atribuições da sua função à época, sem que tenha havido qualquer tipo de “orientação” para a sua realização.

A versão oficial tenta minimizar o episódio, mas deixa questões importantes sem resposta. Por que um lobista investigado por fraudes no INSS conseguiu acesso repetido ao alto escalão do Ministério da Saúde? Quem facilitou esses encontros?

Como não houve interesse do ministério em adquirir qualquer produto ou serviço dessas empresas, o encontro não teve nenhum desdobramento. A pasta destacou que o canabidiol não está incorporado ao SUS e que não há nenhum processo ativo para sua inclusão ou compra.

O argumento de que “não aconteceu nada” não elimina a questão central: por que havia expectativa de que algo aconteceria? E mais importante: quem criou essa expectativa e facilitou o acesso do lobista?

A conexão com Lulinha e o esquema de influência

O nome que não aparece explicitamente nos registros oficiais, mas permeia toda a investigação, é o de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Os registros indicam o envolvimento da empresária Roberta Luchsinger, próxima de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do atual Presidente da República.

Roberta Luchsinger não é uma pessoa qualquer. Ela tem histórico de proximidade com a família presidencial e já demonstrou apoio político ao ex-presidente Lula em momentos críticos. Neta do falecido ex-banqueiro suíço Peter Paul Luchsinger, Roberta ganhou visibilidade ao prometer uma doação de R$ 500 mil ao presidente Lula quando ele foi alvo de bloqueio bancário na Operação Lava Jato.

A investigação da Polícia Federal mostra que ela recebeu R$ 1,5 milhão do Careca do INSS. Em um dos repasses, o lobista indicou que o dinheiro teria como destinatário “o filho do rapaz”, possivelmente se referindo a Lulinha. Esse é um indício forte de que havia uma rede de influência operando para facilitar negócios com o governo federal.

O acesso privilegiado de um lobista investigado ao segundo escalão de um ministério não acontece por acaso. Alguém abriu essas portas. Alguém facilitou esses encontros. E os indícios apontam para conexões familiares no mais alto nível do governo.

O timing suspeito com a troca de comando no ministério

Um aspecto particularmente revelador é como o Careca do INSS demonstrava conhecimento interno sobre mudanças no governo antes que elas fossem oficializadas. O lobista Antonio Carlos Camilo Antunes sabia desde janeiro de 2025 que Alexandre Padilha assumiria o Ministério da Saúde – o que só veio a acontecer cerca de um mês depois. Em mensagem enviada no WhatsApp, o empresário informa sobre a mudança no comando da pasta e acrescenta: “Nossos projetos foram assumidos pelo novo ministro.. Ficou melhor”.

Essa informação privilegiada revela o nível de acesso que o lobista tinha aos bastidores do poder. Não se trata de especulação política comum, mas de conhecimento específico sobre decisões governamentais ainda não anunciadas.

A troca de Nísia Trindade por Alexandre Padilha no comando do Ministério da Saúde foi vista pelo lobista como uma oportunidade melhor para seus negócios. “Nossos projetos foram assumidos pelo novo ministro”, escreveu. “Ficou melhor”.

Isso sugere que havia uma avaliação estratégica sobre qual perfil de ministro seria mais favorável aos interesses do grupo. Técnicos são mais rigorosos com procedimentos. Políticos são mais sensíveis a influências e pressões.

O mercado de acesso privilegiado em Brasília

O caso expõe como funciona o mercado de influência na capital federal. Não basta ter um bom produto ou uma proposta técnica sólida. É preciso ter acesso aos tomadores de decisão. E esse acesso tem preço.

Por meio de sua empresa World Cannabis, o Careca do INSS tentou fechar um acordo com o Ministério da Saúde para entregar produtos à base de cannabis medicinal. A estratégia não era competir em licitações públicas, mas conseguir contratos diretos através de influência política.

O modelo de negócio é simples: investe-se em relacionamentos políticos para obter acesso privilegiado. Com o acesso, negocia-se contratos sem concorrência. Com os contratos, recupera-se o investimento inicial e obtém-se lucro.

É um sistema que funciona às custas do contribuinte e da eficiência do serviço público. Quando empresas conseguem contratos sem licitação, o preço final é sempre maior. E quem paga a conta é sempre o mesmo: o cidadão que financia o Estado através de impostos.

O lobby é uma atividade legítima nas democracias, mas deve ser transparente e seguir regras claras. O que se vê neste caso são indícios de um sistema de influência opaco, baseado em relacionamentos familiares e pagamentos duvidosos.

A tentativa de destruir evidências

Quando o escândalo do INSS começou a vir à tona, houve movimentação para eliminar rastros. Em abril, Luchsinger enviou mensagens ao lobista pedido que ele emitisse um comunicado para se desvincular da empresa DuoSystem. Além disso, sugeriu que ele destruísse seu celular.

A tentativa de destruir evidências é um indício clássico de consciência de irregularidade. Se tudo estava dentro da legalidade, por que haveria necessidade de apagar rastros?

Felizmente para a investigação, a Polícia Federal conseguiu acessar os dispositivos antes que fossem destruídos. As mensagens recuperadas revelam não apenas este caso específico, mas toda uma rede de relacionamentos e transações suspeitas.

A transparência é a melhor defesa da democracia contra a corrupção. Quando agentes públicos e privados tentam esconder suas comunicações e negociações, é sinal de que algo não está certo.

As consequências para o cidadão comum

Enquanto lobistas negociam acesso privilegiado nos corredores do poder, o cidadão comum enfrenta filas intermináveis no SUS. A diferença de tratamento é gritante: empresários com conexões políticas conseguem audiências com secretários-executivos, mas pacientes que precisam de medicamentos enfrentam burocracias intermináveis.

O Sistema Único de Saúde, que deveria priorizar critérios técnicos e necessidades da população, acaba sendo influenciado por lobbies e interesses privados. Isso compromete tanto a qualidade quanto a eficiência dos serviços prestados.

Cada real desviado através de esquemas de influência é um real que deixa de ser investido em hospitais, medicamentos ou equipamentos médicos. O custo da corrupção não é apenas financeiro, é também humano.

O caso também revela como filhos de políticos podem ser usados como pontes para negócios escusos. Lulinha não ocupa cargo público, mas sua proximidade com o poder federal o transforma em uma peça valiosa no tabuleiro da influência política.

A reforma necessária no sistema

Este escândalo expõe a necessidade urgente de reformas no sistema de lobby brasileiro. É preciso criar regras claras sobre como empresas podem se relacionar com o governo. Transparência deve ser obrigatória, não opcional.

Todas as reuniões entre empresários e autoridades públicas deveriam ser registradas e tornadas públicas. Os temas discutidos, os participantes e os desdobramentos precisam estar disponíveis para consulta cidadã.

Além disso, é fundamental criar mecanismos de controle sobre familiares de autoridades públicas. Quando parentes próximos de governantes se envolvem em negócios que dependem de decisões governamentais, há conflito de interesse evidente.

O livre mercado funciona melhor quando há competição justa. Empresas que conseguem vantagens através de conexões políticas distorcem a concorrência e prejudicam tanto consumidores quanto competidores honestos.

O silêncio ensurdecedor da mídia mainstream

É notável como casos envolvendo o governo atual recebem tratamento diferenciado de parte da grande mídia. O escândalo do INSS, que envolve bilhões de reais e conexões diretas com a família presidencial, não ganha a mesma repercussão que outros casos políticos.

A cobertura parcial da mídia compromete o direito do cidadão à informação. Quando veículos de comunicação escolhem quais escândalos merecem destaque com base em critérios ideológicos, a democracia sai prejudicada.

A imprensa independente desempenha papel crucial ao investigar e divulgar casos que a mídia tradicional prefere ignorar. A pluralidade de fontes de informação é essencial para manter os cidadãos informados sobre os atos de seus governantes.

Informação é poder. E quando esse poder é monopolizado por grupos alinhados politicamente, a sociedade perde sua capacidade de fiscalização democrática.

O escândalo envolvendo o Careca do INSS e sua rede de influência no Ministério da Saúde é apenas a ponta do iceberg. Há indícios de um sistema mais amplo de favorecimentos e trocas de favores que precisa ser investigado até as últimas consequências.

A justiça precisa agir com rigor para punir todos os envolvidos em esquemas de corrupção, independentemente de suas conexões políticas. A lei deve ser igual para todos, sem privilégios baseados em sobrenomes ou relacionamentos familiares.

Diante de tantos indícios de irregularidades e uso da máquina pública para fins privados, uma pergunta permanece: quantos outros casos similares existem nos bastidores do poder e quando a sociedade terá acesso à verdade completa sobre o uso de sua influência política para beneficiar interesses privados?

Fontes

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