Contratos milionários de até R$ 2 milhões foram oferecidos a influenciadores para questionar o Banco Central e defender o Banco Master, mas quem denunciou o esquema foram influenciadores de direita que recusaram as propostas. Nem todos os influenciadores que criticaram o BC aceitaram propostas pagas, sendo que vários comentários foram espontâneos.
Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens amplamente divulgadas (com links para as fontes). Não afirma como fatos comprovados a prática de crimes ou ilícitos, nem substitui decisões judiciais. Seu objetivo é promover reflexão crítica sob uma perspectiva editorial libertária.
O esquema que gerou questionamentos onde a credibilidade já tinha preço
A operação foi batizada de “Projeto DV”, iniciais de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Os valores dos contratos variavam conforme o número de seguidores, chegando a R$ 2 milhões por três meses para influenciadores com mais de 1 milhão de seguidores. O acordo previa sigilo absoluto para criar aparência de movimento espontâneo nas redes sociais.
Aqui está o dado mais revelador: o esquema funcionou exatamente onde deveria funcionar. Nos perfis que já trabalham como extensão da grande mídia, onde vender narrativa é profissão há décadas. A Febraban identificou volume atípico de postagens sobre o caso no fim de dezembro, com ataques coordenados às instituições ligadas ao processo. Um dos conteúdos que mais viralizou partiu da própria Alfinetei, com montagem irônica sobre a rapidez da liquidação do banco.
Enquanto isso, do outro lado da trincheira, os influenciadores de direita Rony Gabriel e Juliana Moreira Leite revelaram ter recebido propostas e decidiram expor o esquema. O deputado estadual Leo Siqueira também recusou a proposta e cortou contato ao perceber que se tratava de blindagem ao Vorcaro.
A diferença? Cristalina. Onde há independência editorial verdadeira, o dinheiro não compra silêncio. Onde a lógica sempre foi puramente comercial, qualquer narrativa serve – desde que o cheque não volte. A contratação partia da Agência Mithi, comandada por Thiago Miranda, ex-CEO do Grupo Leo Dias.
Os números que mostram o tamanho da feira de narrativas
Um influenciador com mais de 1 milhão de seguidores recebeu proposta de R$ 2 milhões por três meses, com obrigação de fazer oito postagens mensais. Outro, com menos de 500 mil seguidores, foi sondado por R$ 250 mil no mesmo período. Em um dos casos, o pagamento foi feito antes mesmo da primeira postagem.
Pelo menos 46 perfis participaram de movimento coordenado de publicações críticas ao Banco Central. O movimento ocorreu entre o final de dezembro de 2025 e início de janeiro de 2026, incluindo diversos influenciadores e perfis de direita com milhões de seguidores.
Mas eis o detalhe que a mídia tradicional prefere omitir: os relatos de ofertas a influenciadores de direita só vieram à tona porque eles próprios denunciaram. Não foi investigação jornalística heroica que descobriu. Foi honestidade básica de quem recusou o dinheiro sujo.
Miranda efetuou pagamentos diretamente de sua conta pessoal, sendo que o empresário Flávio Carneiro aparece como sócio majoritário do grupo, controlando 60% do capital. No mercado financeiro, Carneiro é amplamente identificado como operador de Vorcaro.
A rede de influência que levanta questionamentos
Segundo reportagem de novembro de 2025, Vorcaro vinha montando um projeto de expansão de influência na mídia nacional, investindo em participações no Brazil Journal, IstoÉ, IstoÉ Dinheiro, PlatôBR e site de Léo Dias. Analistas interpretam essa estratégia como tentativa de criar um ecossistema midiático capaz de sustentar seus interesses econômicos e políticos.
Essa estratégia não é novidade, meu caro leitor. É exatamente assim que funciona a mídia tradicional há gerações: quem paga escolhe a música que toca. O histórico de Flávio Carneiro inclui ligação com Aécio Neves e citação na operação “E o Vento Levou”, que investigou desvios da Cemig, com recursos desviados lavados através de empresas de fachada.
E agora? Agora querem usar esse caso para justificar regulamentação das redes sociais. A Polícia Federal abriu inquérito para verificar se houve pagamento, coordenação e eventual prática de crimes relacionados à disseminação organizada desse tipo de conteúdo.
Regulamentação para quê, exatamente? Para proteger quem? Os mesmos veículos que sempre venderam espaço editorial disfarçado de jornalismo agora querem ser os guardiões da verdade nas redes. É a velha tática: criar o problema, amplificar o pânico e depois se apresentar como solução única.
Como os perfis de fofoca viraram linha de frente
A articulação começou em 19 de dezembro, um dia depois que o Metrópoles informou que o TCU havia identificado supostos “indícios de precipitação” na atuação do BC. Vídeos já publicados por alguns influenciadores foram encaminhados pelo agenciador a novos contratados como exemplo, incluindo Paulo Cardoso, Marcelo Rennó, André Dias e Carol Dias.
A estratégia era simples como roubar doce de criança: usar perfis de entretenimento e fofoca para parecer movimento orgânico. Perfis ligados a páginas de entretenimento e humor também publicaram conteúdos relacionados ao caso. Aliás, é a mesma tática usada pelo PT há anos: espalhar narrativa política através de conteúdo aparentemente neutro.
O mais revelador de tudo: Entre os exemplos estava vídeo de Paulo Cardoso, que disse “Quando um órgão como o TCU entra no caso, é porque tem coisa muito errada” e “Quando um banco cresce rápido demais, ele tira cliente, tira espaço, tira lucro de muita gente grande”.
A Polícia Federal vai investigar – mas vai investigar todos mesmo?
A Polícia Federal decidiu aprofundar apurações sobre possível ofensiva articulada contra o Banco Central, abrindo inquérito para investigar se influenciadores foram remunerados para publicar conteúdos críticos ao BC. Caso sejam identificadas irregularidades, a PF poderá instaurar inquérito policial formal.
A ofensiva digital passou a atingir o presidente do BC Gabriel Galípolo, seus familiares, o diretor de Fiscalização Aílton de Aquino Santos, além de representantes do sistema financeiro. Segundo informações divulgadas, a ofensiva se concentrou em período de 36 horas utilizando contas conhecidas por promover celebridades.
Aqui fica a pergunta que não quer calar: vão investigar só quem denunciou ou também quem realmente recebeu e ficou quietinho? A defesa do Banco Master afirmou não ter conhecimento sobre contratação de influenciadores para atacar o Banco Central. Claro que não conhece. Quando você paga para alguém ficar quieto, a pessoa fica quieta mesmo.
Daniel Vorcaro foi intimado a depor no dia 27 de janeiro, no âmbito das investigações sobre tentativa de venda da instituição ao BRB, com outros ex-executivos também convocados. Entre os próximos passos estão novos depoimentos após acareação no STF entre Vorcaro e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB.
O jogo da regulamentação que se aproxima perigosamente
Agora vem a parte mais perigosa de toda essa novela. O caso está sendo usado – pasmem! – para justificar maior controle sobre as redes sociais. A narrativa é sempre a mesma música de ninar: “precisamos proteger as instituições da desinformação”.
Mas proteger de quem, afinal? Dos únicos que tiveram coragem de recusar dinheiro sujo e denunciar o esquema? O objetivo da operação era colocar em xeque a atuação do regulador, amplificar críticas com base em conteúdos que ecoariam posição do TCU e alimentar ambiente de desgaste institucional.
O problema não são as redes sociais, meu amigo. O problema é um sistema podre em que instituições podem ser compradas, narrativas podem ser moldadas com dinheiro, e quem denuncia vira suspeito. Plataformas como Instagram, YouTube e X determinam que conteúdos pagos devem ser identificados como publicidade, e a ocultação pode resultar em sanções.
As regras já existem, pelo amor de Deus. O que falta é aplicá-las onde realmente importa: na mídia tradicional que vende espaço editorial disfarçado de jornalismo há décadas. Querer regular as redes sociais por causa desse caso é como proibir facas porque alguém foi esfaqueado.
A verdadeira regulamentação deveria começar pelos veículos que sempre fizeram isso e nunca foram questionados. Mas aí mexe com quem realmente tem poder para criar e derrubar narrativas quando bem entende.
O contrato previa multa de R$ 800 mil por divulgação das informações e classificava como confidenciais as “estratégias de comunicação, narrativas, reputação, posicionamento e influência”. Ou seja: pagavam pelo silêncio, não pela opinião.
A lição que ninguém quer aprender
Este caso revela algo fundamental sobre informação e poder no Brasil. Existe um ecossistema consolidado de compra e venda de narrativas que funciona há gerações através da mídia tradicional. Quando esse mesmo sistema tentou se expandir para as redes sociais, encontrou resistência onde não esperava encontrar.
Rony Gabriel recusou a participação ao tomar conhecimento do teor da proposta, publicou vídeo relatando a abordagem e encaminhou documentos à imprensa. Essa é a diferença entre quem vende audiência e quem constrói credibilidade no longo prazo.
O mercado de influência digital ainda tem espaço para independência justamente porque não está totalmente capturado pelas mesmas estruturas que controlam a mídia tradicional. Por isso a urgência desesperada em regulamentar: é preciso fechar essa janela de liberdade antes que mais gente perceba como o jogo realmente funciona.
A revelação trouxe à tona complexa rede de relações empresariais, midiáticas e políticas que converge em torno de Flávio Carneiro, operador conhecido de Vorcaro e personagem ligado a Aécio Neves. Essa rede não nasceu ontem, meu caro. Ela sempre existiu, sempre funcionou, sempre comprou silêncios e narrativas.
A diferença é que agora encontrou gente que prefere a própria reputação ao dinheiro fácil. E isso incomoda profundamente quem sempre lucrou vendendo a versão mais conveniente dos fatos.
Esta história não é sobre milícias digitais ou desinformação. É sobre um sistema de poder que não aceita ser questionado e usa qualquer pretexto para manter seu monopólio sagrado sobre a narrativa pública. Quando a compra não funciona, vem a regulamentação. É sempre assim que funciona.
A pergunta que fica no ar é simples: até quando vamos aceitar que quem denuncia a corrupção vire suspeito, enquanto quem sempre lucrou com ela se apresenta como vítima inocente?



