Yuval Harari vendeu mais de 25 milhões de cópias pelo mundo. Conquistou elogios de Bill Gates, Mark Zuckerberg e, segundo reportagem do Poder360, encontrou tempo para um café com o ex-ministro Luís Roberto Barroso. Mas há um problema central na filosofia do historiador israelense: conforme análise da Gazeta do Povo, Harari afirma que os direitos naturais são fictícios. Uma ficção conveniente, mas ainda assim uma ficção.
Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens amplamente divulgadas (com links para as fontes). Não afirma como fatos comprovados a prática de crimes ou ilícitos, nem substitui decisões judiciais. Seu objetivo é promover reflexão crítica sob uma perspectiva editorial libertária.
O problema do materialismo mal aplicado
O historiador israelense construiu sua teoria sobre uma premissa clara: segundo análise publicada na Gazeta do Povo, o materialismo evolucionista. Ou seja: a premissa de que não existe Deus, e o processo de seleção natural é a única forma de compreender o mundo. Até aqui, muitos libertários até concordariam. A evolução natural explica muito sobre como as sociedades se organizam e desenvolvem.
O equívoco surge quando, conforme reportado pela Gazeta do Povo, Harari afirma que muitas coisas que os seres humanos acreditam ser reais na verdade são fruto da imaginação coletiva. Entre eles, países, o dinheiro e — aqui entra a parte mais controversa — os direitos naturais. Países e dinheiro são mesmo construções humanas. Mas colocar direitos naturais na mesma categoria? Isso é um erro filosófico grave, na perspectiva libertária.
Segundo críticos de sua obra, Harari comete o equívoco de tratar conceitos fundamentalmente diferentes como se fossem equivalentes. Países são linhas arbitrárias no mapa. Dinheiro é convenção social útil. Direitos naturais, por outro lado, podem ser derivados logicamente da própria condição humana.
A confusão fica gritante quando o autor escreve: conforme seu próprio site oficial, “Sim, o dinheiro é uma história fictícia, as corporações são ficções, assim como as nações, os deuses e as leis do futebol”. Tudo bem — mas pular daí para direitos fundamentais? Aí levanta questionamentos entre filósofos libertários.
A resposta libertária: ética argumentativa
Existe uma solução elegante para esse problema que Harari aparentemente não conhece ou ignora. Segundo análise do Instituto Rothbard, Hans-Hermann Hoppe desenvolveu sua provocativa defesa “ética-argumentativa” dos direitos libertários. O clássico argumento de direitos naturais, segundo Hoppe, era incompleto. Mas isso não significa abandonar a ideia de direitos naturais — significa aperfeiçoá-la.
A ética argumentativa demonstra algo poderoso: conforme explicação da Universidade Libertária, para que participar da argumentação seja possível a pessoa deve ter direito de controle exclusivo de seu próprio corpo. Simples assim. No momento em que você entra em um debate, já está pressupondo que possui determinados direitos fundamentais. Negar esses direitos seria cair em contradição performativa.
E aqui está o conceito revolucionário: você não pode argumentar contra a propriedade do próprio corpo sem usar o próprio corpo para argumentar. É logicamente impossível. Segundo estudo acadêmico publicado no IFSul, ao participar de uma argumentação, e estar disposto a ouvir o outro e ser convencido ou não por ele, explicitamos que temos o controle exclusivo do nosso próprio corpo e também que o outro argumentador tem o direito de controle exclusivo do corpo dele.
Isso deriva logicamente em três direitos naturais fundamentais: direito à vida, direito à propriedade privada e direito à liberdade de expressão. Não por decreto divino ou convenção social, mas por necessidade lógica da própria interação humana racional.
Por que Harari erra ao descartar o livre arbítrio
O problema mais grave da filosofia de Harari não está apenas na negação dos direitos naturais. Está na consequência lógica dessa negação: a destruição do conceito de livre arbítrio. Em seu próprio site, Harari admite: “O sofrimento é a coisa mais real do mundo” — mas ele não consegue explicar de onde vem a responsabilidade por esse sofrimento.
E aí fica o paradoxo: se não temos livre arbítrio, por que diabos escrever livros para convencer pessoas? Se somos apenas máquinas biológicas reagindo a estímulos, que sentido faz o ato de argumentar? Harari escreve como se suas ideias fossem verdadeiras e como se os leitores pudessem escolher aceitá-las. Mas isso pressupõe exatamente aquilo que ele nega: o livre arbítrio.
A perspectiva libertária reconhece que o livre arbítrio não precisa de fundamentação religiosa. Ele é simplesmente o pressuposto necessário para qualquer sociedade humana funcionar. Sem ele, não existiria responsabilidade, moral, direito ou mesmo ciência. Seria o fim da própria humanidade como a conhecemos.
Como observam críticos de suas ideias, segundo análise da Gazeta do Povo, a filosofia de Harari não tem espaço para uma moralidade real. Apenas a imaginária, que na visão do autor não passa de uma ficção conveniente. É filosofia para quem gosta de se sentir intelectualmente superior, mas não resolve problemas práticos.
A elite global e o perigo das ideias úteis
Há algo preocupante no fato de figuras como Gates, Schwab e Barroso levarem as ideias de Harari a sério, conforme reportado pela Gazeta do Povo. Não necessariamente porque sejam pessoas más, mas porque representam concentrações de poder que se beneficiam quando os cidadãos acreditam que seus direitos são apenas convenções sociais.
O próprio Harari revela esta dinâmica quando escreve sobre animais não terem direitos naturais, segundo cita a Gazeta do Povo: “Mas não conte isso aos nossos servos, para que eles não nos matem durante a noite”. Essa frase é brutalmente reveladora. Ela expõe uma mentalidade elitista que vê a massa como “servos” que devem ser mantidos na ignorância.
Para libertários, esta é uma das ideias mais perigosas imagináveis. Se direitos são apenas ficções úteis, então qualquer autoridade pode alterá-los ou suprimi-los conforme a conveniência do momento. Se não existe diferença moral entre humanos e animais, então tratar pessoas como gado torna-se perfeitamente aceitável.
A história mostra repetidamente que quando sociedades abandonam a crença em direitos naturais, abrem caminho para tiranias. Os regimes mais sanguinários do século XX compartilhavam exatamente esta característica: negavam a existência de direitos inerentes ao ser humano.
O problema não está em Harari ser ateu ou materialista. O problema está em usar essas posições para justificar a inexistência de limites morais ao poder. Uma coisa é não acreditar em Deus — outra bem diferente é acreditar que isso justifica qualquer coisa.
Evolução social sim, relativismo moral não
Existe mérito na parte da teoria de Harari sobre evolução social. Sociedades realmente evoluem. Os melhores sistemas tendem a prevalecer. Países com leis mais justas prosperam mais que aqueles com leis arbitrárias. Isso é observável e verificável.
O erro está em aplicar esse conceito aos direitos fundamentais. Direitos naturais não “evoluem” porque são derivados da própria natureza da ação humana. São o pré-requisito para que qualquer evolução social possa ocorrer de forma pacífica e produtiva.
Uma sociedade pode ter diferentes arranjos contratuais, diferentes formas de organização econômica, diferentes tradições culturais. Mas se não respeitar os direitos básicos à vida, propriedade e liberdade, não conseguirá manter cooperação voluntária em larga escala.
É por isso que sistemas baseados na violação sistemática desses direitos — como socialismo, fascismo ou qualquer forma de autoritarismo — tendem ao colapso. Não por acaso histórico, mas por necessidade lógica. Como observa estudo acadêmico, a espoliação praticada pelo Estado é antiética e imoral, porque atenta contra os direitos naturais do ser humano e não pode ser justificada logicamente.
A própria capacidade humana de cooperação em larga escala — que Harari corretamente identifica como nossa vantagem evolutiva — depende da existência de regras morais universais. Sem elas, a “imaginação coletiva” se torna apenas manipulação e propaganda.
O caminho para uma sociedade livre
Reconhecer a existência de direitos naturais não é nostálgico nem religioso. É prático e racional. Segundo análise do Instituto Mises Portugal, Hans-Hermann Hoppe descobriu e desenvolveu um sistema de direitos que se baseia no fato dos seres humanos agirem, dos seres humanos terem uma mente que é análoga à sua realidade circundante. É ciência aplicada à ética.
Isso não impede a evolução social — pelo contrário, acelera ela. Quando pessoas sabem que seus direitos são respeitados, ficam livres para experimentar, inovar e cooperar. A diversidade surge naturalmente quando há liberdade genuína. A uniformização surge quando há coerção.
Uma sociedade baseada em direitos naturais permite que diferentes comunidades organizem-se conforme suas preferências. Comunidades conservadoras, progressistas, religiosas ou seculares podem coexistir pacificamente. O que não podem é impor suas regras umas às outras pela força.
Este é o ponto que Harari não compreende: conforme ensina o Instituto Rothbard, direitos naturais são a condição de possibilidade para a coexistência pacífica de todas as ideologias. Qualquer grupo de pessoas livres pode decidir se organizar da forma que quiser, desde que respeitem os direitos fundamentais dos outros.
A verdadeira evolução social não acontece pela imposição de uma visão única sobre outras, mas pela competição livre entre diferentes formas de organização. As melhores ideias vencem não pela força, mas pela persuasão e pelos resultados práticos.
A informação como antídoto ao poder
Há uma ironia deliciosa no sucesso de Harari. Seus livros só existem porque vivemos em uma sociedade que reconhece direitos autorais — uma forma de propriedade privada. Ele ganha dinheiro vendendo ideias — reconhecendo implicitamente que ideias têm valor e podem ser possuídas. Viaja pelo mundo argumentando — pressupondo que as pessoas têm capacidade de escolher e mudar de opinião.
Em outras palavras, toda sua carreira intelectual depende da existência daquilo que ele nega: direitos naturais. Esta contradição não é acidental. É sistemática em todos que atacam os fundamentos da liberdade individual.
A melhor resposta a essas ideias não é censura ou proibição. É mais informação, mais debate, mais argumentação. É mostrar onde estão os erros lógicos e as contradições práticas. É demonstrar que sociedades livres funcionam melhor que sociedades coercitivas.
O perigo real não está em Harari ter essas ideias. Está em pessoas poderosas usarem essas ideias para justificar a supressão dos direitos de outros. Quando políticos, empresários ou intelectuais começam a falar que direitos são apenas convenções sociais, é hora de prestar atenção. Muito atenção.
A história nos ensina que liberdade não é o estado natural das sociedades humanas. É uma conquista rara e preciosa que precisa ser constantemente defendida. E a primeira linha de defesa é intelectual: manter viva a compreensão de que alguns direitos são inegociáveis.
Yuval Harari escreveu livros importantes e trouxe insights valiosos sobre evolução social e cooperação humana. Mas errou dramaticamente ao tratar direitos naturais como ficção. Este erro não é apenas acadêmico — tem consequências práticas perigosas para qualquer pessoa que valoriza sua liberdade individual.
A boa notícia é que a verdade tem força própria. Ideias corretas tendem a prevalecer no longo prazo, especialmente quando enfrentam o teste da realidade. E a realidade é clara: sociedades que respeitam direitos individuais prosperam, enquanto aquelas que os violam estagnam e declinam.
Diante disso, uma pergunta fica para reflexão: se até mesmo pensadores brilhantes como Harari podem errar tão gravemente sobre fundamentos da liberdade, que responsabilidade cada um de nós tem de estudar e compreender esses princípios por conta própria?
Fontes e Referências
- Gazeta do Povo – Análise crítica das ideias de Harari
- Site oficial de Yuval Harari – FAQ
- Instituto Rothbard – Ética Argumentativa de Hoppe
- Universidade Libertária – Ética Argumentativa
- Instituto Mises Portugal – Conceito de Ética Argumentativa
- Poder360 – Encontro Barroso e Harari
- Estudo acadêmico sobre Ética Argumentativa – IFSul



