O Brasil desperdiçou 20,6% de toda a energia solar e eólica disponível em 2025. São R$ 6,5 bilhões em prejuízo. O volume jogado fora equivale a quase dez meses de geração da usina de Belo Monte. E a conta, como sempre, vai parar na tarifa de luz que o cidadão paga todo mês.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
O tamanho do desperdício
Os números são do relatório Curtailment 2025, da consultoria Volt Robotics, e foram compilados pela Folha de S. Paulo. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) foi obrigado a cortar a geração de usinas solares e eólicas em centenas de dias ao longo de 2025. A razão é absurda: havia mais energia sendo produzida do que o sistema conseguia consumir ou transmitir.
Aos domingos, quando comércio e indústria param, os cortes explodiram. A média de energia cortada chegou a 5.135 MW nos domingos, contra 1.040 MW nas segundas-feiras. O sol brilhava, os ventos sopravam, as usinas estavam prontas — mas o ONS mandava desligar tudo. Energia limpa, pronta, sendo literalmente descartada.
Para dimensionar o estrago: a energia desperdiçada em 2025 bastaria para abastecer 600 mil carros elétricos por um ano. Ou manter 40 grandes data centers funcionando. Ou suprir o consumo mensal de 16 milhões de residências. Em pelo menos 16 dias, o sistema operou próximo do limite de segurança — não por falta de energia, mas por excesso. Em 2024, apenas um dia tinha sido classificado como crítico.
Em sistemas energéticos maduros ao redor do mundo, o índice de curtailment costuma ficar entre 1% e 3% da produção. O Brasil está em 20,6%. Mais de seis vezes acima do que é considerado normal. Esse dado, por si só, já revela o fracasso do planejamento estatal.
Como o governo criou o problema
A resposta é um caso de manual de intervenção estatal mal planejada. Durante anos, o governo brasileiro distribuiu isenções fiscais, subsídios bilionários e incentivos regulatórios para energia solar e eólica. Empurrou a expansão renovável a todo custo, sem se preocupar com um detalhe fundamental: onde armazenar o excesso de energia produzida.
O mecanismo é simples de entender. Burocratas definiram metas ambiciosas de capacidade instalada. Políticos distribuíram isenções para parecerem “verdes” nas conferências climáticas internacionais. Ninguém cuidou da infraestrutura necessária para que essa energia chegasse ao consumidor. É como construir uma fábrica gigantesca, inaugurar com festa, dar entrevistas celebrando “o futuro do país” — e depois descobrir que não existe estrada para escoar a produção.
A chamada geração distribuída — painéis solares em telhados de casas e empresas — foi turbinada por subsídios que isentam esses consumidores de pagar pelo uso da rede elétrica. Com 43,4 GW de capacidade instalada, essa modalidade já rivaliza com toda a capacidade eólica e solar centralizada do país. Essa energia entra no sistema sem controle do ONS, agravando o desequilíbrio de forma dramática.
O resultado é um paradoxo que deveria envergonhar qualquer planejador central: o Brasil enfrenta risco de apagão por excesso de energia. Não por falta. Por excesso. Como bem resumiu o professor Ivan Camargo, da Universidade de Brasília: não existe linha de transmissão que resolva o problema quando simplesmente não há demanda do outro lado.
O subsídio que funciona como Robin Hood às avessas
Aqui está a parte mais perversa da história. As geradoras que tiveram sua produção cortada continuam com contratos firmados e energia vendida. O prejuízo de R$ 6,5 bilhões não evapora. Ele é repassado, de diversas formas, ao sistema — encarecendo a tarifa do cidadão comum.
Os subsídios à geração distribuída criam uma distorção grotesca. O consumidor que não tem placa solar no telhado subsidia quem tem. E quem são os beneficiários desses subsídios? Segundo dados do próprio Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), as instalações de painéis solares se concentram nas regiões mais nobres das capitais brasileiras. Em Belo Horizonte, 42% dos sistemas estão em áreas de alta renda. Em São Paulo, 31%. Nas áreas mais pobres, a presença não chega a 4%.
Em outras palavras: o trabalhador de baixa renda, que mal consegue pagar a conta de luz, está financiando o desconto na tarifa do vizinho de classe média alta que instalou painéis solares no telhado. Os subsídios à geração distribuída já atingiram R$ 8,5 bilhões anuais, segundo o diretor-geral da Aneel. Quando somados aos descontos de uso de rede para projetos eólicos e solares maiores, o total ultrapassa R$ 20 bilhões bancados pelo consumidor cativo.
É a velha história do Estado criando privilégios: o governo cria o problema com subsídios que distorcem o mercado. Depois corre atrás de “soluções” que exigem mais regulação, mais intervenção e mais dinheiro público. E quem paga? O cidadão que não tem acesso a nenhum desses benefícios.
A “solução” que chega com cinco anos de atraso
A Medida Provisória 1.304/2025, transformada na Lei 15.269/2025, promete incentivos para baterias de armazenamento e modernização da rede. A lei moderniza o marco regulatório do setor elétrico, cria diretrizes para sistemas de armazenamento e amplia o regime de incentivos fiscais (REIDI) para projetos de baterias. Em tese, o governo pode até zerar o imposto de importação sobre baterias e seus componentes.
Mas aqui está o detalhe que nenhum político vai mencionar no palanque: os resultados só devem começar a aparecer em 2028. O alívio efetivo está projetado para 2030. Cinco anos. Enquanto isso, bilhões em energia continuam sendo jogados fora e a conta de luz segue subindo.
O governo também vetou a ampliação do ressarcimento às geradoras que sofrem cortes. A justificativa? O impacto na tarifa poderia chegar a R$ 6 bilhões. Ou seja: o governo criou o problema com subsídios mal desenhados, não investiu em infraestrutura de transmissão e armazenamento a tempo, e agora se recusa a ressarcir quem sofre as consequências da sua própria incompetência. Quem fica com o prejuízo é o gerador — e, no fim da cadeia, o consumidor.
Os interesses em jogo
Nenhuma política pública é feita por altruísmo. Então, vale perguntar: quem ganhou e quem perdeu nesse cenário?
Quem ganhou: O setor de painéis solares viveu um boom de instalações nos últimos anos, turbinado por subsídios que tornavam o investimento altamente rentável. Fabricantes e instaladores lucraram. Consumidores de alta renda que puderam investir em painéis tiveram descontos expressivos na conta de luz — bancados por todos os outros. Políticos ganharam capital eleitoral ao se apresentarem como “defensores do meio ambiente” em fóruns internacionais.
Quem perdeu: O consumidor de baixa renda, que não tem como instalar painéis solares e subsidia quem tem. As geradoras de energia renovável centralizada, que acumularam R$ 6,5 bilhões em prejuízos com cortes forçados. E o contribuinte em geral, que paga tarifas de energia entre as mais altas do mundo enquanto 20% da energia limpa é jogada no lixo.
O lobby por trás: O setor de geração distribuída tem forte influência no Congresso. A extensão de prazos para subsídios, a resistência a cobranças pelo uso de rede e a pressão por ressarcimento em caso de cortes revelam um setor que aprendeu a jogar o jogo político. Em 2024, associações do setor elétrico denunciaram que a extensão de benefícios à geração distribuída custaria bilhões por ano ao consumidor. Mesmo assim, os subsídios continuam. Este é o retrato perfeito do capitalismo de compadrio: empresas que usam a máquina estatal para criar lucros garantidos às custas do cidadão comum.
A lição que o Estado nunca aprende
Esse caso é um exemplo cristalino de por que planejamento central falha. Quando burocratas escolhem quais tecnologias devem receber subsídios, quando reguladores definem metas de capacidade instalada sem considerar a infraestrutura de armazenamento e transmissão, quando políticos distribuem isenções para colher aplausos em conferências climáticas — o resultado é previsível: distorção, desperdício e conta mais cara para quem menos tem.
Se o mercado de energia fosse genuinamente livre, os investidores avaliariam não apenas o custo de gerar energia, mas também a viabilidade de armazená-la e transmiti-la. Sem subsídios artificiais, ninguém construiria usinas sabendo que 20% da produção seria descartada. O próprio sistema de preços sinalizaria onde investir e onde não investir. A alocação de recursos seria racional, não política.
Mas no Brasil, o sinal de preço foi substituído por decreto. O planejamento de mercado foi substituído por planilha de burocrata. O país que se gaba de ser “potência em energia limpa” joga fora o equivalente a dez meses de Belo Monte. Enquanto isso, o consumidor brasileiro paga uma das tarifas de energia mais altas do planeta.
Mais do que um problema técnico, o curtailment expõe uma falha estrutural do modelo intervencionista. O Estado decidiu que o Brasil seria uma potência renovável. Despejou bilhões em subsídios para atingir metas de capacidade instalada. Celebrou recordes de energia limpa. Só esqueceu do básico: garantir que essa energia chegasse a quem precisa.
É importante notar que esse problema não nasceu em um único governo. A política de subsídios à geração distribuída foi consolidada pela Resolução Aneel 482 de 2012, expandida ao longo de diferentes gestões e perpetuada pelo Marco Legal da GD (Lei 14.300/2022). Governos de esquerda e de direita distribuíram incentivos sem se preocupar com as consequências. A diferença é que o governo atual — que em tese poderia ter corrigido o rumo — optou por mais do mesmo: mais intervenção, mais subsídios e mais promessas de que “agora vai”. É o que os governos que aumentam o Estado sempre fazem. Criam problemas. E depois vendem a solução — com mais Estado.
A pergunta que fica
Da próxima vez que um político celebrar “recordes de energia renovável”, lembre-se dos R$ 6,5 bilhões jogados no lixo. Lembre-se de que o trabalhador de baixa renda subsidia o painel solar do vizinho rico. Lembre-se de que o sistema opera no limite — não por falta, mas por excesso de energia que ninguém planejou como usar.
O Estado criou o problema. Agora promete resolvê-lo — com mais Estado. A Lei 15.269/2025 é mais uma camada de intervenção sobre décadas de intervenção. Os resultados? Só em 2028, se tudo der certo. Enquanto isso, a conta é sua.
A liberdade econômica começa quando o governo para de escolher vencedores e perdedores no mercado de energia. Até lá, prepare o bolso: você está pagando o preço do planejamento central. E esse preço, como sempre, é muito mais alto do que qualquer burocrata admite.
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 09/02/2026 09:01
Fontes
- Canal Solar — Volt Robotics calcula perdas de R$ 6 bi com curtailment em 2025
- XP Investimentos — Radar Energia: Curtailment atinge 20% com perdas de R$ 6,5 bi
- PV Magazine — Brazil curtails 20% of solar and wind output in 2025
- Portal IN — Brasil desperdiça 20% da energia solar e eólica em 2025
- Correio Braziliense — Brasil desperdiçou 20% da energia renovável em 2025
- Idec — Geração distribuída: por que o Brasil precisa mudar as regras
- CNN Brasil — Energia renovável terá subsídio de maior peso na conta de luz, diz Aneel
- Ministério de Minas e Energia — Lei 15.269/2025
- Clarke Energia — Lei 15.269 é sancionada e prevê reforma no setor elétrico
- Poder360 — Benefício à geração distribuída causa rombo bilionário, diz Abradee


