A presidenta interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou uma anistia geral que abarcará “todo o período de violência política desde 1999 até o presente”, numa admissão indireta de que o regime chavista passou 25 anos perseguindo opositores políticos. Segundo a organização Foro Penal, 711 pessoas permanecem detidas por motivos políticos, um número que representa apenas a ponta do iceberg de décadas de repressão estatal.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
Quando o Estado “perdoa” suas próprias vítimas
O anúncio acontece um mês após a queda de Nicolás Maduro, removido por operação militar americana. Desde 8 de janeiro, 302 presos foram liberados, mas o processo tem sido criticado por sua lentidão e falta de transparência. Famílias protestam há semanas exigindo listas dos beneficiados – mesmo fazendo “o bem”, o Estado consegue transformar libertação em tortura psicológica.
A pergunta óbvia surge: se essas pessoas eram “terroristas” como o regime sempre alegou, por que agora viraram prisioneiros políticos dignos de anistia? A resposta é simples: sempre foram prisioneiros políticos. O regime sempre negou a existência de presos políticos, alegando que eram terroristas. Agora o Estado venezuelano apenas parou de fingir.
A amnistia excluirá pessoas processadas por homicídio, tráfico de drogas, corrupção e violações graves aos direitos humanos. É uma distinção importante: reconhece que nem toda prisão na Venezuela foi política. Mas também levanta a questão de quantos “terroristas” eram na verdade pessoas exercendo direitos básicos como manifestação e liberdade de expressão.
El Helicoide: de shopping a símbolo do horror estatal
Além da anistia, Rodríguez anunciou o fechamento de El Helicoide, descrito como “o centro de tortura mais grande da América Latina”. O prédio será transformado em centro social, deportivo, cultural e comercial.
A ironia é reveladora: o prédio foi originalmente construído nos anos 1950 como shopping center futurista, com hotel cinco estrelas e heliponto. Quando a empresa construtora faliu, em vez de permitir que outro empreendedor assumisse o projeto, o Estado chavista transformou a estrutura em instrumento de repressão.
Durante a administração Maduro, El Helicoide se tornou prisão de alta segurança onde ocorreram torturas sistemáticas e violações de direitos humanos. “Eu testemunhei tortura e fui vítima dela. Eles enfiaram uma arma carregada na minha boca”, relatou Victor Navarro, que ficou preso lá por cinco meses.
Familiares de detenidos acompanharam o anúncio do lado de fora, alguns entre lágrimas e outros gritando “Liberdade!” “Deus é bom. Deus nos escuchó”, disse uma tia de preso, visiblemente emocionada.
A pressão americana: quem realmente comanda
Nada disso aconteceria sem a intervenção militar que derrubou Maduro. María Corina Machado, vencedora do Nobel da Paz 2025, atribuiu a decisão à pressão americana: “Não é algo que o regime queria fazer voluntariamente”.
A presidenta venezuelana está numa posição delicada: alega ter discutido a decisão com o “alto comando político” e que contou com a determinação de Maduro, mesmo ele estando capturado, e assegura manter “intercâmbios” de informação com eles. É o jogo político clássico: Rodriguez finge autonomia enquanto obedece ordens de Washington.
O Departamento de Estado confirmou a liberação de todos os cidadãos americanos detidos na Venezuela. Estados Unidos começou a desbloquear fundos venezuelanos congelados como parte do acordo. Venezuela está trocando liberdade política interna por subordinação geopolítica externa.
Os interesses em jogo: petróleo acima de tudo
Por trás da narrativa humanitária, há interesses econômicos gigantescos. A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo, nacionalizadas por Hugo Chávez. Mudanças aprovadas na lei de hidrocarbonetos reduziram o rígido controle estatal sobre operações petrolíferas vigente nas últimas duas décadas, criando oportunidades para investimento estrangeiro.
Cidades inteiras foram abandonadas depois que Chávez nacionalizou o setor. Famílias que dependiam da economia petrolífera migraram quando o investimento estatal se mostrou ineficiente. Agora há esperança de que companhias americanas retomem a exploração.
Mas isso significa trocar uma dependência (do Estado venezuelano) por outra (de empresas americanas). A verdadeira liberdade econômica viria da livre concorrência entre empresas de diferentes países, não da escolha entre monopólios estatais ou corporativos alinhados com determinada potência.
As restrições escondidas na “liberdade”
Os liberados não podrão fazer declarações aos meios de comunicação nem sair do país – exceto estrangeiros. Ou seja, a liberdade vem com coleira. O Estado continua controlando essas pessoas, apenas mudou o método de controle.
“Recordamos que estas pessoas foram encarceradas arbitrariamente por exercer direitos protegidos pelos instrumentos internacionais de direitos humanos”, destacou a organização Provea. Não se trata de clemência estatal, mas de reparação por injustiças cometidas.
A exclusão de crimes comuns da anistia é correta, mas levanta questões sobre quantos “terroristas” eram na verdade manifestantes pacíficos. O Estado venezuelano sempre misturou criminalidade comum com resistência política para justificar a repressão. Separar os dois agora é admitir que essa mistura foi deliberada.
Brasil: e a nossa anistia, quando vem?
O paralelo com o Brasil é inevitável e incômodo. Aqui também temos centenas de presos políticos desde 2019, vítimas do mesmo tipo de perseguição que acontecia na Venezuela. A diferença é que nosso regime perseguidor ainda está no poder, protegido pela toga e pelo discurso de “defesa da democracia”.
Enquanto a Venezuela liberta seus presos políticos sob pressão externa, o Brasil mantém os seus trancafiados por decisões de um único ministro do STF. Alexandre de Moraes criou seu próprio Helicoide jurídico, onde prende quem quiser por tempo indeterminado, sem devido processo legal.
A ironia é brutal: um país que acabou de sair de uma ditadura militar faz teatro democrático enquanto prende opositores políticos. O mesmo establishment que critica a Venezuela por perseguir manifestantes aplaude quando manifestantes brasileiros são presos pelos mesmos motivos.
A esperança é que a pressão internacional que funcionou na Venezuela também funcione no Brasil. Mas enquanto isso não acontece, centenas de famílias brasileiras vivem o mesmo drama: ter parentes presos por exercer direitos constitucionais básicos.
A lição libertária: todo Estado é uma ameaça
A situação venezuelana ensina uma lição fundamental: não importa o governo, o Estado sempre tende a expandir seu poder sobre os cidadãos. Chávez chegou prometendo justiça social e acabou criando uma máquina de perseguição. O PT brasileiro faz o mesmo discurso e adota os mesmos métodos.
A anistia é positiva para as famílias dos presos, mas não muda a estrutura fundamental do problema. O Estado que hoje liberta é o mesmo que ontem prendeu. Nada impede que um futuro governo volte a prender opositores, especialmente se tiver apoio de setores “democráticos”.
A verdadeira garantia de liberdade não vem da boa vontade de governantes, mas de limitações constitucionais rígidas ao poder estatal. Enquanto qualquer governo puder prender cidadãos por “crimes de opinião”, a liberdade estará sempre em risco.
A Venezuela está trocando uma ditadura aberta por uma tutela disfarçada. Pode ser um progresso tático, mas a liberdade real ainda está distante. E o Brasil, que deveria servir de exemplo, caminha na direção oposta: de uma democracia imperfeita para um autoritarismo judicial cada vez mais explícito.
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 31/01/2026 21:03



