Gilberto Kassab, presidente do PSD e secretário de governo de São Paulo, tentou quebrar a aliança entre Tarcísio de Freitas e Jair Bolsonaro com uma declaração calculada. “Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade, outra coisa é submissão”, afirmou em entrevista ao UOL. A frase não foi acidente – foi estratégia que fracassou.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
O plano que desmoronou na Papudinha
Kassab nunca escondeu que seu plano principal era articular uma candidatura de Tarcísio para a Presidência, prometendo apoio do PSD caso ele topasse. No entanto, o governador paulista nunca demonstrou o mesmo entusiasmo, dizendo que a prioridade seria a reeleição estadual.
Quando a entrada de Flávio na disputa tornou consenso que não havia espaço para os dois, Tarcísio estendeu apoio à candidatura de Flávio e se comprometeu a buscar mais quatro anos em São Paulo. O sonho presidencial de Kassab virou pesadelo político.
A reação foi imediata. Dois dias antes das declarações polêmicas, Kassab havia filiado ao PSD o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que deixou o União Brasil com o objetivo de se viabilizar como candidato à Presidência. O movimento foi interpretado como um distanciamento do senador Flávio Bolsonaro, nome apontado por Jair Bolsonaro como possível representante da direita.
Na manhã de quinta-feira (29), Tarcísio visitou Bolsonaro na “Papudinha” e reafirmou sua intenção de concorrer à reeleição ao governo de São Paulo e apoiar o senador Flávio Bolsonaro na candidatura à presidência. A visita foi o recado definitivo: a tentativa de Kassab tinha fracassado.
A resposta certeira de Tarcísio
“Absolutamente nada a ver com submissão”, rebateu Tarcísio ao ser questionado sobre as declarações de Kassab. “É fácil você ficar do lado quando a pessoa tá bem. Difícil é estender a mão quando a pessoa está na pior, quando ela precisa da sua ajuda, quando a pessoa perdeu o poder, quando a pessoa tá privada da sua liberdade”.
A resposta foi uma aula de política e princípios. “A decisão de ficar em São Paulo não tem nada a ver com submissão. É algo que estou dizendo desde 2023, não é nenhuma novidade”, frisou o governador.
Questionado sobre as falas de Kassab, Tarcísio negou qualquer incômodo e disse que o dirigente do PSD se manifesta como liderança nacional do partido, enquanto, no governo estadual, segue alinhado às diretrizes da gestão. Diplomacia que esconde a tensão real: Kassab trabalha para enfraquecer a base política do próprio chefe.
Os interesses em jogo
Por trás dessa guerra de declarações existem interesses muito concretos. O cálculo político de Kassab é que, ao apoiar o governador para o Planalto, há a possibilidade de ele próprio receber a benção para disputar a cadeira de comando em São Paulo. Quando esse plano A fracassou, ativou rapidamente o plano B.
O PSD reúne outros governadores cotados como pré-candidatos, como Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, e Ratinho Jr., do Paraná. Kassab já indicou que o partido apoiará aquele que apresentar melhor desempenho nas pesquisas, com a estratégia de oferecer uma alternativa de centro-direita à polarização entre o presidente Lula e aliados de Bolsonaro.
Tradução: não tem projeto, só oportunismo. A escolha será feita com base em fatores como sinergia política, desempenho em pesquisas e maior chance eleitoral, sem um critério fixo previamente definido. As definições devem começar a ganhar forma nas próximas semanas.
O Centrão e parte do mercado financeiro queriam Tarcísio como candidato presidencial porque representa um perfil mais “palatável” – menos polarizador, mais fácil de controlar. Tarcísio rejeitou esse papel, escolhendo manter a lealdade à base que o elegeu.
A análise libertária: quem realmente entrega?
Do ponto de vista libertário, a lealdade de Tarcísio a Bolsonaro faz sentido pelos motivos corretos. O governo Bolsonaro, apesar dos erros, foi o que mais reduziu o peso do Estado na economia brasileira nas últimas décadas. Privatizações, desregulamentação, redução de ministérios, corte de impostos – o saldo foi positivo para a liberdade econômica.
Tarcísio mantém essa linha em São Paulo. Privatização da Sabesp, concessões rodoviárias, redução de burocracia, modernização administrativa. São ações concretas que reduzem o poder do Estado sobre o cidadão.
Kassab e sua turma representam o oposto: o Estado como articulador de interesses, a política como negócio, o fisiologismo como método. Sua “terceira via” não é alternativa ao estatismo – é apenas uma versão mais palatável do mesmo sistema que mantém o Brasil refém da burocracia.
A fragmentação que Kassab promove só beneficia a esquerda. Lula e o PT assistem satisfeitos à direita se dividindo em múltiplas candidaturas. Quanto mais fragmentada a oposição, mais fácil a vitória petista em 2026.
O controle de danos de Kassab
Kassab reiterou que Tarcísio sempre deixou claro que a sua preferência era ser candidato a governador em 2026. “Ele tirou esse tema de pauta no dia de ontem [quinta, 29]”. Tentativa de fazer parecer que tudo estava planejado.
Em evento posterior, Kassab afirmou que os três pré-candidatos do PSD são bons, mas que Tarcísio teria mais chances. “É evidente que Tarcísio tem um grande quadro, preparadíssimo para comandar o País. Eu mesmo e o nosso partido, o PSD, tínhamos uma posição muito clara de que se o Tarcísio fosse candidato, teria o nosso apoio. Mas ele não é”.
A explicação não convence. Quando um político experiente como Kassab fala sobre “gratidão versus submissão” em entrevista nacional, sabe exatamente o que está fazendo. Não foi mal-entendido – foi estratégia que deu errado.
As consequências para 2026
A tentativa frustrada de Kassab consolida Tarcísio como um ativo importante para a campanha de Flávio Bolsonaro. Tarcísio reiterou que pretende colaborar com a campanha de Flávio Bolsonaro e voltou a afirmar que seu foco permanece na administração paulista.
Enquanto isso, o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, defendeu a candidatura de Tarcísio: “Nem é porque o Tarcísio é membro do Republicanos, não, é porque ele é competente, ele é mais ao centro, é mais equilibrado. Não tenha dúvida de que o meu candidato seria o Tarcísio Gomes de Freitas”.
A diferença está clara: de um lado, a lealdade e os princípios. Do outro, o oportunismo e a conveniência. Tarcísio escolheu o lado da consistência, mantendo compromissos com quem o levou ao poder. Kassab representa o lado que muda de lado conforme os ventos eleitorais.
Para o cidadão comum, o episódio oferece uma lição valiosa: desconfie sempre de quem prega “independência” de políticos que defendem seus interesses. Geralmente, essa “independência” significa dependência de outros senhores, menos visíveis mas igualmente interesseiros. A verdadeira independência está em escolher conscientemente de que lado ficar – e Tarcísio fez sua escolha.
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 31/01/2026 10:00
Fontes
– Gazeta do Povo – Kassab descarta aliança com Flávio Bolsonaro
– Terra – Kassab sobre candidatos do PSD em 2026
– Gazeta do Povo – Tarcísio rebate Kassab sobre submissão



