A China vive a maior purga militar em meio século. Xi Jinping removeu Zhang Youxia, um dos generais mais poderosos das Forças Armadas chinesas, em movimento que marca “uma concentração de poder militar sem precedentes”. O expurgo eliminou praticamente toda a cúpula militar chinesa, deixando apenas Xi e um general leal no comando de 2 milhões de soldados armados com arsenais nucleares.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
O homem que controlava o exército desaparece
Zhang Youxia está sendo investigado por “violações graves de disciplina partidária e leis estaduais”, segundo o Ministério da Defesa chinês. O general de 75 anos não era um militar qualquer. Ele ocupava a vice-presidência da Comissão Militar Central e era o segundo homem mais poderoso das Forças Armadas, respondendo apenas a Xi Jinping.
Zhang tinha credenciais únicas no sistema chinês. Ele foi descrito como um “irmão jurado” de Xi e seus irmãos, sendo filho de um general revolucionário famoso que conheceu Xi desde a infância. Zhang foi um veterano decorado da guerra fronteiriça China-Vietnã de 1979 e havia sobrevivido a várias rodadas de expurgos militares, sendo considerado intocável como amigo de infância do presidente.
A velocidade do anúncio foi incomum. Normalmente, um alto funcionário fica fora de vista por meses antes que o partido confirme uma investigação. A rapidez com que a destituição do General Zhang foi anunciada parecia destinada a conter os danos potenciais para Xi. O sinal estava claro: mesmo os aliados mais próximos não estavam seguros.
O resultado é devastador para a estrutura militar chinesa. “Xi Jinping completou um dos maiores expurgos da liderança militar da China na história da República Popular”, disse um analista. A Comissão Militar Central foi reduzida ao menor tamanho da história. Agora há apenas dois membros, incluindo Xi e Zhang Shengmin, o vigilante anticorrupção militar.
Tentativa de golpe ou limpeza preventiva?
Rumores sobre uma tentativa de golpe contra Xi circulam em redes sociais chinesas e meios de oposição, mas analistas afirmam que “qualquer evidência publicamente divulgada ou seletivamente vazada pelas autoridades chinesas não necessariamente refletiria a razão central para a remoção de Zhang”.
A versão oficial é mais mundana: corrupção. O General Zhang foi acusado de corrupção, incluindo falha em controlar seus próprios familiares, além de não reportar prontamente problemas à liderança do partido. O tempo de Zhang no Departamento de Armamentos Gerais – que, por controlar contratos de armas, ficou conhecido como um “pote de mel da corrupção” – pode ter plantado as sementes de sua queda. Outros generais que passaram por esse departamento também foram purgados.
“O ponto crítico é que Xi Jinping decidiu agir contra Zhang; uma vez que uma investigação é lançada, problemas são quase inevitavelmente descobertos. Os analistas disseram que os expurgos são projetados para reformar os militares e garantir lealdade a Xi”.
A matemática do poder: de seis para zero
Os números contam a história real desta purga. Todos os seis comandantes uniformizados nomeados para o órgão em 2022 foram removidos. A remoção é o mais recente expurgo militar desde outubro, quando o Partido Comunista destituiu um dos vice-presidentes anteriores da comissão, He Weidong. Ele foi substituído por Zhang Shengmin, um leal a Xi que sobreviveu à rodada mais recente de remoções.
O padrão é claro: Xi está eliminando sistematicamente qualquer centro de poder alternativo no exército. “Ele decidiu que deve cortar muito profundamente geracionalmente para encontrar um grupo não contaminado. O expurgo até de um amigo de infância como Zhang Youxia mostra que agora não há limites para o zelo anticorrupção de Xi”, disse um analista.
Os pais dos dois homens, veteranos das guerras revolucionárias de Mao, eram pessoalmente conhecidos, e Xi havia mantido o General Zhang no cargo além da idade habitual de aposentadoria de cerca de 70 anos. Mas as preocupações de Xi sobre a confiabilidade de seus comandantes pareciam finalmente superar qualquer afeto que sentia pelo general.
Os interesses em jogo: poder, paranoia e geopolítica
Por trás da retórica anticorrupção, esta purga revela os verdadeiros mecanismos de poder na China. Xi não está simplesmente combatendo a corrupção – está eliminando qualquer ameaça potencial à sua autoridade absoluta. O exército sempre foi o principal risco para ditadores: é a única instituição com poder de fogo suficiente para derrubar um líder.
“Eu acho que isso reflete o senso pessoal de insegurança de Xi Jinping, e esse é um fator importante em seus expurgos dos militares”, disse um especialista. A paranoia de Xi tem bases racionais – quando você concentra poder absoluto, todos ao seu redor se tornam ameaças em potencial.
Há também interesses geopolíticos em jogo. Os Estados Unidos não veem mais a China como uma prioridade de segurança máxima, segundo a Estratégia de Defesa Nacional de 2026 do Pentágono, enquanto o presidente Donald Trump busca focar no Hemisfério Ocidental. “O presidente Trump busca uma paz estável, comércio justo e relações respeitosas com a China”, diz o documento, que segue esforços para reduzir uma guerra comercial. Ele diz que irá “abrir uma gama mais ampla de comunicações militares” com o exército chinês.
Para Xi, controlar absolutamente o exército é essencial para seus planos geopolíticos. Qualquer general com base de poder independente poderia questionar decisões sobre Taiwan, confrontos no Mar do Sul da China ou a aliança com a Rússia. Eliminando a cúpula militar, Xi garante que suas aventuras externas não enfrentem resistência interna.
Consequências para Taiwan e o mundo
A purga militar tem implicações diretas para a questão mais explosiva da geopolítica: Taiwan. Xi pode precisar de anos ou mais para cultivar uma nova safra de oficiais – presumivelmente – confiáveis, e também deve preencher as fileiras esgotadas do Comitê Militar Central. “Para reconstruir essas cadeias de comando pode levar cinco anos ou mais”, avaliou um especialista.
Mas essa análise pode ser otimista demais. Xi agora tem controle absoluto sobre as decisões militares, sem vozes dissidentes na cúpula para questionar suas ordens. “O expurgo do [EPL] está realmente completo. É uma limpeza completa da casa… o maior expurgo da história chinesa desde 1949. Um resultado é deixar o EPL em ‘desordem’ e atrasar qualquer movimento para Taiwan”, disse um analista. Um ditador paranoico com poder militar total pode ser mais perigoso, não menos, para a estabilidade regional.
Os expurgos fazem parte de uma campanha anticorrupção mais ampla que puniu mais de 200.000 funcionários desde que Xi chegou ao poder em 2012. O padrão é sempre o mesmo: eliminar centros de poder independentes sob o pretexto de combater a corrupção.
O Estado não tem amigos, só interesses
Esta purga militar chinesa oferece uma lição valiosa sobre a natureza do poder estatal. Xi Jinping, apresentado por anos como um líder estável e calculista, está revelando os instintos paranoicos típicos de ditadores em declínio. A eliminação sistemática de aliados históricos mostra que, no fim das contas, o Estado não tem amigos – apenas interesses momentâneos.
Para o cidadão comum, tanto chinês quanto global, isso significa viver sob a sombra de um regime cada vez mais imprevisível. Um líder que remove até seus aliados mais próximos por suspeitas de deslealdade não hesitará em sacrificar direitos individuais, prosperidade econômica ou paz regional para manter o poder.
A remoção de Zhang eleva o expurgo a um dos maiores rearranjos impostos aos militares chineses desde a repressão da Praça Tiananmen de 1989. A História se repete porque os incentivos do poder absoluto nunca mudam: elimine antes de ser eliminado.
A diferença é que hoje, ao contrário de 1989, a China tem armas nucleares, a segunda maior economia do mundo e ambições globais. Quando ditadores paranoicos controlam esse tipo de poder, todos nós pagamos o preço. A questão não é se Xi usará essa concentração de poder, mas quando e contra quem.
Ironicamente, enquanto Xi destrói sua própria cúpula militar por paranoia, Trump sinaliza uma abordagem menos confrontativa com Pequim. Isso pode dar a Xi ainda mais espaço para consolidar seu controle interno – e preparar suas próximas jogadas no tabuleiro global.
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 26/01/2026 11:07
Fontes
Bloomberg: Xi’s Purge of Top General Spurs Questions on Taiwan, Succession
Fox News: China removes top general Zhang Youxia in Xi Jinping military purge
NPR: China’s top general under investigation in latest military purge
Business Standard: China’s top general Zhang Youxia put under probe in Xi’s military purge
Yahoo News: Military purge gives Xi total control of Chinese army
New Zealand Herald: Zhang Youxia, China’s most senior uniformed official
Al Jazeera: Pentagon downplays China threat: What it means for US allies
ABC News: Trump administration’s defense strategy tells allies to handle their own security



