Bandeiras do Mercosul e União Europeia lado a lado representando acordo comercial bloqueado pelo Parlamento Europeu

janeiro 24, 2026

Ludwig M

Parlamento Europeu paralisa acordo Mercosul-UE: protecionismo vence livre mercado

O Parlamento Europeu votou para remeter o acordo comercial UE-Mercosul ao Tribunal de Justiça da União Europeia, travando efetivamente sua implementação. Por 334 votos a favor, 324 contra e 11 abstenções, eurodeputados de extremos opostos do espectro político se uniram contra uma medida que poderia beneficiar mais de 700 milhões de pessoas.

Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.

A estranha aliança entre extremos

A decisão do Parlamento Europeu expôs uma realidade desconfortável: quando se trata de proteger lobbies corporativos, eurodeputados de esquerda, ambientalistas e liberais falam a mesma língua dos nacionalistas de direita. Na França e Espanha, partidos de extremos opostos celebraram com argumentos idênticos sobre “defender os agricultores”.

Milhares de agricultores protestaram em Estrasburgo com tratores, cercando o Parlamento Europeu dias antes da votação. A decisão foi recebida com aplausos por agricultores que se manifestavam contra o tratado em Estrasburgo. Eles conseguiram o que queriam: manter consumidores europeus pagando preços inflacionados por produtos locais.

Esta convergência não é acidental. Tanto a esquerda estatista quanto a direita protecionista compartilham uma desconfiança fundamental do livre mercado. Ambos preferem manter consumidores como reféns de produtos mais caros e de menor qualidade, desde que isso preserve seus nichos eleitorais.

O resultado prático é simples: famílias europeias continuarão gastando mais em supermercados para subsidiar a ineficiência de produtores que não querem competir. Os preços de carne, aves e outros alimentos permanecerão artificialmente elevados.

O acordo que não era livre comércio

A ironia é que o acordo derrubado estava longe de ser verdadeiro livre comércio. O tratado estabelecia cotas específicas para produtos agrícolas, com limites máximos para importações europeias de carne, aves e outros alimentos sul-americanos com tarifas reduzidas.

Para carne bovina, por exemplo, a Europa importaria com tarifa reduzida apenas 99.000 toneladas do Mercosul – menos de 50% do que já importa hoje e apenas 1,5% da produção europeia total. É um volume completamente marginal, incapaz de ameaçar produtores locais.

O mesmo padrão se repete para aves, arroz, mel e álcool. Todos com cotas irrisórias, representando no máximo 2% da produção europeia. Além disso, o acordo previa mecanismo que pode levar à reintrodução de tarifas caso as importações de produtos agropecuários aumentem pelo menos 5% ou se os preços forem no mínimo 5% menores, e um fundo de 6,3 bilhões de euros para mitigar potenciais perturbações de mercado.

Ou seja, nem mesmo esse “acordo de livre comércio” altamente restritivo foi aceito. O que sobra é a conclusão óbvia: políticos de esquerda e direita preferem consumidores pagando mais caro a correr qualquer risco de competição real.

Lula na posição conveniente

O governo brasileiro conferiu “toda a prioridade à ratificação do Acordo Mercosul-UE e seguirá trabalhando para acelerar seus trâmites internos de aprovação”. A posição não surpreende: o Brasil está do lado exportador, interessado em acessar o mercado europeu com produtos agrícolas.

Se a situação fosse inversa – se o Brasil estivesse recebendo produtos europeus mais competitivos – é provável que Lula adotasse o discurso protecionista de sempre. O histórico do PT mostra preferência clara por mercados fechados e intervenção estatal quando isso convém politicamente.

A defesa atual do acordo não representa conversão ao livre mercado. É simplesmente interesse nacional: o Brasil tem vantagem comparativa em commodities agrícolas e quer vendê-las. Quando o jogo se inverte, o discurso também muda.

Esta é a natureza dos projetos de poder: não têm ideologia consistente, apenas interesses. Se Lula fosse presidente de um país importador, certamente estaria do lado dos agricultores franceses pedindo proteção contra a “invasão” de produtos baratos.

Os interesses geopolíticos ocultos

Defensores do acordo argumentam que ele é estratégico para reduzir dependência da China e enfrentar tensões tarifárias com os Estados Unidos. A União Europeia busca diversificar fornecedores de matérias-primas e alimentos, especialmente diante da crescente assertividade comercial americana.

Trump já ameaçou tarifas contra produtos europeus e demonstrou interesse militar na Groenlândia. Neste contexto, fortalecer laços com a América do Sul faria sentido estratégico para Bruxelas. Mas lobbies domésticos prevaleceram sobre considerações geopolíticas.

A decisão também beneficia indiretamente China e Estados Unidos. Com Europa e Mercosul brigando, ambos podem oferecer acordos bilaterais em condições mais vantajosas. O isolamento europeu só aumenta sua dependência de potências rivais.

Diante da frustração, há pelo menos 11 novos países em conversas com o Mercosul, com o acordo mais próximo sendo com os Emirados Árabes Unidos, além de negociações com países asiáticos. A Europa pode descobrir tarde demais que perdeu o timing histórico.

O custo da revisão judicial

O processo de revisão jurídica deve consumir pelo menos dois anos, garantindo que os preços permaneçam elevados por tempo suficiente para as próximas eleições. Tempo suficiente para agricultores franceses e espanhóis manterem seus votos de gratidão aos políticos que os “protegeram”.

A aprovação das propostas vai desencadear a revisão jurídica pelo tribunal antes dos eurodeputados poderem ratificar os acordos. Se o parecer for negativo, o acordo não pode entrar em vigor. É uma forma elegante de matar o tratado sem assumir a responsabilidade direta.

Dois aspectos do documento são contestados: o fato de a parte comercial ter sido separada do tratado maior para acelerar a aprovação; e o mecanismo de balanceamento pelo qual países do Mercosul podem adotar medidas compensatórias caso mudanças futuras na legislação europeia prejudiquem suas exportações.

A estratégia é clara: usar o judiciário para fazer o trabalho sujo que políticos não querem assumir publicamente. É mais fácil dizer “estamos esperando a Justiça” do que explicar aos consumidores por que devem pagar mais caro por comida.

A hipocrisia do discurso anti-globalização

Partidos como os Verdes e os nacionalistas constantemente criticam o “poder das grandes corporações” e a “globalização selvagem”. Mas quando têm oportunidade de quebrar monopólios locais e dar mais opções aos consumidores, fazem exatamente o oposto.

O livre comércio é o maior inimigo de grandes corporações estabelecidas. Competição internacional obriga empresas a melhorar constantemente ou perder mercado. O protecionismo, ao contrário, cristaliza posições dominantes e permite preços abusivos.

Políticos “anti-sistema” que bloqueiam acordos comerciais estão, na prática, protegendo o sistema estabelecido. Estão impedindo que empresas sul-americanas mais eficientes desafiem fornecedores europeus acomodados.

A retórica populista serve como cortina de fumaça para práticas corporativistas clássicas: usar o Estado para proteger grupos de interesse específicos contra a concorrência. É o oposto de tudo que uma agenda verdadeiramente anti-establishment deveria defender.

Brasil acelera, Europa paralisa

No Brasil, o governo espera que o acordo seja votado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado até o final do primeiro semestre. A expectativa é concluir a aprovação interna até julho de 2026. Do lado sul-americano, há pressa em cumprir os compromissos assumidos.

O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o presidente Lula deve encaminhar, nos próximos dias, a proposta de adesão e internalização do tratado para apreciação da Câmara dos Deputados. “Brasil vai continuar com internalização do acordo”, disse o vice-presidente.

A implementação do acordo pode incrementar as exportações brasileiras em cerca de US$ 7 bilhões. Entre os principais setores beneficiados estão máquinas, equipamentos de transporte, autopeças e aeronaves. São oportunidades concretas de emprego e renda sendo bloqueadas pelo protecionismo europeu.

O contraste é gritante: enquanto o Brasil acelera para cumprir sua parte, a Europa inventa mais burocracias para adiar o inevitável. É um país emergente dando lições de eficiência a um bloco que se considera o centro do mundo civilizado.

Conclusão: quem protege, na verdade explora

A derrubada do acordo Mercosul-UE representa vitória do lobby sobre o interesse público. Pequenos grupos organizados conseguiram manter milhões de consumidores como reféns de preços artificialmente elevados.

Não existe protecionismo que proteja. Existe apenas redistribuição forçada de renda dos consumidores para produtores politicamente conectados. O “campo” que eurodeputados dizem defender são grandes proprietários rurais com capacidade de mobilização, não pequenos agricultores.

A verdadeira proteção para trabalhadores e consumidores vem da competição, que força melhoria constante de produtos e serviços. Mercados fechados geram acomodação, ineficiência e preços abusivos.

A diferença entre Brasil e Europa neste episódio é reveladora: enquanto um acelera para cumprir acordos, o outro inventa obstáculos jurídicos. Quem realmente está preparado para o futuro?

Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.

Versão: 24/01/2026 10:08

Fontes

Euronews – European Parliament freezes Mercosur deal

ANSA Brasil – Parlamento da UE aprova moção que atrasa ratificação

Estado de Minas – Parlamento Europeu congela acordo UE-Mercosul

Agência Brasil – Parlamento Europeu paralisa acordo

O Tempo – Brasil quer agilizar aprovação no Congresso

CNN Brasil – Mercosul quer acelerar outros 11 acordos

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