Jared Kushner apresentou em Davos um plano de US$ 25 bilhões para transformar Gaza numa “Nova Gaza” com arranha-céus, aeroporto e infraestrutura turística, mas o projeto tem cara de loteamento de luxo sendo vendido sobre os escombros de um genocídio. A proposta de 20 pontos reflete elementos do acordo de cessar-fogo, mas ignora completamente que estamos falando de dois milhões de pessoas que perderam tudo numa guerra.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
Riviera de Gaza: quando tragédia vira oportunidade de investimento
Kushner, genro de Trump e conselheiro sênior, exibiu maquetes de arranha-céus na orla de Gaza e propôs diferentes zonas para promover “turismo costeiro” e prosperidade econômica. “Nova Gaza poderia ser uma esperança. Poderia ser um destino, ter muita indústria e realmente ser um lugar onde as pessoas possam prosperar”, disse Kushner, estimando que algumas construções poderiam ser concluídas nos próximos dois a três anos.
O projeto lista mais de 100 mil unidades habitacionais permanentes, mais de 75 instalações médicas, mais de 180 centros culturais, religiosos e profissionais, mais de 200 centros educacionais, com PIB esperado de mais de US$ 10 bilhões até 2035 e mais de 500 mil novos empregos.
É a gentrificação em sua forma mais obscena. Gaza não é terreno vago esperando especulador imobiliário. É território onde famílias inteiras foram exterminadas, onde crianças cresceram sob bloqueio, onde hospitais viraram alvos militares. Transformar isso em “destino turístico” é de uma perversidade moral que deveria chocar qualquer pessoa com o mínimo de decência.
O plano divide Gaza em zonas, com reconstrução começando apenas em áreas onde as armas forem totalmente removidas. Kushner enfatizou que a reconstrução acontecerá apenas em partes de Gaza onde o Hamas estiver desmilitarizado, com alguns membros do Hamas que concordem em largar as armas recebendo anistia.
Plano em fases: apagar o passado, construir o futuro
O plano prevê começar na fronteira sul do enclave reabrindo a passagem de Rafá e movendo-se constantemente para o norte até que todo o território palestino seja reconstruído, incluindo porto marítimo, aeroporto e infraestrutura turística.
O plano mestre delineia redesenvolvimento em fases por Gaza, incluindo portos, rodovias, zonas industriais, data centers e áreas residenciais, com novos projetos urbanos incluindo Nova Rafá e Nova Gaza.
A lógica é brutal na sua simplicidade: primeiro você destrói tudo, depois oferece reconstruir do zero seguindo seu projeto. É como um incendiário que volta no dia seguinte oferecendo serviços de construção. Os documentos enquadram a proposta como uma mudança do conflito para o que descrevem como “paz e prosperidade”, mas que tipo de prosperidade se constrói sobre genocídio?
A reconstrução prosseguirá “apenas em setores com desarmamento completo”, com todos os grupos armados militantes, segurança interna e organizações policiais sendo desmantelados ou integrados no NCAG após verificação.
A megalomania do “sucesso catastrófico”
Kushner reconheceu que sua visão, que levaria muitos anos e pelo menos US$ 25 bilhões para implementar, poderia encontrar obstáculos, mas a Casa Branca decidiu “planejar para sucesso catastrófico”.
“Sucesso catastrófico” é a expressão perfeita. Mostra que até os criadores sabem que é delirante. Kushner pediu àqueles que expressaram ceticismo sobre o conselho para suspender suas críticas: “Apenas se acalmem por 30 dias. A guerra acabou”.
Expressando total confiança na proposta, ele disse “não temos um ‘Plano B'”, apenas um “plano mestre”. É a mentalidade empresarial aplicada a conflitos geopolíticos. Para Trump e Kushner, qualquer problema se resolve com dinheiro suficiente e projeto bem desenhado.
Mas territórios não são loteamentos. Povos não são consumidores. Conflitos seculares não se resolvem com plantas arquitetônicas, por mais bonitas que sejam no PowerPoint.
Board of Peace: conselho de guerra disfarçado
Kushner e Marco Rubio servirão num “Conselho Executivo” destinado a “operacionalizar a visão do Conselho da Paz”, junto com Steve Witkoff, ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, presidente do Banco Mundial Ajay Banga, conselheiro de segurança nacional Robert Gabriel, e Marc Rowan, CEO da Apollo Global Management.
Trump disse estar honrado em ser presidente do que poderia ser “um dos órgãos mais consequentes já criados”. O Conselho da Paz fornecerá supervisão ao Comitê Nacional para Administração de Gaza (NCAG), que supervisionará os esforços de reconstrução do dia a dia, liderado por Ali Shaath, ex-ministro adjunto da Autoridade Palestina.
Olhem essa composição: bilionários americanos, consultores de Trump, executivos de private equity. Onde estão os palestinos? Onde estão as organizações humanitárias? Onde estão representantes dos dois milhões de pessoas que moram em Gaza? Nowhere. Este não é conselho de paz. É conselho de administração de uma empresa colonial.
O Conselho da Paz, inicialmente focado em Gaza, destina-se a servir como plataforma mais ampla para implementar modelos de reconstrução e governança pós-conflito. Em outras palavras: Gaza é o laboratório. Se der certo, exportam o modelo para outros territórios “problemáticos”.
A conta que não fecha
Permanece desconhecido quanto custará a reconstrução de Gaza e quem pagará por isso. O projeto é grandiose, mas quem financia? “Ajuda completa será imediatamente enviada para a Faixa de Gaza”, afirma o plano, acrescentando que os níveis de ajuda corresponderão àqueles acordados no arranjo humanitário de 19 de janeiro de 2025.
A matemática é simples: Gaza é uma das regiões mais pobres do mundo. Dois milhões de pessoas vivendo sob bloqueio há décadas. PIB praticamente inexistente. Infraestrutura destruída. E agora querem transformar isso numa “hub econômica regional” gerando US$ 10 bilhões de PIB até 2035?
É a mesma lógica neoliberal de sempre: promete-se prosperidade através do mercado livre, mas quem vai investir numa região que acabou de sair de um genocídio? Que investidor sério colocaria bilhões num território ocupado militarmente, onde a população local foi dizimada e não tem poder de compra?
O Estado americano entra com dinheiro inicial para “ancorar” o projeto, depois espera que a iniciativa privada tome conta. Socializam os custos, privatizam os lucros. O contribuinte americano financia a destruição através do complexo militar-industrial, depois financia a reconstrução através de contratos para empresas americanas. É o capitalismo de compadrio em sua forma mais pura.
Turismo sobre genocídio
Kushner propôs a introdução de diferentes zonas para promover “turismo costeiro” e prosperidade econômica. Imaginem o folder turístico: “Visite a Riviera de Gaza! Relaxe nas praias onde antes havia campos de refugiados! Aproveite nossos resorts de luxo construídos sobre cemitérios!”
É de uma obscenidade moral que deveria provocar náusea em qualquer pessoa decente. Estamos falando de transformar um território que sofreu limpeza étnica numa Cancún do Oriente Médio. Hotéis cinco estrelas onde antes havia hospitais bombardeados. Spas de luxo onde antes havia escolas destruídas.
O livre mercado é eficiente para produzir bens e serviços onde há demanda real. Mas quando o Estado artificialmente cria “oportunidades de investimento” sobre genocídio, não é mais livre mercado. É capitalismo de guerra, é economia da catástrofe, é a Doutrina do Choque aplicada em tempo real.
A pergunta que ninguém quer fazer
Gaza precisa de reconstrução? Obviamente. Gaza precisa de investimento? Claro. Gaza precisa de oportunidades econômicas? Sem dúvida. Mas Gaza precisa de shopping centers e hotéis de luxo administrados por bilionários americanos? Gaza precisa de um plano imposto de fora que trata palestinos como inquilinos no próprio território?
A questão central não é técnica, é moral e política: quem decide o futuro de Gaza? Os palestinos que moram lá, ou bilionários americanos que veem oportunidade de negócio? O projeto de Kushner não consulta palestinos. Não inclui suas organizações. Não respeita sua autodeterminação. Trata dois milhões de pessoas como obstáculos a serem gerenciados, não como seres humanos com direitos.
Na perspectiva libertária genuína, a solução seria simples: deixar os palestinos decidirem seu próprio futuro. Remover todas as intervenções estatais que causaram o problema. Acabar com o apoio militar americano que financiou a destruição. Permitir que mercados reais, baseados em trocas voluntárias, se desenvolvam organicamente.
Mas isso não interessa a ninguém no poder. Estados querem controle geopolítico. Empresas querem contratos garantidos. Políticos querem parecer “fazedores de paz”. No final, quem paga a conta é sempre o mesmo: o contribuinte que financia a guerra, o palestino que perde a casa, o cidadão comum que acredita na propaganda.
Gaza não precisa de mais planos megalomaníacos impostos de fora. Gaza precisa de liberdade. Mas liberdade não gera contratos bilionários, não cria oportunidades para especulação imobiliária, não permite que políticos se apresentem como salvadores. Por isso nunca será considerada.
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 22/01/2026 18:45
Fontes:


