Forças militares sírias em operação na região controlada pelos curdos no nordeste da Síria em janeiro de 2026

janeiro 21, 2026

Ludwig M

Washington abandona os curdos sírios: o fim de uma aliança de décadas

Em janeiro de 2026, mais uma tragédia geopolítica se desenrola no Oriente Médio. O presidente sírio Ahmed al-Sharaa anunciou que o Exército Sírio assumirá o controle de três províncias do nordeste – Raqqa, Deir Az Zor e Hasakah – das Forças Democráticas da Síria (SDF), encerrando mais de uma década de controle curdo na região. O mais revelador: tudo acontece com a posição ambígua do governo americano, cujas forças lutaram lado a lado com a SDF por anos.

Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.

A rapidez do realinhamento americano surpreende observadores

Em 13 de janeiro de 2026, o governo de transição sírio lançou uma ofensiva contra as Forças Democráticas da Síria no nordeste da Síria. O que começou como conflito localizado rapidamente se transformou numa campanha de conquista territorial sistemática. Os ataques se expandiram para Raqqa em 17 de janeiro, e no dia seguinte as forças governamentais sírias capturaram Al-Tabqah, a represa de Tabqa e a base aérea estratégica.

Para entender a dimensão do que críticos chamam de “abandono americano”, é preciso lembrar quem eram os curdos na guerra civil síria. Ao longo da última década, as Forças Democráticas da Síria foram reconhecidamente a força mais eficaz na batalha contra o grupo Estado Islâmico na Síria. Não eram apenas mais uma milícia – eram parceiros estratégicos de Washington.

Quando foi fundada em 2015 com apoio americano, a SDF incluía combatentes árabes, curdos e turcomanos, além da principal milícia cristã do nordeste da Síria. Essa diversidade étnica e religiosa contrastava dramaticamente com os grupos extremistas que dominavam outras regiões sírias.

A velocidade com que Washington mudou de posição revela o que analistas interpretam como um padrão preocupante. O governo americano afirmou que “a lógica da parceria com as Forças Democráticas Sírias foi alterada”, segundo reportagem do Metrópoles. O enviado americano Tom Barrack pediu que a milícia curda aceite integração ao “Estado sírio unificado”.

Os números reveladores de uma derrota anunciada

A extensão territorial perdida pelos curdos impressiona qualquer observador. O exército sírio capturou todo o interior leste de Deir ez-Zor, incluindo o campo Al-Omar, o maior campo petrolífero do país. Não estamos falando apenas de territórios simbólicos – são recursos estratégicos vitais que financiavam a administração curda autônoma.

Raqqa também possui alguns dos maiores campos de petróleo e gás sírios. Esses recursos garantiam certa independência econômica aos curdos e sustentavam seu projeto de autonomia. Agora, segundo analistas, o grupo controla apenas Hassakeh, área com grande comunidade curda.

O acordo assinado revela a extensão da capitulação curda. A SDF teve que entregar as províncias de Raqqa e Deir el-Zour – ambas áreas de maioria árabe – para o exército e governo sírios, incluindo passagens de fronteira e campos de petróleo e gás. É literalmente a entrega de toda infraestrutura que garantia viabilidade ao projeto curdo.

Para os Estados Unidos, porém, observadores notam que a questão se resume a uma conta pragmática: o propósito original da SDF como principal força anti-ISIS no terreno teria “expirado amplamente”, já que Damasco agora estaria disposta e posicionada para assumir responsabilidades de segurança, segundo declarações do embaixador americano Tom Barrack.

Quem eram realmente os curdos sírios

A SDF apoiada pelos EUA foi formada em 2015, quase quatro anos depois que o levante armado contra o ex-presidente Bashar al-Assad começou. Mas sua importância ia muito além do aspecto militar – representavam algo próximo de uma experiência democrática e secular no Oriente Médio.

O contraste entre curdos e seus adversários não poderia ser mais evidente. Enquanto grupos como o HTS (Hayat Tahrir al-Sham) defendiam um Estado islâmico baseado na sharia, os curdos construíram uma administração multiétnica e secular. Sob o regime Assad, os curdos eram uma minoria sistematicamente marginalizada na Síria.

Em 16 de janeiro, al-Sharaa emitiu decreto reconhecendo formalmente o curdo como “língua nacional” e restaurando cidadania a todos os curdos sírios. O decreto declarou Newroz, festival de primavera curdo, feriado nacional. Ironicamente, essas concessões chegaram no meio dos combates contra as próprias forças curdas.

Analistas consideram que essas aberturas do governo sírio para a minoria curda chegaram tarde demais. Quando se oferece direitos com uma mão e se empunha armas com a outra, a credibilidade se esvai rapidamente.

O projeto curdo representava algo único na região: a chamada “revolução Rojava” ensinou uma geração de mulheres sírias rurais a portar armas e, mais importante, a participar da vida política. Também forçou o resto da Síria a enfrentar a realidade diversa do país. Agora, segundo críticos, tudo isso está sendo desmontado pela força.

O papel da Turquia na equação regional

A situação curda não pode ser entendida sem considerar Ancara. Embora a Turquia tenha sido um dos principais apoiadores dos rebeldes sírios durante o governo de Assad, ela vê o YPG como extensão do PKK curdo, que travou longa insurgência na Turquia. Para o presidente turco Erdogan, qualquer avanço curdo na Síria representa ameaça direta à integridade territorial turca.

A estratégia turca foi, segundo observadores, paciente e eficaz. Erdogan apoiou os grupos que derrubaram Assad, sabendo que eventualmente eles se voltariam contra os curdos. A liderança curda secular da SDF tem ligações com o PKK baseado na Turquia – organização classificada como “terrorista” pela própria União Europeia e Estados Unidos.

Essa classificação deu a Erdogan o argumento perfeito para pressionar Washington. Se os próprios Estados Unidos consideram o PKK terrorista, como poderiam continuar apoiando seu suposto “braço sírio”? A contradição americana ficou diplomaticamente insustentável.

Milhares de manifestantes se reuniram em Diyarbakır e outras cidades de maioria curda na Turquia para protestar contra o governo sírio durante os confrontos de janeiro de 2026. Faixas diziam “Defender Rojava significa defender a humanidade”, mas os protestos não alteraram realidades geopolíticas básicas.

O padrão histórico: usar e descartar aliados

O que críticos interpretam como abandono dos curdos sírios se encaixa num padrão histórico americano reconhecível. Não é a primeira vez que Washington usa aliados locais para objetivos específicos e depois os abandona quando não precisa mais deles. A comparação com o Afeganistão é inevitável.

No Afeganistão, milhares de afegãos que trabalharam com forças americanas foram deixados para trás durante a retirada de 2021. Muitos foram posteriormente executados pelos talibãs. Intérpretes, guias, soldados – pessoas que arriscaram suas vidas foram simplesmente esquecidas quando a política mudou.

Agora a história parece se repetir na Síria. Como analistas apontam, enquanto os EUA não estavam totalmente comprometidos com a SDF, a SDF não tinha escolha senão seguir os americanos. Essa assimetria de dependência é exatamente o que torna a situação tão precária para os curdos.

A questão vai além da moralidade – é estratégica. Como outros grupos podem confiar nos Estados Unidos no futuro? Se Washington abandona aliados que lutaram e morreram ao seu lado, que garantia têm outros parceiros regionais? A credibilidade americana no Oriente Médio, já questionada, sofre mais um abalo significativo.

O pragmatismo da posição americana fica claro na sugestão do embaixador Tom Barrack de que a SDF deveria se submeter a al-Sharaa e ser “menos teimosa sobre preservar a semi-autonomia” que mantinha. É uma forma diplomática de dizer: vocês não são mais úteis, se conformem com a nova realidade.

As consequências para a estabilidade regional

A destruição da administração curda cria vácuo perigoso na Síria. A SDF alertou que os ataques em Raqqa podem ameaçar a segurança, já que a cidade abriga milhares de detidos do ISIS. São prisioneiros do Estado Islâmico que estavam sob custódia curda – e agora?

A província de Hassakeh deve devolver sua administração civil para Damasco, enquanto as agências lideradas pelos curdos que lidavam com prisões e campos com milhares de combatentes e famílias detidas do ISIS seriam entregues ao governo central.

Transferir custódia de milhares de jihadistas para governo recém-formado, liderado por ex-membros da Al-Qaeda, não parece receita segura para estabilidade. O novo governo sírio pode ter mudado de retórica, mas sua capacidade e vontade de manter esses prisioneiros seguros é questionável pelos especialistas.

A situação se torna ainda mais preocupante considerando que a SDF conseguiu repelir vários ataques no campo Al-Hawl, mas depois se retirou da área, citando “indiferença internacional” em relação à questão dos prisioneiros do ISIS.

Para a população curda civil, as consequências são imediatas e simbólicas. Moradores derrubaram estátua de combatente curda após tomada da cidade pelas forças governamentais sírias em Tabqa. É a destruição simbólica de uma década de conquistas curdas.

O fim de um experimento libertário

O projeto curdo na Síria representava algo raro: uma experiência prática de descentralização, democracia direta e igualdade de gênero funcionando em meio ao caos. Esse experimento desmoronou nos últimos dias quando o presidente sírio Ahmed al-Sharaa lançou ofensiva contra a SDF.

Era uma administração que funcionava sem estrutura estatista tradicional. As comunidades curdas desenvolveram conselhos locais, cooperativas econômicas e sistemas de justiça baseados na participação popular. Mulheres comandavam unidades militares e ocupavam posições de liderança política – algo impensável na maior parte do Oriente Médio tradicional.

Esse experimento agora é forçadamente integrado num Estado sírio centralizado. De acordo com o novo acordo, combatentes da SDF se fundirão ao exército nacional como indivíduos, não como força completa. A força liderada pelos curdos também teve que entregar nomes de comandantes que receberão postos militares dentro do exército sírio.

É o fim da autonomia curda, embora talvez não das ideias que representava. Como observam alguns analistas, embora projetos de autonomia possam cair, seu legado tende a persistir por décadas, inspirando futuras gerações. Quando pessoas têm gosto de liberdade, ele costuma persistir na memória coletiva.

Na perspectiva libertária, a experiência curda oferecia lições valiosas sobre como comunidades podem se organizar sem depender de estruturas estatais massivas. Cooperativas, assembleias locais, decisões descentralizadas – eram práticas que funcionavam no mundo real, não apenas teorias acadêmicas. Para defensores da liberdade individual, a perda desse laboratório prático de descentralização representa retrocesso significativo.

A lição para futuros aliados americanos

O que críticos chamam de abandono curdo envia mensagem clara para qualquer grupo que considere se aliar com Washington: não contem com apoio duradouro. Os Estados Unidos são uma potência pragmática, não um parceiro ideológico confiável. Quando os interesses americanos mudarem, aliados locais ficarão sozinhos.

Essa realidade deveria preocupar não apenas grupos rebeldes, mas governos aliados. Se milícias que lutaram ao lado de soldados americanos por anos podem ser descartadas facilmente, que segurança têm países que dependem de garantias de segurança americanas?

Os dois lados em guerra são, ironicamente, aliados-chave de Washington. O enviado americano Tom Barrack se reuniu com Sharaa enquanto forças governamentais avançavam para Raqqa. É a diplomacia americana em ação: negociar com quem está ganhando, independente de compromissos passados.

Para os curdos, o resultado é devastador. Para a credibilidade americana, é mais um golpe numa série que começou no Vietnã, passou pelo Afeganistão e agora chega à Síria. O padrão está se tornando previsível: os Estados Unidos usam aliados locais para objetivos geopolíticos e os descartam quando não precisam mais deles.

A questão que permanece é simples: quem será o próximo? Que outros “aliados temporários” descobrirão que sua utilidade expirou quando a política americana mudar novamente? A resposta provavelmente não demorará muito para aparecer, considerando a natureza cíclica da política externa americana.

O caso curdo na Síria mostra como funciona realmente a geopolítica moderna: não existem aliados permanentes, apenas interesses permanentes. E quando esses interesses mudam, pessoas reais pagam o preço com suas vidas, suas casas e seus sonhos de liberdade. É uma lição cara que poucos parecem dispostos a aprender até que seja tarde demais.

Resta saber se a história registrará esse episódio como mais um capítulo da realpolitik americana ou como momento em que Washington perdeu definitivamente a capacidade de inspirar confiança entre aqueles que mais precisam de apoio para construir sociedades livres. O que você acha: países pequenos ainda podem confiar em promessas de grandes potências?

Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.

Versão: 21/01/2026 19:02

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