Por uma margem apertadíssima de apenas 10 votos, o Parlamento Europeu decidiu ontem encaminhar o acordo comercial Mercosul-UE ao Tribunal de Justiça da União Europeia. Foram 334 votos a favor do encaminhamento, 324 contra e 11 abstenções — uma diferença que mostra como o futuro do livre comércio pode depender de poucos parlamentares.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
Uma oportunidade histórica barrada pela burocracia
O acordo foi oficialmente assinado em 17 de janeiro no Paraguai, após 26 anos de negociações. Criaria uma zona de livre comércio com mais de 700 milhões de consumidores — literalmente a maior do mundo. Mas entre a assinatura e a implementação, a política se intrometeu mais uma vez.
Críticos do protecionismo europeu veem na decisão um padrão preocupante: sempre que surgem oportunidades reais de livre comércio, encontram-se pretextos técnicos ou burocráticos para atrasar o processo. O tribunal europeu demora entre 18 e 24 meses para pronunciar-se — tempo suficiente para que governos mudem e prioridades se alterem.
Segundo parlamentares que propuseram o encaminhamento, há questionamentos sobre se dividir o acordo para deixar apenas a parte comercial foi uma “tática” da Comissão Europeia. A justificativa técnica esconde o que observadores do livre mercado interpretam como resistência política ao comércio internacional.
Os números que mostram o tamanho da perda
Para entender a magnitude do que está em jogo, basta olhar os números. Cerca de 60 mil empresas europeias exportam para o Mercosul atualmente — metade delas pequenas e médias empresas que dependem desses mercados para crescer. A redução de tarifas geraria economia estimada de 4 bilhões de euros anuais para as empresas europeias.
Do lado sul-americano, as projeções indicam que as exportações da UE para o Mercosul aumentariam quase 50 bilhões de euros até 2040, enquanto as exportações do Mercosul para a UE poderiam crescer até 9 bilhões de euros. Aliás, para produtos brasileiros como suco de laranja, frutas e café solúvel, o acordo eliminaria tarifas completamente, além de criar cotas para carnes, açúcar e etanol.
Na perspectiva libertária, estes números representam mais que estatísticas econômicas — são oportunidades de emprego, renda e melhoria de vida que ficam travadas por decisões burocráticas. Quando o Estado interfere no livre fluxo de comércio, todos perdem: o consumidor europeu paga mais caro, o produtor sul-americano perde mercados.
A resistência organizada dos setores protegidos
Na véspera da votação, milhares de agricultores protestaram em Estrasburgo, conduzindo tratores ao redor do Parlamento Europeu e se envolvendo em confrontos com a polícia. A cena ilustra perfeitamente como setores que vivem de proteções estatais se organizam para manter seus privilégios.
Opositores ao acordo, particularmente a França — maior produtor agrícola da UE — alegam que o acordo aumentará “drasticamente” as importações de carne bovina, açúcar e aves “baratos”, prejudicando produtores nacionais. Traduzindo do politicamente correto: temem a concorrência livre e querem manter subsídios.
Um jovem agricultor francês de 24 anos reclamou que o acordo resultará na importação de alimentos “produzidos de uma forma completamente diferente da europeia, com mais pesticidas e sem os mesmos padrões”. É o velho argumento protecionista disfarçado de preocupação ambiental — curiosamente, os mesmos que hoje reclamam de “pesticidas” não se manifestavam quando as queimadas na Amazônia eram usadas como pretexto em 2019.
A farsa ambiental que virou questão jurídica
Lembremos o contexto: o acordo estava pronto desde junho de 2019, ainda durante o governo Bolsonaro. Naquela época, uma campanha coordenada por artistas da esquerda brasileira e ativistas europeus criou histeria sobre as queimadas na Amazônia — muitas das imagens divulgadas nem sequer eram da floresta brasileira. Celebridades como Caetano Veloso, Leonardo DiCaprio e até Cristiano Ronaldo entraram no coro.
A França, liderada por Emmanuel Macron, bloqueou a ratificação nos parlamentos nacionais europeus. Ironia das ironias: dados oficiais mostram que as queimadas na Amazônia hoje são maiores do que em 2019, mas agora com Lula no poder, o tema simplesmente desapareceu da agenda midiática internacional.
Agora que o pretexto ambiental perdeu força, surgiram questões “jurídicas”. Parlamentares questionam a validade do mecanismo de reequilíbrio previsto no acordo, que permitiria aos países do Mercosul tomar medidas compensatórias caso futuras leis da UE reduzam suas exportações. Em outras palavras, usam a burocracia para bloquear o que não conseguiram barrar politicamente.
Brasil perdeu mais uma oportunidade por incompetência diplomática
Enquanto em 2019 o Brasil tinha equipes técnicas competentes conduzindo as negociações, hoje o país depende de uma diplomacia que apostou todas as fichas na “boa vontade” europeia. O próprio presidente Lula nem compareceu à cerimônia de assinatura no Paraguai, deixando a representação para o ministro das Relações Exteriores.
É difícil demonstrar menor interesse em um acordo que levou um quarto de século para ser negociado. Países sérios não ficam duas décadas mendigando acordos comerciais — eles diversificam parcerias, fortalecem mercados internos e criam alternativas reais.
Como alertam analistas do setor, os governos do Mercosul estão perdendo a paciência com a UE após mais de 20 anos de negociações que sempre esbarram em novos obstáculos. Primeiro foi o meio ambiente, agora são questões jurídicas — amanhã será outra justificativa qualquer.
A lição libertária que ninguém quer aprender
Na perspectiva libertária, o episódio ilustra um princípio fundamental: o protecionismo sempre encontra uma desculpa. Ontem era salvar a Amazônia, hoje é “compatibilidade jurídica”, amanhã será outro pretexto. Quem vive de privilégios e subsídios nunca desiste facilmente deles.
A votação dividiu praticamente todos os grupos políticos europeus, mostrando que não há consenso real sobre livre comércio nem mesmo em economias desenvolvidas. A oposição da França e da Polônia foi determinante, mas mesmo dentro dos partidos houve divisão interna — sinal de que interesses setoriais pesam mais que princípios econômicos.
Defensores do livre mercado argumentam que acordos comerciais deveriam ser sobre eliminar barreiras, não criar novas burocracias. Mas como disse um parlamentar europeu durante os debates, eles estavam “trabalhando, voto a voto, parlamentar a parlamentar, para construir a maioria necessária para impedir o acordo”. É política pura contra economia racional.
Enquanto o Brasil fica dependente da aprovação externa para desenvolver sua economia, países como China e Estados Unidos avançam suas agendas comerciais pelo mundo. A pergunta que fica é: quando entenderemos que soberania comercial se conquista com competência técnica e diversificação de parcerias, não com discursos bonitos e dependência de terceiros?
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 21/01/2026 15:17
Fontes
- Euronews – European Parliament freezes Mercosur deal
- Executive Digest – Parlamento Europeu congela acordo com o Mercosul
- Terra – Parlamento Europeu envia acordo UE-Mercosul ao Tribunal
- Gazeta Brasil – Acordo entre Mercosul e UE é suspenso
- Notícias ao Minuto – Parlamento Europeu envia acordo para análise



