O Banco Central decretou hoje (21) a liquidação do Will Bank, determinando mais um capítulo custoso para o sistema bancário brasileiro. A operação pode pesar mais R$ 6,5 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que já carrega uma conta de R$ 40,6 bilhões do Banco Master. Ou seja: os contribuintes de todo o sistema bancário — você e eu — pagamos a conta de mais uma quebradeira financeira.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
O que é o Will Bank e por que sua queda importa
Segundo dados do Banco Central, o Will Bank tinha R$ 14,1 bilhões em ativos, prejuízo de R$ 244,7 milhões e um patrimônio líquido de cerca de R$ 300 milhões. A instituição chegou a ter mais de 9 milhões de clientes. Não estamos falando de uma fintech qualquer que quebrou — era um banco digital relevante no sistema.
O banco digital foi adquirido pelo Banco Master no início de 2024. Desde então, vivia sob regime especial de administração temporária do Banco Central. Na prática, isso significa que a autoridade monetária tentava salvar a instituição. Tentativa que agora se mostrou infrutífera.
A questão é simples: quando um banco quebra, quem paga a conta não são os donos ou gestores. É o sistema inteiro. Todos os outros bancos são obrigados por lei a contribuir para o FGC. Essa contribuição, claro, é repassada para os clientes na forma de tarifas mais altas e spreads bancários maiores.
Na visão libertária, isso não é incompetência — é projeto. O sistema foi desenhado para que os riscos sejam sempre socializados, enquanto os lucros permanecem privados. O Will Bank podia lucrar quanto quisesse quando as coisas iam bem. Agora que deu errado, a conta é de todos.
O tamanho real do rombo no FGC
Segundo estimativas do mercado, o FGC terá de desembolsar até R$ 48 bilhões, se forem somados os ressarcimentos das aplicações do Banco Master e agora, de seu controlado, o Will Bank. O montante representa 40% do caixa do fundo de R$ 122 bilhões. Para ter uma ideia do tamanho desse buraco: é quase metade de toda a reserva de segurança do sistema financeiro brasileiro.
A situação fica ainda mais grave quando se considera que a liquidação do Will Bank deve adicionar até R$ 7 bilhões ao volume que o Fundo Garantidor de Crédito terá de devolver aos investidores. Alguns analistas estimam que o impacto total pode chegar a R$ 6,5 bilhões, mas há margem de erro para cima.
O problema é que nem todos os depósitos estão cobertos pelo fundo. Esses investimentos são elegíveis à cobertura do FGC, respeitado o limite de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. Quem tinha mais que isso ficou no prejuízo. Uma lição cara sobre os riscos de concentrar patrimônio numa única instituição.
Críticos do sistema apontam que o FGC funciona como um mecanismo perverso: usa dinheiro de todos os bancos (que vem dos clientes) para cobrir o buraco de um banco mal administrado.
Como funciona o jogo de empurra no sistema financeiro
Segundo comunicado oficial do Banco Central: “Tornou-se inevitável a liquidação extrajudicial da Will Financeira, em razão do comprometimento da sua situação econômico-financeira, da sua insolvência e do vínculo de interesse evidenciado pelo exercício do poder de controle do Banco Master S.A.”. Traduzindo: o Will Bank afundou junto com seu controlador.
A cronologia é reveladora. Como reporta a Folhapress, o Will Bank estava sob regime de administração especial temporária desde novembro, quando o Master foi liquidado por suspeita de que houve fraudes na venda de carteiras de crédito ao Banco de Brasília (BRB) por R$ 12 bilhões. Primeiro quebra o Master, depois o Will Bank. Um dominó que custará bilhões ao sistema.
Durante meses, o Banco Central tentou salvar o Will Bank. A estratégia era ganhar tempo para encontrar um comprador. Não deu certo. O último prego no caixão veio quando a bandeira Mastercard decidiu suspender a aceitação de cartões emitidos pelo Will Bank, após a instituição deixar de honrar pagamentos. A suspensão ocorreu depois que transações realizadas por consumidores não foram liquidadas pelo banco na segunda-feira (19).
O que acontece com os 9 milhões de clientes
Quem tinha dinheiro no Will Bank agora entra na fila do FGC. A partir de agora, as negociações com CDBs do Will Bank ficam paralisadas e os depósitos ficam bloqueados. Isso porque o FGC é que entra na jogada para assumir os pagamentos. Ou seja: seu dinheiro virou uma burocracia estatal.
O processo não é simples nem rápido. Os pagamentos do FGC acontecem depois que o fundo recebe a lista de credores, que é enviada pelo liquidante, escolhido pelo Banco Central. Apenas com essa lista em mãos é que o FGC conseguirá definir o cronograma de devolução do dinheiro. Enquanto isso, milhões de pessoas ficam com o dinheiro preso.
Ainda não há informações de quanto tempo vai demorar para isso acontecer. A boa notícia é que, como os desembolsos do Banco Master já estão em curso, espera-se que o pagamento do Will Bank não leve tanto tempo. Mas “não tanto tempo” pode significar meses.
Para receber, o cliente precisa tomar a iniciativa. Para ter acesso aos recursos do FGC, é preciso que o próprio investidor faça a solicitação nos canais oficiais do fundo. O processo poderá ser feito pelo celular, via aplicativo, e não exige contato com gerente, banco ou intermediários. Quem não fizer o pedido continuará esperando mesmo com o pagamento já liberado.
Por que críticos consideram o FGC um problema disfarçado de solução
O Fundo Garantidor de Créditos se vende como proteção ao poupador. Na visão de economistas libertários, é um sistema que permite que bancos assumam riscos excessivos sabendo que a conta será socializada. É o que especialistas chamam de risco moral: quando você protege alguém das consequências dos próprios atos, incentiva comportamentos irresponsáveis.
Pense assim: se você soubesse que, caso perdesse tudo no cassino, seus vizinhos seriam obrigados a repor suas perdas, não apostaria mais pesado? Defensores do livre mercado argumentam que é exatamente isso que o FGC faz com os bancos. Eles podem fazer negócios arriscados porque sabem que, se der errado, outros bancos pagarão a conta.
O sistema funciona até funcionar. Quando 40% das reservas são comprometidas por apenas duas instituições (Master e Will Bank), fica claro que o modelo não é sustentável. E se outros bancos grandes quebrarem ao mesmo tempo?
Como defendem libertários, liberdade econômica não é privilégio — é direito. Mas como exercer esse direito num sistema onde suas escolhas são limitadas por regulações que protegem bancos irresponsáveis? Críticos apontam que o FGC impede que o mercado funcione: bancos ruins deveriam quebrar para dar espaço aos bons.
As lições que defensores do mercado livre enxergam
Numa perspectiva libertária, em um sistema verdadeiramente livre, o Will Bank e o Master teriam quebrado muito antes de acumular bilhões em perdas. Os sinais de alerta estariam visíveis para quem quisesse ver: spreads maiores, captação mais cara, rating pior. O mercado tem mecanismos naturais de autorregulação.
Observadores críticos argumentam que o FGC distorce esses sinais. Se você sabe que seus depósitos estão “garantidos” até R$ 250 mil, por que se preocupar com a saúde do banco? Por que pesquisar, por que diversificar, por que exercer a vigilância que todo investidor deveria ter?
Na teoria do mercado livre, a concorrência funciona como um processo de descoberta. Bancos bons prosperam, bancos ruins somem. O consumidor vota com o bolso, premiando eficiência e punindo incompetência. Críticos sustentam que o FGC quebra esse processo, mantendo vivos bancos que deveriam estar mortos.
Compare com qualquer outro setor da economia. Quando uma padaria quebra, ela quebra e pronto. Ninguém é obrigado a pagar para ressarcir quem comprou fiado. Por que o setor bancário deveria ser diferente? Porque é “estratégico”? Porque é “complexo”? Ou, como questionam críticos, porque tem lobby suficiente para criar um sistema que socializa prejuízos?
O que você pode fazer diante dessa situação
Primeiro: diversifique. O limite de R$ 250 mil por instituição existe por algum motivo. Se você tem mais que isso, divida entre bancos diferentes. Não confie sua segurança financeira a uma única instituição, por maior que seja.
Segundo: estude seus bancos. Não é porque tem garantia do FGC que você deve ignorar os riscos. Bancos públicos têm riscos diferentes de bancos privados. Fintech de R$ 50 bilhões tem riscos diferentes de fintech de R$ 1 bilhão. Informe-se.
Terceiro: entenda que proteção estatal sempre cobra um preço. O FGC não é grátis. Você paga por ele nas tarifas bancárias, nos spreads dos empréstimos, na menor eficiência do sistema como um todo. Como dizia Milton Friedman: “Não existe almoço grátis”.
Quarto: questione as narrativas oficiais. Quando te dizem que o FGC “protege o poupador”, pergunte: protege de quê? Dos bancos ruins que ele mesmo mantém vivos? Na visão crítica, não seria melhor deixar os bancos ruins quebrarem e fortalecer os bons?
Analistas libertários defendem que informação é a melhor defesa contra sistemas que privatizam lucros e socializam prejuízos. Quanto mais você entender como funciona o jogo, melhor poderá se proteger dele.
A quebra do Will Bank não é um acidente. É o resultado previsível de um sistema que, segundo críticos, incentiva irresponsabilidade ao garantir que alguém sempre pagará a conta. E esse alguém, no final das contas, é sempre você.
Diante de tudo isso, a pergunta que fica é: até quando vamos aceitar pagar pelos erros de quem deveria ser responsável pelos próprios riscos?
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 21/01/2026 10:18


