O Fundo Garantidor de Créditos iniciou neste sábado, 17 de janeiro de 2026, o pagamento de R$ 40,6 bilhões a 800 mil investidores do Banco Master. É a maior operação de ressarcimento da história brasileira, superando os R$ 20 bilhões pagos na quebra do Bamerindus em 1997. Os valores ficaram parados por dois meses, desde a liquidação da instituição em 18 de novembro de 2025.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
O que significa esse pagamento na prática
A liquidação do Banco Master foi decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, após constatação de graves violações às normas do sistema financeiro. As indenizações demoraram dois meses para serem liberadas, período durante o qual os recursos ficaram sem qualquer tipo de correção.
Para quem tinha dinheiro aplicado, isso representa uma perda real significativa. Os investidores receberão os valores aplicados corrigidos por juros até a data da liquidação, em 18 de novembro. Não haverá correção pela Selic ou inflação desde a liquidação até a data que o pagamento for efetuado. Na prática, quem estava ganhando 140% do CDI no Master perdeu dois meses de rendimento.
O processo não é automático. O ressarcimento do FGC não é automático. Os investidores pessoas físicas precisam se cadastrar no aplicativo do FGC, fornecer informações pessoais e cadastrar uma conta bancária de mesma titularidade para que seja feito o depósito. É necessário baixar o aplicativo oficial nas lojas de apps e seguir o procedimento de cadastro.
A garantia do FGC cobre diversos produtos financeiros, não apenas CDBs. O ressarcimento abrange contas-correntes, poupanças e outros investimentos como CDBs, RDBs, LCIs, LCAs, LCDs e demais produtos financeiros. Cada pessoa tem direito a receber até R$ 250 mil por CPF, incluindo o valor investido e os rendimentos até a data da liquidação.
Os números que mostram a dimensão do problema
Os dados revelam a magnitude da operação Master. Cerca de 800 mil clientes devem ser ressarcidos, em montantes que alcançam R$ 40,6 bilhões. Trata-se de um número inferior ao previsto inicialmente, quando estimava-se 1,6 milhão de investidores lesados pela quebra do Master. A redução aconteceu porque nem todos os clientes têm direito à garantia do FGC.
Serão pagos R$ 41 bilhões (um terço do caixa do FGC, que soma R$ 120 bilhões) aos clientes que têm direito à cobertura. Isso mostra como uma única liquidação pode comprometer significativamente os recursos do fundo. Um desembolso dessa magnitude consumirá uma parcela relevante do patrimônio do FGC, reduzindo sua folga financeira.
O contexto é preocupante quando consideramos que o Banco Master foi liquidado por “graves violações” às normas que regem o sistema financeiro e problemas de liquidez, em decisão concomitante a uma operação policial que investiga suspeitas de fraudes financeiras de aproximadamente R$ 12 bilhões. Ou seja, há indícios de irregularidades que vão muito além dos R$ 40,6 bilhões que o FGC vai pagar.
A demora também chama atenção. O processo de pagamento, em outras instituições liquidadas, levou cerca de 30 dias. Mas no caso do Master, diante de uma lista mais extensa de investidores, a liquidação vai completar dois meses no próximo domingo. O início dos pagamentos ocorre após um período de espera mais longo do que o observado em liquidações bancárias recentes.
Como funciona o processo de resgate na prática
O procedimento é relativamente simples, mas exige atenção aos detalhes. Desde às 9h30 da manhã deste sábado, os investidores podem solicitar os valores pelo aplicativo do FGC. Após a assinatura do documento no aplicativo o crédito do valor é realizado na conta de titularidade do credor em até 48 horas úteis.
O primeiro passo é baixar o aplicativo oficial do FGC na Apple Store ou Google Play. Em seguida, é necessário fazer o cadastro com os dados pessoais e documentos. Os credores deverão fazer a identificação por biometria e informar a conta de sua titularidade para recebimento da garantia. É preciso fazer biometria e enviar documento solicitados pelo FGC.
Não existe uma ordem de pagamento a investidores considerando maiores valores investidos. Aqueles que fizerem o cadastro primeiro, tendem a ser os primeiros a receber. Isso significa que a ordem é por chegada, não por valor investido. É um princípio democrático: tanto quem tinha R$ 1.000 quanto quem tinha R$ 250.000 têm o mesmo direito de ser atendido rapidamente.
Para pessoas jurídicas, o processo é diferente. Pessoas jurídicas (CNPJ) realizam o processo por meio do site do FGC. O procedimento inclui análise documental mais detalhada e o termo de solicitação é enviado por email após aprovação.
Aplicativo fora do ar: problema esperado ou despreparo?
Logo no primeiro dia, os problemas começaram. Provavelmente devido ao alto número de acessos, o aplicativo apresentava instabilidade nesta manhã. Ao entrar no app do FGC aparecia a mensagem “serviço indisponível”. A situação era previsível: 800 mil pessoas querendo acessar o mesmo sistema ao mesmo tempo.
O FGC reconheceu a instabilidade e explicou os números. Segundo informações oficiais, foram registrados mais de 140.000 acessos simultâneos, o que sobrecarregou o sistema. A entidade alegou que a infraestrutura é “autoescalável”, o que significa que deveria se adaptar automaticamente ao maior número de usuários.
É importante contextualizar: esse tipo de problema é comum quando há grandes volumes de acesso simultâneo. Aconteceu com sites de vacinação durante a pandemia, com sistemas de declaração do Imposto de Renda, e com plataformas de auxílio emergencial. A diferença é que aqui estamos falando de pessoas que já estão há dois meses sem acesso ao próprio dinheiro.
O FGC informou que até o meio-dia de sábado o sistema teve instabilidade, mas que a normalização era esperada para as próximas horas. Para quem esperou dois meses, mais algumas horas não fazem diferença. Mas revelam como o Estado — mesmo através de suas extensões como o FGC — frequentemente não se prepara adequadamente para atender o cidadão quando ele mais precisa.
Os riscos de golpes que você precisa conhecer
Com R$ 40,6 bilhões em jogo, os golpistas não perdem tempo. O FGC alerta que não autoriza ou credencia nenhum tipo de Instituição ou empresa, com intuito de intermediar/propor qualquer tipo de “negociação” para recebimento do valor garantido pelo FGC, muito menos solicitando o pagamento de qualquer taxa ou o depósito prévio de valores.
O FGC não faz atendimento presencial, sendo que as dúvidas deverão ser tratadas por telefone ou pelo e-mail atendimento.credores@fgc.org.br. Além disso, nenhum contato é feito por meio do WhatsApp ou SMS. Essa informação é crucial: se alguém entrar em contato por WhatsApp oferecendo ajuda para “acelerar” o processo, é golpe.
Os golpistas costumam se aproveitar da ansiedade das vítimas. Oferecem serviços de “consultoria” para “garantir” o recebimento, cobram taxas antecipadas, ou pedem dados pessoais e bancários por telefone. Alguns até criam aplicativos falsos que imitam o oficial do FGC.
A regra é simples: o único canal oficial é o aplicativo baixado diretamente das lojas oficiais (Apple Store e Google Play) e o site oficial do FGC. Qualquer outra forma de contato deve ser vista com extrema desconfiança. O FGC jamais cobra taxa para liberar o dinheiro — afinal, esse dinheiro já é seu.
O que essa história revela sobre o sistema financeiro
O caso Master expõe contradições profundas no sistema. Por um lado, temos o FGC cumprindo seu papel e devolvendo R$ 40,6 bilhões aos prejudicados. Por outro, surge a questão: como chegamos a esse ponto? Como uma instituição conseguiu captar tanto dinheiro oferecendo 140% do CDI em um mercado onde essa rentabilidade era claramente insustentável?
A resposta passa pela própria existência do FGC. Na prática, muitas instituições usavam a garantia do fundo como argumento de venda. “Não tem risco, se quebrar o FGC paga”, era o discurso. Isso criou um incentivo perverso: bancos podiam tomar mais riscos porque sabiam que, no pior cenário, o FGC arcaria com o prejuízo até R$ 250 mil por cliente.
O problema é que o FGC é mantido pelas contribuições mensais feitas pelos bancos e demais instituições financeiras. O fundo acumula esse dinheiro ao longo do tempo para atuar em intervenções e liquidações de instituições financeiras. Ou seja, quando uma instituição quebra, quem paga a conta são todos os outros bancos — e, indiretamente, todos os correntistas através de tarifas e spreads.
É um sistema que socializa os prejuízos e privatiza os lucros. Enquanto o Master estava ganhando dinheiro oferecendo rentabilidades elevadas, os donos embolsavam os lucros. Quando quebrou, o prejuízo foi dividido entre todos. Críticos libertários argumentam que esse é um dos problemas de qualquer sistema de “seguro” obrigatório financiado coletivamente: cria incentivos para comportamentos mais arriscados.
As lições que ficam para o investidor individual
A primeira lição é clara: rentabilidade muito acima da média do mercado deve ser vista como sinal de alerta, não como oportunidade imperdível. Quando o Master oferecia 140% do CDI em um momento em que a maioria pagava 100% a 110%, havia algo errado. O mercado livre raramente oferece almoço grátis.
A segunda lição é sobre diversificação. Quem concentrou todo o patrimônio no Master sofreu não apenas o stress da quebra, mas também dois meses sem rendimento. A cobertura segue o limite de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por conglomerado financeiro. Isso significa que valores acima desse teto ficam desprotegidos.
A terceira lição é sobre a falsa segurança que garantias estatais podem proporcionar. O FGC cumpriu seu papel, mas o custo foi alto: dois meses de dinheiro parado, sem correção. Para quem dependia da renda mensal desses investimentos, o impacto foi significativo. E para valores acima de R$ 250 mil, a garantia simplesmente não existe.
Na perspectiva libertária, é fundamental entender que, no livre mercado, risco e retorno andam juntos. Quando alguém promete retorno alto sem risco — especialmente apoiado em “garantias” estatais — desconfie. O Estado não cria riqueza, apenas a redistribui. E toda redistribuição tem custos que acabam sendo pagos por alguém.
O futuro do FGC após esta operação
A operação Master representa um marco na história do FGC. Até agora, o maior desembolso do FGC havia sido com a quebra do Bamerindus, em 1997, quando foram devolvidos R$ 20 bilhões, considerando valores atuais. O pagamento de R$ 40,6 bilhões dobra esse recorde e compromete significativamente os recursos do fundo.
Há sinais de que o próprio FGC pode repensar suas regras. A facilidade com que instituições usavam a garantia como argumento de venda preocupa reguladores. É possível que vejamos mudanças nas regras de cobertura, valores garantidos, ou mesmo na forma como a garantia é comunicada ao público.
O sistema atual incentiva a concentração de risco em instituições menores, já que oferecem rentabilidades mais altas justamente porque precisam compensar o maior risco que representam. Com a garantia do FGC, investidores se sentem protegidos até R$ 250 mil, mas esquecem que essa proteção tem limites e custos.
Observadores libertários questionam se realmente precisamos de um sistema que socializa os prejuízos desta forma. Em um mercado verdadeiramente livre, investidores assumiriam integralmente os riscos de suas escolhas, o que os tornaria naturalmente mais cautelosos. Instituições mais arriscadas teriam dificuldade para captar recursos, forçando-as a adotar práticas mais conservadoras.
O pagamento dos R$ 40,6 bilhões é uma boa notícia para quem tinha dinheiro no Master. Mas também serve como lembrete de que não existe mágica na economia: alguém sempre paga a conta. No caso do FGC, quem paga são todos os usuários do sistema financeiro, através das contribuições que os bancos repassam nas tarifas e spreads. É uma forma indireta, mas real, de transferência de renda dos prudentes para os que assumiram riscos excessivos.
No final das contas, o episódio Master mostra tanto os méritos quanto os problemas de sistemas de proteção estatal. O FGC cumpriu sua função e evitou um prejuízo maior para 800 mil pessoas. Mas também criou um incentivo para que comportamentos arriscados fossem assumidos tanto por investidores quanto por instituições financeiras. É o dilema clássico de qualquer intervenção estatal: resolve um problema imediato, mas pode criar distorções que geram problemas futuros ainda maiores.
Será que não é hora de questionar se realmente precisamos de tantas “proteções” que acabam transferindo os custos da irresponsabilidade de poucos para a responsabilidade de muitos?
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 17/01/2026 22:47



