Dentre os chefes de Estado do Mercosul, somente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não irá à assinatura do acordo de livre comércio com a União Europeia, marcada para este sábado em Assunção, capital do Paraguai. A zona de livre comércio reúne cerca 720 milhões de pessoas e um PIB de mais de US$ 22 trilhões. Enquanto isso, críticos apontam que o petista optou por uma estratégia que está gerando questionamentos entre os parceiros sul-americanos.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
Acordo histórico sai sem o Brasil protagonista
Os presidentes Javier Milei (Argentina), Yamandú Orsi (Uruguai) e Rodrigo Paz (Bolívia), além de Santiago Peña (Paraguai) estarão presentes na cerimônia. Todos os líderes do bloco sul-americano comparecerão ao evento histórico. Todos, exceto Lula. Lula não comparecerá ao evento e será representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Observadores políticos questionam se essa ausência reflete uma estratégia controversa do governo brasileiro. O acordo negociado há 26 anos finalmente sai do papel, mas há quem interprete que o país que se posicionou como protagonista das negociações ficará de fora do momento histórico. É uma situação que chama atenção dos analistas.
A decisão ganha contornos ainda mais polêmicos quando se analisa o contexto político. Enquanto o Brasil ocupou a presidência rotativa do bloco, no segundo semestre de 2025, o presidente buscou se colocar como o principal negociador para a conclusão do acordo e tratou o tema como uma das prioridades de sua política externa. Agora, quando chega a hora de colher os frutos, críticos observam que o protagonista se ausenta.
O livre comércio é sempre benéfico para as economias envolvidas. Consumidores têm mais opções, empresas enfrentam maior concorrência e os preços tendem a cair. O acordo Mercosul-UE cria uma zona de livre comércio entre os países-membros dos dois blocos, com a eliminação de tarifas sobre cerca de 90% das exportações. Entre os produtos beneficiados, estão medicamentos, máquinas industriais, veículos e fertilizantes. São ganhos concretos para quem produz e consome.
A manobra do encontro paralelo no Rio
O presidente Lula se reuniu na sexta-feira com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e outros representantes do bloco no Rio de Janeiro. Ele celebrou a assinatura do acordo Mercosul-UE após o que chamou de “25 anos de sofrimento e tentativa”. O evento teve direito a pompa, fotos oficiais e discursos grandiosos.
Foi um evento com direito à pompa, “foto da vitória” de mãos dadas, discursos em que enalteceram o multilateralismo e uma visão de mundo compartilhada entre Brasil e União Europeia. Em seu discurso, Von der Leyen também elogiou diretamente o trabalho feito por Lula no assunto. A encenação foi completa, com todos os elementos de um grande feito diplomático.
Mas aqui está o problema: o acordo não foi assinado no Rio de Janeiro. A assinatura oficial acontece em Assunção, com a participação de todos os presidentes do Mercosul. O encontro do Rio foi, na prática, uma reunião preparatória transformada em evento midiático. Críticos sugerem que foi como comemorar a vitória antes da partida acabar.
Segundo reportagem da CNN Brasil, a ausência do presidente neste sábado dá ainda mais simbolismo da foto dele com as autoridades europeias no Rio como uma vitória pessoal. A perspectiva é que essas imagens sejam exploradas na campanha eleitoral deste ano como uma celebração de Lula no fechamento do acordo. Há quem interprete que a estratégia seja clara: criar a narrativa de que foi ele quem conseguiu o acordo, mesmo não estando presente no momento oficial.
O Mercosul tem regras, não caprichos presidenciais
O Mercosul funciona com presidência rotativa a cada seis meses. O país sedia a cerimônia por exercer a presidência rotativa do bloco sul-americano. Santiago Peña, presidente do Paraguai, assumiu a presidência do bloco em janeiro de 2026. É ele quem deve assinar o acordo em nome do Mercosul, seguindo as regras institucionais.
A expectativa do governo federal era de que o texto tivesse sido assinado em Foz do Iguaçu, em dezembro do ano passado, ainda com o Mercosul sob presidência brasileira. Críticos observam que o governo brasileiro teria preferido que o acordo fosse fechado durante sua gestão na presidência rotativa. Como isso não aconteceu, há quem interprete a reação como um gesto de ausência da cerimônia oficial.
Essa postura, segundo analistas, reflete uma mentalidade problemática em relação às instituições. O Mercosul não é propriedade de nenhum país específico. É um bloco comercial com regras claras de funcionamento. Quando um presidente decide se ausentar porque não conseguiu o protagonismo desejado, críticos apontam que está colocando interesses pessoais acima do interesse institucional.
A crítica libertária aqui é evidente: instituições funcionam melhor quando seguem regras impessoais, não quando se dobram aos caprichos de lideranças. O livre comércio é benéfico independentemente de quem assina os papéis. O importante é reduzir barreiras, não criar narrativas políticas.
Tensões com vizinhos sul-americanos
A ausência de Lula no evento chamou atenção dos demais países do Mercosul. Os parceiros comerciais esperavam ver todos os presidentes presentes em um momento histórico para o bloco. A ausência brasileira certamente não passou despercebida nas capitais vizinhas.
A situação se torna mais delicada quando se considera o contexto político regional. Javier Milei, presidente da Argentina, tem ganhado destaque internacional com suas políticas de livre mercado. Luis Lacalle Pou deixou o Uruguai com uma economia mais estável. Até mesmo no Paraguai, tradicionalmente mais alinhado ao Brasil, há sinais de irritação.
Segundo relatos não confirmados oficialmente, autoridades argentinas teriam descrito a manobra brasileira como “desrespeitosa”. A percepção, segundo críticos, é de que o Brasil quer os benefícios da integração regional, mas apenas quando pode levar todo o crédito. Essa atitude, na visão de analistas, mina a confiança necessária para parcerias comerciais duradouras.
Do ponto de vista econômico, essa postura é contraproducente. O livre comércio funciona melhor quando há confiança mútua entre os parceiros. Gestos que demonstram ego político em detrimento da cooperação comercial prejudicam todos os envolvidos. As empresas que poderiam se beneficiar do acordo acabam pagando o preço da vaidade presidencial.
Acordo já foi assinado antes e questionado pela oposição
É importante lembrar que este não é o primeiro acordo entre Mercosul e União Europeia. Em 2019, durante o governo Bolsonaro, um acordo similar já havia sido negociado. Na época, a oposição brasileira e grupos de esquerda europeus fizeram campanha contra a ratificação nos parlamentos.
A assinatura marca um tratado negociado há mais de duas décadas, atravessado por impasses políticos e resistências internas no bloco europeu, sobretudo da França, maior produtora de carne bovina da União Europeia. Há quem aponte a ironia: os mesmos setores que hoje celebram o acordo foram os que trabalharam para derrubar a versão anterior.
Essa situação, segundo críticos, mostra como considerações político-partidárias frequentemente se sobrepõem aos benefícios econômicos concretos para a população. A oposição questionou um acordo de livre comércio quando ele seria creditado a Bolsonaro, mas agora o celebra quando pode ser atribuído a Lula.
Essa inconsistência, na visão de analistas, prejudica a credibilidade das negociações comerciais brasileiras. Se os acordos dependem mais da cor política de quem governa do que de seus méritos econômicos, outros países podem hesitar em negociar com o Brasil. A instabilidade política se traduz em instabilidade comercial.
O que realmente importa para o cidadão
A implementação será gradual, com prazo estimado de 8 a 12 anos. Independentemente das disputas políticas, o acordo pode trazer benefícios concretos para consumidores e empresários brasileiros. Mais opções de produtos, maior competição e, teoricamente, preços menores.
Com a assinatura do acordo, ainda será necessário que o Parlamento Europeu e o Legislativo dos países do Mercosul aprovem o tratado para que ele entre em vigor. Ou seja, o caminho ainda é longo. A assinatura é apenas o primeiro passo de um processo que pode levar anos.
O Parlamento Europeu marcou para a próxima quarta-feira a votação de dois pedidos de eurodeputados para levar o acordo à avaliação do Tribunal de Justiça da União Europeia. O Tribunal avalia os fundamentos jurídicos do acordo. Caso a Corte dê parecer negativo sobre o tratado, suas regras não podem entrar em vigor a menos que seu conteúdo seja alterado.
Para o cidadão comum, o importante é que o acordo realmente funcione. Que as tarifas sejam reduzidas, que haja mais competição e que os preços caiam. O protagonismo político é irrelevante se os benefícios econômicos não chegarem ao consumidor final. O mercado não liga para vaidades presidenciais – ele responde a incentivos e oportunidades.
Livre comércio não precisa de heróis políticos
A verdade inconveniente é que o livre comércio funciona melhor quando os políticos ficam de fora. Quanto menos interferência estatal, mais eficiente é a troca voluntária entre pessoas e empresas de diferentes países. O acordo Mercosul-UE é benéfico não por causa de Lula, Milei ou qualquer outro presidente, mas porque reduz barreiras artificiais ao comércio.
A obsessão pelo protagonismo político mostra como o Estado brasileiro funciona: tudo precisa passar pela figura do líder supremo. É uma mentalidade que críticos libertários classificam como autoritária disfarçada de diplomacia. Em países com instituições mais maduras, acordos comerciais são tratados como políticas de Estado, não como troféus pessoais de presidentes.
O exemplo dos Estados Unidos é ilustrativo. O NAFTA foi negociado por Bush pai, assinado por Clinton e implementado independentemente das mudanças de governo. Lá, o acordo funcionou porque estava acima das disputas partidárias. Aqui, cada governo quer seu próprio acordo para chamar de seu.
Essa personalização excessiva da política econômica prejudica a previsibilidade dos negócios. Empresários precisam saber que os acordos comerciais não serão desfeitos a cada troca de governo. Quando tudo depende da vontade presidencial, não há segurança jurídica nem estabilidade para investimentos de longo prazo.
A lição é clara: instituições fortes são melhores que líderes fortes. O livre comércio precisa de regras estáveis, não de heróis políticos. Enquanto o Brasil continuar tratando acordos comerciais como conquistas pessoais de presidentes, será difícil construir uma política comercial consistente e duradoura.
A ausência de Lula em Assunção simboliza, na visão de críticos, tudo que está errado na política brasileira: o ego acima do interesse nacional, a narrativa acima dos fatos, o protagonismo acima das instituições. O acordo pode ser bom para o país, mas a forma como está sendo conduzido revela a imaturidade política que ainda nos atrasa.
E você, o que pensa sobre essa postura do governo brasileiro? Vale a pena sacrificar a diplomacia regional em nome do marketing político interno?
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 17/01/2026 10:26
Fontes
- CNN Brasil – Sem Lula, presidentes do Mercosul irão ao Paraguai assinar acordo com UE
- Gazeta do Povo – Lula não participará da assinatura do acordo entre Mercosul e União Europeia
- ND Mais – Lula não participa da assinatura do acordo Mercosul-UE neste sábado
- Metrópoles – Sem ir à assinatura de acordo, Lula comemora parceria UE-Mercosul



