São Paulo gastou pelo menos R$ 336 milhões em 2013 apenas para limpar os estragos das enchentes. Em fevereiro de 2025, dois dias de chuva trouxeram 65% do esperado para o mês inteiro. O resultado? Moradores do Jardim Pantanal ficaram ilhados por seis dias consecutivos, transformando um bairro inteiro numa ilha urbana. Críticos urbanistas apontam que não foi acidente meteorológico. Foi consequência de décadas de planejamento que priorizou o asfalto sobre a água.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
A cidade que declarou guerra aos próprios rios
São Paulo nasceu entre águas. Os jesuítas escolheram estrategicamente um terreno alto cercado pelos rios Tamanduateí e pelo córrego Anhangabaú. O que deveria ser vantagem natural virou pesadelo urbano pela simples razão: a cidade cresceu ignorando completamente a existência da água.
Em janeiro de 2025, as chuvas deixaram 32 pontos de alagamento ativos no pior momento, sendo 10 intransitáveis. A questão é que isso acontece todo verão há mais de 180 anos. Os primeiros registros de enchente em São Paulo são anteriores a 1840, quando o rio Tamanduateí já inundava vários bairros.
Em 1887, uma enchente histórica atingiu 8 metros de altura no Tietê, cobrindo o pavimento de quase todas as casas térreas da região. O relatório da época já alertava para o problema, mas as autoridades preferiram construir pontes e aterros ao invés de respeitar o espaço natural da água.
O maior erro da cidade aconteceu no começo do século XX. O engenheiro Francisco Saturnino de Brito propôs preservar as margens do Tietê e Pinheiros como grandes parques lineares. Sua ideia era criar áreas de mais de 1 km de largura ao longo de toda a região urbana, permitindo que os rios funcionassem como deveriam.
O plano que selou o destino das enchentes
Mas São Paulo escolheu o caminho oposto. O plano de avenidas de Prestes Maia venceu, canalizando e retificando os rios, cobrindo-os com as marginais que conhecemos hoje. A cidade quis ser a Chicago da América do Sul e decidiu esconder seus rios sob camadas de asfalto.
Maurício Wyer, autor do artigo “Os rios Enterrados de São Paulo”, descreve a situação como “um cadáver de rio sem nome, sem história, sem o seu Deus, que foi enterrado e como lápide tem hoje sobre si a Avenida Hélio Pellegrino”. O rio continua passando, só que agora como uma assombração urbana.
As retificações e canalizações dos rios alteraram completamente a condição hidrológica da bacia do Alto Tietê. São Paulo priorizou o crescimento econômico sem respeitar os limites naturais. O resultado é que o trânsito chegou a 520 km de congestionamento em uma noite de janeiro, volume anormal mesmo para os padrões paulistanos.
Enquanto isso, as linhas do metrô só voltaram ao normal depois das 20h55, e a linha 12-Safira continuou interrompida após um raio derrubar a energia. Não é só a água que para quando chove em São Paulo. É a cidade inteira.
Jardim Pantanal: quando remover custa mais que resolver
O prefeito Ricardo Nunes anunciou que a solução para o Jardim Pantanal é esvaziar o bairro, retirando os 45 mil moradores com indenizações. O custo? Estudos de 2021 apontam R$ 1,9 bilhão para remover as famílias, valor superior aos R$ 1 bilhão a R$ 1,3 bilhão necessários para obras de contenção das enchentes.
Na primeira semana de fevereiro de 2025, moradores ficaram ilhados por sete dias na pior enchente dos últimos 15 anos. Robson da Silva Brasílio acordou com água na altura do berço da filha de 9 meses, sendo obrigado a tirar a família pela janela.
O pôlder prometido em 2023 para minimizar alagamentos ainda não funciona, gerando revolta entre moradores que convivem com o descaso. A prefeitura informou que deve começar a funcionar em 45 dias, mas enquanto isso as famílias seguem à mercê das águas do Tietê.
Como explica a comerciante Jacilene Geraldo: “Quando entra dezembro, janeiro e fevereiro, a gente já sabe que vai acontecer. Antigamente eram a cada oito ou dez anos. Agora, é a cada dois”. A frequência aumentou, mas a preparação continua a mesma: nenhuma.
57% de concreto: quando a cidade vira uma panela de pressão
Segundo dados do projeto MapBiomas, mais da metade de São Paulo é coberta por concreto, asfalto e telhado: 57% da superfície. Em 1985, esse número era de 52%. Em três décadas, a cidade ficou ainda mais impermeável, enquanto as chuvas ficaram mais intensas.
O professor Pedro Cortes da USP explica que o sistema de drenagem foi projetado para outro clima. A rede de águas pluviais foi baseada em padrões subtropicais, quando chovia menos e de forma mais distribuída. Hoje as tempestades são rápidas, concentradas e muito mais fortes.
Em janeiro de 2025, a Defesa Civil enviou o primeiro alerta “severo” via cellbroadcast para celulares 5G na capital: “Chuva forte se espalhando pela capital paulista com rajadas de vento e risco de alagamento. Mantenha-se em local seguro”.
A manutenção das redes é precária. Muitas galerias têm mais de 40 anos sem reforma, com bueiros entupidos e obras eternamente atrasadas. São Paulo gera mais de 20 mil toneladas de resíduos por dia, e parte significativa acaba nas bocas de lobo e córregos, causando entupimentos constantes.
Piscinões: a cirurgia que não cura a doença
A principal aposta da cidade são os piscinões. São Paulo tem 55 piscinões ativos e oito em construção, com capacidade total de 853 mil metros cúbicos e investimento de R$ 1,6 bilhão nos últimos quatro anos. O equivalente a mais de 340 piscinas olímpicas de capacidade.
O piscinão Jaboticabal entrou em operação em dezembro de 2024, beneficiando 1,5 milhão de pessoas no ABC e capital, com capacidade para 900 mil metros cúbicos. São números impressionantes, mas especialistas questionam se essa é realmente a solução.
Para Paulo Pellegrino, professor do IEA-USP, “é que nem uma ponte de safena num infartado: funciona, mas o sujeito não está mais com saúde. É uma solução artificial que vai dando uma sobrevida, mas não é a solução definitiva”.
O engenheiro Filipe Falcetta explica que o preço dos piscinões “é alto em vários aspectos. No social e ambiental, porque você não tem só água, você tem lixo, sedimento, várias coisas chegando, o que torna elas muito caras para construir e manter”.
O custo real de ignorar a natureza
Cada grande alagamento causa cerca de R$ 62 milhões em prejuízos à economia nacional. São perdas no comércio, transporte e produtividade que se acumulam ano após ano. No episódio do Jardim Pantanal em 2025, foram entregues mais de 43 mil refeições e 1.424 famílias receberam cartão emergencial de R$ 1.000.
Mas o custo humano é ainda maior. Em janeiro, 13.190 raios atingiram a capital durante as tempestades, sendo 6.292 no solo. Em Carapicuíba, mais de 100 residências alagaram e uma pessoa foi arrastada pela correnteza.
Em 2016, 25 pessoas morreram após chuvas fortes. Em 2019, foram pelo menos 12 mortes. Em 2025, ao menos 18 pessoas morreram por causa das chuvas intensas em todo o estado. Números que se repetem com regularidade estatística de um país que não aprende com os próprios erros.
A atual gestão aplicou R$ 8,4 bilhões em drenagem, obras e manutenções – aumento de 111% em relação ao período anterior. Mesmo assim, famílias do Jardim Pantanal ainda tentam se recuperar mais de um mês após as enchentes, com pouco apoio do poder público.
Soluções existem, mas falta coordenação
As alternativas não são mistério. O parque ecológico do Tietê, na zona leste, funciona como uma esponja natural, absorvendo bilhões de litros de água. O conceito não é novo: vem de Francisco Saturnino de Brito, que no começo do século XX já defendia parques lineares.
O projeto Várzeas do Tietê, iniciado em 2009, tem a ideia de ser o maior parque linear do mundo. A proposta é transformar margens degradadas em corredor ecológico e de lazer. Mas como tudo no Brasil, não tem plano centralizado nem prestação de contas do que foi realmente executado.
Há também soluções menores, mas eficazes: calçadas permeáveis, telhados verdes e o IPTU verde. A prefeitura concede desconto no IPTU para imóveis que adotarem calçadas permeáveis e tiverem árvores. Uma solução que reduz imposto ao invés de criar mais taxas – algo raro na administração pública brasileira.
O grande obstáculo é a falta de coordenação. As obras de drenagem, habitação e transporte são planejadas separadamente, reduzindo drasticamente o efeito de qualquer política. Com o fim da Emplasa, São Paulo ficou sem planejamento metropolitano conjunto.
Lições internacionais que o Brasil ignora
Em Seul, na Coreia do Sul, um rio enterrado por décadas foi desenterrado e virou o parque linear Cheonggyecheon. A área verde reduziu enchentes e revitalizou o centro da cidade em apenas 4 anos. Um rio poluído que se transformou em solução urbana.
Aqui, movimentos como Rios e Ruas tentam seguir o mesmo espírito. Arquitetos, artistas e ativistas percorrem São Paulo mostrando nascentes escondidas e redesenhando nas calçadas o caminho dos córregos soterrados. O projeto criado pelo arquiteto José Bueno e pelo geógrafo Luís de Campos já mapeou 800 cursos d’água escondidos sob o concreto.
A ideia é simples: lembrar que o que a cidade tenta apagar, a natureza insiste em revelar. Os rios continuam lá embaixo, correndo sob o asfalto. E toda vez que chove forte, eles voltam para cobrar a dívida histórica de quem os ignorou.
Quando o Estado promete resolver problemas que ele mesmo criou, alguém sempre paga a conta. E esse alguém nunca são os políticos que tomaram as decisões erradas décadas atrás.
A perspectiva libertária: quando o planejamento estatal falha
Na visão libertária, o caso das enchentes paulistanas ilustra um padrão preocupante: décadas de planejamento centralizado que ignorou sinais de mercado e conhecimento local. Engenheiros e urbanistas alertavam sobre os riscos desde o século XIX, mas o poder público priorizou soluções que atendiam interesses imobiliários de curto prazo.
Críticos libertários argumentam que esse modelo de desenvolvimento urbano – onde burocracias decidem como milhões de pessoas devem viver – inevitavelmente produz distorções. Quando decisões são tomadas por quem não sofre as consequências, os incentivos ficam desalinhados com o bem-estar real da população.
O resultado? Orçamentos bilionários que não resolvem problemas centenários, enquanto soluções mais simples são ignoradas. A cidade que poderia ter crescido respeitando seus rios hoje gasta fortunas tentando domar a natureza que desrespeitou.
A conta que nunca para de crescer
São Paulo gasta muito para resolver o problema depois que acontece e pouco para evitar que aconteça. Piscinões, parques e programas verdes são importantes, mas ainda são remédios para uma doença que poderia ter sido evitada com planejamento correto.
O problema das enchentes não está só em São Paulo. Está espalhado por todo o Brasil, reflexo de um modelo de desenvolvimento que trata a natureza como obstáculo ao progresso. Planejamento pífia, execução pior ainda, e quem paga a conta é sempre o cidadão comum.
Enquanto a cidade insistir em lutar contra a água, vai continuar perdendo. Os rios estão lá, vivos, correndo sob o concreto. E toda vez que chove forte, eles lembram que foram esquecidos, mas não desapareceram.
Diante de tudo isso, a pergunta que fica é: até quando vamos aceitar pagar essa conta cada vez mais cara de decisões tomadas há décadas por pessoas que nunca sofreram as consequências dos próprios erros?
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 14/01/2026 17:06
Fontes
- Agência Brasil – TJSP determina instalação da CPI das Enchentes no Jardim Pantanal
- Band – Jardim Pantanal: remoção de moradores custa mais que obras e chega a R$ 1,9 bi
- Brasil de Fato – Mais de um mês depois das enchentes, famílias do Jardim Pantanal tentam se recuperar
- Metrópoles – Prefeitura de SP bate cabeça em busca de solução para Jd. Pantanal
- ICL Notícias – Vereadora acusa Prefeitura de SP reduzir investimentos no combate à enchentes



