A Venezuela de 2026 não passa de uma sombra do que foi um dia. O PIB per capita saltou de US$ 4.776 no ano 2000 para um pico de US$ 13.646 em 2010, no auge da era Hugo Chávez, sustentada por um barril de petróleo a preços recordes. Em 2020, o PIB per capita da Venezuela, de US$ 1.506, regressou a patamares nominais próximos aos de 1973. Foram 50 anos de progresso apagados em uma década de crise.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
Como um país rico virou sinônimo de fracasso
Entre as décadas de 1950 e 1980, o petróleo financiou grandes obras públicas, sustentou uma moeda estável e permitiu um poder de compra elevado. A Venezuela era destino de milhões de imigrantes em busca do “Eldorado sul-americano”. O país tinha infraestrutura moderna, classe média próspera e uma das economias mais estáveis da região.
Mas o equilíbrio começou a ruir no início da década de 1980, quando a queda dos preços do petróleo expôs a fragilidade de uma economia excessivamente dependente de uma única fonte de rendimento. A desvalorização do bolívar, a inflação e o aumento da pobreza marcaram o período, após anos de endividamento e fraca diversificação econômica. O Estado venezuelano nunca aprendeu a viver sem as receitas fáceis do petróleo.
A crise dos anos 80 preparou o terreno para o que viria. Em 1989, a tensão acumulada chegou às ruas. O aumento dos preços dos combustíveis e dos transportes levou a protestos generalizados, que rapidamente se transformaram em saques e confrontos. O Caracazo deixou centenas de mortos e marcou uma ruptura profunda na relação entre o poder político e a população. Foi nesse cenário de revolta popular que emergiu a figura de Hugo Chávez.
Em 1992, o então tenente-coronel Hugo Chávez liderou tentativas de golpe militar que falharam, mas o tornaram conhecido em todo o país. Em 1998, foi eleito presidente, dando início a uma nova fase política marcada pela aprovação de uma nova Constituição e pelo reforço do papel do Estado na economia. O que poucos imaginavam é que essa “revolução bolivariana” transformaria sistematicamente as bases da prosperidade venezuelana.
A transformação sistemática da economia venezuelana
O bolivarianismo transformou a economia e a sociedade venezuelanas. Entre as suas principais diretrizes, o governo direcionou o excedente dos recursos gerados pela produção do petróleo, o principal recurso natural do país, para financiar programas sociais que mudaram a forma como a riqueza era distribuída. Na superfície, o projeto parecia nobre: usar a riqueza petrolífera para reduzir a pobreza.
Na prática, críticos argumentam que o chavismo criou uma máquina de clientelismo que comprometeu a capacidade produtiva do país. O grito de guerra “expropriem-se” tornou-se símbolo da gestão de Hugo Chávez. Empresas privadas foram nacionalizadas ou tiveram suas operações dificultadas por controles de preço e regulamentações.
Em junho de 2010, Chávez declarou uma “guerra econômica” devido ao aumento das escassezes na Venezuela. A crise intensificou-se sob o governo de Maduro, agravando-se em razão de preços baixos do petróleo em 2015, e da queda na produção de petróleo devido à falta de manutenção e investimento. O Estado venezuelano não conseguia nem mesmo manter funcionando sua principal fonte de receitas.
Os números são reveladores: em 2012, antes de Maduro se tornar líder do país caribenho, a Venezuela produzia 2,67 milhões de barris de petróleo por dia. Com Maduro, a produção atingiu o fundo de poço em 2020, quando ficou em 544.522 barris por dia. Em 2024, o índice havia melhorado, mas ficou em apenas 893.470 barris por dia, bem aquém do patamar anterior ao chavismo. Uma queda de quase 70% na produção da principal fonte de riqueza do país.
O desastre humanitário que se seguiu
Mais de 20 milhões de venezuelanos, de uma população de 28,8 milhões, vivem em situação de pobreza multidimensional devido à precariedade econômica e à deterioração dos serviços públicos, tendo perdido irreversivelmente seus meios de apoio e subsistência. Esse dado sozinho revela a magnitude da situação: mais de dois terços da população venezuelana vive na pobreza.
A população venezuelana enfrenta fome, que afeta 5,1 milhões de pessoas. Um país que já foi o mais próspero da região agora não consegue alimentar seus cidadãos. Pelo menos alguns medicamentos essenciais não estavam disponíveis em 28,4% dos estoques farmacêuticos do país, e vários dos medicamentos disponíveis eram inacessíveis financeiramente para grande parte da população. A escassez de remédios transformou doenças simples em desafios sérios para a população.
Por volta de 2017, a fome escalou ao ponto em que quase 75% da população havia perdido uma média de mais de 8 kg, e mais da metade não tinha renda suficiente para atender às suas necessidades básicas de alimentação. O “Socialismo do Século XXI” conseguiu o que parecia impossível: fazer um país rico enfrentar escassez alimentar.
20% dos venezuelanos (5,4 milhões) haviam deixado o país até 2021, e cerca de 7,7 milhões de pessoas emigraram até 2024. O êxodo de milhões de venezuelanos empobrecidos tem sido descrito como “um risco para toda a região”. A Venezuela se transformou no maior exportador de refugiados econômicos da América Latina.
Maduro: de sucessor a aprofundamento da crise
Após a morte de Chávez em 2013, o então vice Nicolás Maduro assumiu o comando. Sob sua gestão, observadores apontam que o país entrou em colapso total. Se Chávez plantou as sementes da transformação radical, Maduro as aprofundou de forma intensiva.
Desde que Nicolás Maduro assumiu a liderança do regime da Venezuela em 2013, o país tem testemunhado uma intensificação do que críticos chamam de “autoritarismo chavista”, acompanhado por uma onda repressiva que, segundo organizações internacionais, praticamente impede a existência pacífica de uma oposição organizada, além de uma crise econômica que se agravou significativamente. Enquanto Chávez estabeleceu e consolidou as bases do chavismo, analistas argumentam que Maduro levou esses aspectos a novos extremos.
A repressão tornou-se ferramenta de manutenção do regime, segundo organizações de direitos humanos. Opositores enfrentam condições que defensores dos direitos humanos descrevem como isolamento total em prisões, relatadas como mecanismos onde não é permitido sequer o acesso à luz solar. O governo venezuelano abandonou qualquer pretensão democrática e passou a governar pela força, na avaliação de observadores internacionais.
A ONU relatou 5.287 homicídios pelas Forças de Ação Especial em 2017, e pelo menos outros 1.569 homicídios nos primeiros seis meses de 2019, afirmando que alguns desses crimes foram “realizados como retaliação pela participação das vítimas em manifestações antigovernamentais”. O Estado venezuelano virou, na visão de organizações internacionais, máquina de repressão contra sua própria população.
A repressão intensificada pelo regime de Maduro foi novamente a principal ferramenta para silenciar os indivíduos que contestaram os resultados eleitorais, segundo relatórios de direitos humanos. Os protestos favoráveis à oposição foram duramente reprimidos, resultando em mais de 1,7 mil prisões, 24 mortes, segundo a HRW, e investigações que críticos consideram infundadas contra diversos dissidentes.
As eleições questionáveis de 2024
Em agosto de 2024, Nicolás Maduro, no poder há 11 anos, foi novamente declarado vencedor das eleições presidenciais com 51,2% dos votos pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), presidido por um aliado de Maduro. A oposição contestou os números, afirmando que o candidato rival, Edmundo González, venceu com 70% dos votos. Mais uma vez, críticos internacionais questionaram a transparência do processo eleitoral.
Acadêmicos, veículos de notícias e a oposição forneceram “evidências sólidas” para sugerir que González venceu a eleição por uma ampla margem, segundo relatórios internacionais. O Conselho Nacional Eleitoral controlado pelo governo anunciou resultados alegando uma vitória apertada de Maduro em 29 de julho. A diferença entre as investigações independentes e o resultado oficial foi significativa.
Em 2024, uma nova eleição sem a apresentação das atas de votação tentou garantir o mandato de Maduro até 2031. Para analistas políticos, a Venezuela perdeu-se em abusos políticos e repressão, resultando em uma deterioração clara da democracia. O regime nem sequer tentou demonstrar transparência no processo eleitoral, na avaliação de observadores internacionais.
Segundo uma pesquisa local, após a eleição, 43% dos venezuelanos entrevistados consideravam deixar o país. Algumas pessoas já fugiram do país, incluindo políticos, membros de seções eleitorais e eleitores. A resposta da população foi clara: mais um êxodo em massa de um país que se tornou praticamente inviável para muitos.
O isolamento internacional e suas consequências
O regime de Maduro também enfrentou um crescente isolamento internacional. As sanções impostas por países e blocos internacionais, como a União Europeia e os Estados Unidos, visam limitar suas capacidades financeiras e políticas, o que dificultou as relações comerciais da Venezuela. As restrições internacionais se intensificaram à medida que o regime continuou a reprimir cada vez mais a oposição e a violar de forma sistemática os direitos humanos, segundo organizações internacionais.
Em 15 de fevereiro de 2024, o governo Maduro fechou o escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos em Caracas, após o Comissário Volker Türk condenar a detenção da ativista Rocío San Miguel, exigindo “sua imediata liberação e respeito ao seu direito à defesa legal”. O governo expulsou os funcionários da ONU, com prazo de 72 horas para que deixassem o país. O regime venezuelano chegou ao ponto de expulsar observadores da ONU.
Com a economia fragilizada, a Venezuela buscou alianças ideológicas e comerciais mais estreitas com países como Cuba, Irã e Rússia, afastando-se das democracias ocidentais. O isolamento forçou o país a depender de regimes igualmente questionados internacionalmente e economicamente problemáticos.
As sanções, embora criticadas por alguns setores, refletem o reconhecimento internacional de que o regime venezuelano perdeu legitimidade democrática significativa. Uma pesquisa Meganálisis de setembro de 2018 constatou que 85% dos venezuelanos queriam que Maduro deixasse o poder imediatamente. Uma pesquisa realizada em março de 2019 revelou que 89% dos entrevistados desejavam que Maduro deixasse a presidência. Raramente um governo teve rejeição tão absoluta de sua própria população.
As lições do desastre venezuelano para o mundo
A Venezuela tornou-se laboratório do que acontece quando o Estado assume controle excessivo sobre a economia, na análise de economistas liberais. É a pior crise econômica na história da Venezuela e a pior enfrentada por um país em tempo de paz desde meados do século XX. Frequentemente, a crise é considerada mais severa do que a Grande Depressão nos Estados Unidos, a crise econômica brasileira de 1985–1994 ou a hiperinflação no Zimbábue.
A experiência venezuelana deveria servir de alerta para qualquer sociedade que considere promessas de controle estatal extensivo da economia, argumentam defensores do livre mercado. A extrema gestão econômica intervencionista sob Maduro e seu antecessor Hugo Chávez — que desencadeou a hiperinflação e levou cerca de oito milhões de venezuelanos a emigrar — comprometeu significativamente a base empresarial e produtiva do país. O “Socialismo do Século XXI” revelou-se uma máquina de destruição de riqueza sem precedentes na história recente.
Uma pesquisa Datincorp de novembro de 2016 revelou que 59% culpavam o chavismo ou os presidentes (Chávez, 25%; Maduro, 19%; chavismo, 15%), enquanto outros responsabilizavam a oposição (10%), os empresários (4%) e os Estados Unidos (2%). A própria população venezuelana reconhece que o chavismo é o principal responsável pela transformação nacional.
Na perspectiva libertária, a experiência venezuelana demonstra os perigos de concentração excessiva de poder estatal. Políticas de controle de preços, expansão descontrolada do Estado e hostilidade ao setor privado produzem resultados previsíveis: empobrecimento, autoritarismo e êxodo populacional. Para defensores da liberdade econômica, onde há concentração excessiva de poder estatal, há sempre risco de abuso.
A Venezuela demonstra que regimes que prometem “justiça social” através do controle estatal extensivo da economia frequentemente entregam o mesmo resultado: miséria generalizada e opressão política, segundo análises libertárias. Liberdade econômica e liberdade política são inseparáveis – quando uma é comprometida, a outra inevitavelmente segue o mesmo caminho, argumentam defensores do livre mercado.
O que restou de um sonho bolivariano
“A atual crise migratória e humanitária complexa que a Venezuela enfrenta demonstra que, apesar de possuir uma das maiores riquezas mundiais em seu território, essa riqueza não se traduz em condições materiais dignas para sua população”, observam pesquisadores. O colapso econômico marcado pela hiperinflação e pela escassez de bens básicos, como alimentos e medicamentos, transformou a Venezuela, de um país historicamente receptivo a imigrantes, em uma nação que atravessa a maior crise migratória da história da América Latina.
Reverter essa queda histórica exigirá enorme habilidade política, apoio financeiro internacional substancial e muita paciência — e isso supondo que o país consiga uma transição ordenada, avaliam especialistas. Em um cenário mais turbulento, com os partidários do chavismo dificultando a mudança, a reconstrução da Venezuela se tornaria exponencialmente mais difícil. A transformação foi tão completa que mesmo uma mudança de regime levaria décadas para reconstruir o país.
O país, que já foi um dos mais ricos da América Latina, hoje sobrevive sob o peso de uma crise humanitária sem precedentes e um isolamento internacional crescente. A Venezuela passou de símbolo de prosperidade a exemplo mundial de colapso estatal. Vinte e cinco anos de chavismo transformaram um país próspero em Estado em crise profunda.
A tragédia venezuelana não é apenas estatística. São milhões de famílias afetadas, sonhos desfeitos e vidas perdidas para a fome, a violência e o desespero. O preço do socialismo autoritário sempre é pago pelos mais pobres – exatamente aqueles que os chavistas diziam defender. A conta chegou, e o povo venezuelano ainda está pagando.
Diante dessa catástrofe humanitária em curso, uma pergunta permanece para reflexão: que lições o mundo pode extrair da experiência venezuelana sobre os riscos do poder estatal excessivo? A resposta, certamente, influenciará debates futuros sobre o papel do Estado na economia.
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 14/01/2026 09:28
Fontes
- CNN Brasil – PIB da Venezuela chegou a cair 90% com Chávez e Maduro
- Gazeta do Povo – O desastre econômico e humanitário da Venezuela sob Maduro
- Conexão Política – PIB da Venezuela despencou quase 90% sob Chávez e Maduro
- ONU – Escritório do Alto Comissariado para os Direitos Humanos
- ACNUR – Estatísticas de Refugiados



