Imagine um mundo sem impostos obrigatórios, onde você escolhe qual governo quer pagar. Um lugar onde todas as regras que você obedece foram aceitas voluntariamente. Onde empresas privadas oferecem segurança e justiça no livre mercado. Parece utopia ou pesadelo? Para os anarcocapitalistas, é simplesmente liberdade em sua forma mais pura.
Nota editorial: Este artigo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens jornalísticas (com links para as fontes). Não imputa crimes, ilegalidades ou intenções a pessoas ou instituições. Limita-se à análise crítica de decisões e seus efeitos no debate público, sob perspectiva editorial libertária.
O paradoxo que confunde até os educados
O termo “anarcocapitalismo” causa estranhamento mesmo entre pessoas politicamente instruídas. A razão é simples: parece juntar extremos opostos numa única palavra. De um lado, o anarquismo tradicionalmente ligado à esquerda, que prega abolição da propriedade privada. Do outro, o capitalismo visto como extrema direita, baseado exatamente na propriedade privada e acumulação de capital.
Esta corrente política aparece durante a segunda metade do século XX dentro do libertarianismo e representa uma tentativa de conciliar conceitos historicamente antagônicos. Para muitos críticos, especialmente os de esquerda, a simples ideia de conectar os conceitos de anarquismo e capitalismo gera estranhamento. A direita também não entende: como misturar capitalismo com anarquia?
A confusão inicial deriva de um problema semântico. As diferentes definições desses termos criam interpretações conflitantes. Afinal, o capitalismo é conhecido pela esquerda como união dos donos de capital com o governo, baseado na definição marxista. A direita já faz distinção: governo é governo, mercado é mercado. Quando o mercado exige governo para funcionar, críticos chamam isso de “capitalismo de compadrio”.
Mas o capitalismo genuíno, segundo seus defensores, funciona com mínima interferência governamental. É exatamente essa definição que os anarcocapitalistas abraçam: livre mercado e propriedade privada, sem mais nada.
Definindo os termos sem paixões políticas
No anarcocapitalismo, livre mercado significa algo bem específico: o direito inalienável de qualquer pessoa vender algo de sua propriedade para outra pessoa, desde que isso seja feito voluntariamente. Ninguém é obrigado a vender nada para ninguém. Ninguém é obrigado a comprar nada de ninguém. Desde que seja voluntário, qualquer troca é legítima.
A propriedade privada na visão anarcocapitalista vai além do que muitos imaginam. É o direito básico fundamental do qual todos os demais direitos humanos derivam. Propriedade refere-se a qualquer bem escasso: terrenos, imóveis, utensílios de cozinha, bens pessoais, escova de dente. Não há distinção entre propriedade pessoal e propriedade dos meios de produção.
Se algo é escasso, existe a possibilidade de ser apropriado por alguém. A propriedade privada no conceito anarcocapitalista é a propriedade privada jusnaturalista. Se você foi o primeiro a usar, delimitar e defender um bem escasso, ele é seu. Ou você pode adquirir bens via troca voluntária.
O “anarquismo” aqui também difere do senso comum. Não significa ausência total de regras onde cada um faz o que quer. Isso seria absurdo e utópico, exigindo mudança na natureza humana. Entre pessoas normais, sem regra nenhuma seria caos total. O anarquismo anarcocapitalista significa apenas ausência de governo coercitivo.
A ética libertária como base universal
Pode até haver governo, desde que você só participe dele voluntariamente. O que não pode existir é governo coercitivo, porque isso é uma forma de escravidão. Os anarcocapitalistas acreditam na existência de um conjunto básico de regras chamado ética libertária. São normas absolutas que precisam ser obedecidas por todas as pessoas para a convivência pacífica.
Além dessas regras universais, as pessoas podem livremente fazer leis entre si através de contratos voluntariamente aceitos. Se você assina um contrato, se compromete com essas leis privadas. Mas de onde surge essa ética? Quem vai definir esse conjunto mínimo de regras que todo mundo precisa obedecer?
Esse conjunto pode ser descoberto por qualquer grupo que o procure. Trata-se de uma derivação jusnaturalista: as regras estão aí, basta descobri-las. Ninguém precisa criá-las. Qualquer conjunto de pessoas que busque logicamente um mínimo de regras para convivência pacífica chegará a regras muito parecidas.
Quanto mais gente entrar nesse processo, maior a tendência do mínimo de regras absolutas se resumir à ética libertária. Alguns anarcocapitalistas consideram possível derivar logicamente essas regras a priori. O exemplo mais avançado é a ética argumentativa, desenvolvida por Hans-Hermann Hoppe.
Governos privados no mercado
A grande inovação está na forma de definir as regras. Ao invés de um país obrigar todas as pessoas a aceitar o mesmo conjunto de regras usando força coercitiva, essas regras podem ser definidas pelo mercado. Empresas de leis privadas geram conjuntos de leis que as pessoas compram junto com a segurança associada a essas leis.
É exatamente a mesma ideia do governo atual. O governo se propõe a fornecer segurança para você em troca de aceitar obedecer determinadas leis, incluindo pagar impostos. A diferença é que você pode comprar o governo que achar melhor. Você não é obrigado a aceitar só um governo em função de onde nasceu ou mora.
Imagine empresas de segurança privada competindo para oferecer o melhor serviço pelo menor custo. Elas não precisariam sustentar centenas de deputados vivendo em condições luxuosas. Uma empresa ineficiente simplesmente faliria. Se o governo brasileiro tivesse concorrência, observadores libertários argumentam que iria falir rapidamente.
O mercado é eficiente em garantir os serviços pelo menor custo possível. Você pagaria uma mensalidade baixa mas teria grande segurança pessoal. Garantia de que não haverá crime, que pessoas não vão roubar seus bens nem agredi-lo. E se sofrer um acidente, seria cuidado pela empresa de segurança privada que escolheu.
Respostas para as objeções comuns
E se você encontrar problemas com sua empresa de leis privadas? E se ela não cumprir o contrato e começar a perseguir você? E se duas pessoas de empresas diferentes têm uma disputa judicial – qual lei aplicar? E quem cuidaria dos pobres sem dinheiro para pagar empresas de leis privadas?
Os anarcocapitalistas estudam essas questões há mais de um século e têm respostas para tudo. Algumas soluções podem ser retiradas do próprio direito internacional, que já lida com situações similares. Outras vêm da common law, disciplina jurídica comum em países de língua inglesa.
A beleza está exatamente na existência de saídas para todas essas situações. O sistema foi pensado para resolver conflitos de jurisdição, garantir proteção aos vulneráveis e manter a ordem social através de mecanismos de mercado, não de coerção estatal.
Se tudo que o anarcocapitalismo prega é obedecer um mínimo pré-definido de regras mais regras aceitas voluntariamente, todas as derivações desse mínimo indicam que só existe uma fórmula de partilha pacífica de recursos escassos: a propriedade privada jusnaturalista.
Liberdade total dentro da ética libertária
Desde que você não fira a ética libertária, pode fazer o que quiser. Pode vender o que quiser para quem quiser, usando o que achar melhor como dinheiro, desde que nenhuma das partes seja coagida. O livre mercado é decorrência lógica da ética libertária.
Ninguém pode impedir ninguém de ter, comprar ou vender armas. Da mesma forma, ninguém pode impedir o comércio de drogas. Se você não gosta desses comércios, sua alternativa é buscar uma empresa que tenha regras proibindo isso ou convencer pessoas a assinarem tais regras em sua empresa de leis privadas.
Por mais que você não goste de armas ou drogas, não tem direito de impor sua vontade a outras pessoas. Impor sua moral fere a ética libertária. O importante é pensar primeiro na ética libertária, só depois se seria melhor ou pior para as pessoas.
A visão é que sem ética libertária estamos vivendo em escravidão. Ninguém tem direito de impor regras a você, a menos que não exista absolutamente nenhuma outra forma de manter a convivência pacífica.
Questões práticas e aplicação
Você pode ser religioso e libertário? Claro. A maior parte das pessoas religiosas já segue sua fé mas não força outras a seguirem a mesma. Se não obriga outros a seguir algo que acredita, você é libertário. Pode ser funcionário público libertário? São coisas diferentes: o que você acredita ser a melhor sociedade e a organização social que existe hoje.
Muitos funcionários públicos são libertários exatamente porque trabalhar no governo os fez perceber sua total inutilidade. Pode estudar em universidade pública sendo libertário? Mesmo caso. Pode pagar impostos? Observadores libertários dizem que “imposto é roubo”, mas não querem mártires. Se achar melhor pagar para não brigar com o Estado, pague.
Pode votar sendo anarcocapitalista? Desde que não obrigue outras pessoas a fazer algo, é seu direito. Votar não legitima o Estado porque nada legitima o Estado. O Estado, por sua natureza, fere a ética libertária ao impor coercitivamente regras e jamais será legítimo.
Como resolver problemas de meio ambiente e desigualdade social? Entendemos que a ética libertária é inegociável, mesmo que piore o ambiente ou aumente a desigualdade. Não há nada que se possa fazer porque a alternativa é escravidão. E escravidão é inaceitável.
O futuro inevitável
Como implementar o anarcocapitalismo? Alguns pregam revolução ou via eleitoral, mas são alternativas pouco prováveis. Nenhuma milícia anarquista seria forte quanto um exército estatal. A população é literalmente gado, ama ser escrava de políticos. É pouco provável ganhar pela via eleitoral.
Na visão dos defensores, o anarcocapitalismo é inevitável. A sociedade caminhará naturalmente para isso. O motivo é claro: informação ampla, barata e descentralizada. Quanto mais tivermos informações sobre outras pessoas, quanto mais baratas essas informações, quanto mais cada um se torna consumidor e produtor de informação, mais tendemos a isso.
Informação descentralizada leva à perda de poder de grandes estruturas. Não só o governo fica vulnerável economicamente, mas grandes empresas passam a ter desvantagens em relação aos serviços do livre mercado. Com informações amplas surgem mais bolhas de pensamento: petistas, bolsonaristas, MBL. Cada um na sua bolha.
É pouco provável conciliar todos esses pensamentos em um único poder central aceito voluntariamente por todos. Quem vai ganhar? Quem não se importa com lados e enxerga governos apenas por sua função real: prover leis e segurança. Os governos migrarão para empresas de segurança. Você poderá escolher o governo mais custo-eficiente.
Na perspectiva anarcocapitalista, o governo já é ilegítimo por definição. Não passa de uma máfia. Assim como existe PCC e Comando Vermelho, existem governo federal, municipal e estadual. Todos são máfias que obrigam você a pagar taxa de proteção – imposto – quer você queira, quer não. Todas essas máfias perderão poder nos próximos anos.
Quer você acredite ou não na ideia, segundo seus defensores já vivemos numa transição para o anarcocapitalismo. A informação está democratizada, as pessoas questionam mais, escolhem mais. O Estado monopolista está com os dias contados. A liberdade individual encontrou no livre mercado sua expressão mais pura. Resta saber se você está preparado para um mundo onde a única lei é a que você aceita voluntariamente.
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 13/01/2026 20:08
Fontes
- Instituto Mises Portugal – Uma Breve Introdução ao Libertarianismo
- HansHoppe.com – Freedom and Property: Hans-Hermann Hoppe Talks About the Essence of Anarcho-capitalism
- Wikipedia – Princípio da não-agressão
- Revista Ágora Filosófica – A Ética da Propriedade Privada Em Murray Rothbard
- Instituto Rothbard Brasil – Anarcocapitalismo além do Libertarianismo



