Os fundadores do Google, Larry Page e Sergey Brin, estão reduzindo seus vínculos com a Califórnia. Em dezembro de 2025, os dois bilionários transferiram dezenas de empresas para outros estados. O motivo principal, segundo reportagem do GV Wire, é uma proposta de imposto sobre patrimônio de 5% que pode ser votada em novembro de 2026.
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A saída estratégica: quando bilionários reorganizam seus negócios
Page transferiu dezenas de empresas para fora da Califórnia. Segundo documentos obtidos pelo Breitbart, mais de 45 sociedades de responsabilidade limitada da Califórnia associadas a Page apresentaram documentos para se tornarem inativas ou para se transferirem para fora do estado. Brin seguiu caminho similar: conforme reportagem da Benzinga, nos 10 dias antes do Natal, transferiu ou encerrou 15 empresas da Califórnia que supervisionavam alguns dos seus interesses comerciais e investimentos.
O patrimônio combinado dos dois chega a cifras impressionantes. Segundo o Bloomberg Billionaires Index, Larry Page possui patrimônio estimado em $279 bilhões, enquanto Sergey Brin tem aproximadamente $259 bilhões. Com o imposto proposto de 5%, pagariam cerca de $27 bilhões combinados. É uma quantia que faria qualquer pessoa repensar suas estratégias financeiras.
Page já demonstrou interesse em propriedades fora da Califórnia. Segundo o Fox Business, ele adquiriu duas propriedades em Miami por um total de $173,4 milhões. A mensagem fica clara: quando há incerteza tributária, o capital busca alternativas. E quando grandes fortunas se movimentam, quem fica para equilibrar as contas públicas é sempre a classe média.
A situação não é questão de ingratidão com o estado que os enriqueceu. É uma resposta natural a políticas que podem ser interpretadas como confiscatórias. Capital não tem pátria – migra para onde encontra ambiente mais favorável.
A proposta que divide opiniões na Califórnia
A medida em debate parece simples na superfície: segundo o GV Wire, quem tem mais de $1 bilhão pagaria 5% do patrimônio. Conforme reportagem da Fortune, o imposto pode ser pago em cinco anos, com 90% dos recursos destinados à área da saúde. A teoria é atrativa. A prática levanta questões econômicas complexas.
Bilionários raramente mantêm dinheiro parado em contas bancárias. Suas fortunas estão majoritariamente em ações de empresas. Para pagar o imposto, precisariam liquidar participações. E quando grandes acionistas vendem massivamente, os preços tendem a cair. É economia básica que merece ser considerada pelos formuladores de políticas.
Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, expressou reservas sobre a medida: “Impostos mal concebidos incentivam a evasão, a fuga de capitais e distorções que, em última análise, arrecadam menos receitas.”
Por outro lado, Jensen Huang, da Nvidia, adotou posição diferente: “Escolhemos viver no Silicon Valley e quaisquer que sejam os impostos que queiram aplicar, que assim seja.” Uma posição que demonstra como há perspectivas variadas mesmo entre os potencialmente afetados.
O êxodo que preocupa analistas econômicos
A Califórnia não nasceu rica. Tornou-se próspera porque historicamente atraiu empreendedores. No início do século XX, cineastas migraram de Nova York para escapar das restrições de patentes. Criaram Hollywood em um local com menos regulamentação.
O Vale do Silício seguiu trajetória similar. Ambiente com menos barreiras burocráticas, tributação competitiva, liberdade para inovar. O resultado foram empresas como Google, Facebook, Apple, Tesla. Companhias que nasceram ali porque o ecossistema facilitava o empreendedorismo.
Agora há uma mudança de paradigma. Segundo Chamath Palihapitiya, mais de $700 bilhões em patrimônio de bilionários deixaram o estado no último mês.
Elon Musk já havia migrado em 2020. Conforme análise da Fortune, levou Tesla, SpaceX, X e The Boring Company para o Texas, possivelmente economizando $18 bilhões em impostos sobre ganhos de capital. Oracle e Hewlett Packard seguiram movimento similar. Agora é a vez dos fundadores do Google.
A Califórnia enfrenta o dilema de equilibrar arrecadação e competitividade. Quando políticas são percebidas como excessivamente gravosas, há risco de perder a base tributária que se pretendia expandir.
As complexidades matemáticas da tributação de grandes fortunas
Defensores da proposta argumentam: “São apenas 5%, e só para quem tem mais de $1 bilhão”. A cifra pode parecer modesta. Para Larry Page, com patrimônio estimado em $279 bilhões, representaria aproximadamente $14 bilhões.
A questão é: de onde viria esse dinheiro? Page não possui $14 bilhões líquidos na conta corrente. Sua fortuna está concentrada em ações do Google. Para honrar a obrigação, precisaria vender participações significativas. Quando grandes acionistas liquidam posições, há pressão baixista nos preços. Outros investidores, fundos de pensão e aposentados podem ser afetados indiretamente.
A retroatividade da medida adiciona complexidade. Segundo o GV Wire, a medida se aplicaria retroativamente a qualquer um que vivesse no estado em 1º de janeiro de 2026, com cinco anos para pagar. É uma alteração de regras após o início do “jogo fiscal”.
É por essa razão que bilionários estão reorganizando suas estruturas agora. Não é paranoia. É planejamento diante de cenários tributários incertos.
Impactos econômicos além da arrecadação
Quando grandes fortunas migram, não levam apenas dinheiro. Levam empregos, investimentos e oportunidades. Page e Brin não são apenas indivíduos ricos. São empregadores que geram milhares de vagas. Seus investimentos financiam startups que criam ainda mais postos de trabalho.
Um bilionário em Miami gasta localmente. Contrata profissionais, investe em negócios regionais. A economia de Miami se beneficia. A economia da Califórnia perde essa circulação de capital.
Peter Thiel abriu escritório em Miami no mês passado. David Sacks, capitalista de risco, se mudou de São Francisco para Austin, Texas, no final de 2025. O dinheiro do Vale do Silício está migrando para estados com políticas tributárias mais competitivas.
A Califórnia pode arrecadar bilhões com o imposto, caso seja aprovado. Mas há o risco de perder muito mais em investimentos futuros perdidos. É uma equação complexa entre receita imediata e crescimento econômico de longo prazo.
Quando grandes contribuintes migram, quem fica para pagar as contas públicas são os contribuintes de renda média. É uma dinâmica que se repete historicamente.
Paralelos com outras experiências tributárias
O Brasil enfrenta dilemas similares com suas próprias políticas tributárias. O governo federal criou imposto mínimo para alta renda. O resultado foi uma corrida das empresas para distribuir dividendos antes da lei entrar em vigor. É a mesma lógica: capital é móvel, decisões políticas são previsíveis.
A diferença é que a Califórnia tem uma economia robusta que permite absorver alguns choques. O Brasil, como economia emergente que precisa atrair investimento estrangeiro, tem menos margem para políticas percebidas como desfavoráveis ao capital.
Quando governos falam em taxar grandes fortunas, estão apostando que podem extrair recursos de quem tem alternativas de mobilidade. É uma aposta que ignora que capital não tem pátria e migra para onde há maior segurança jurídica e tributária.
A questão central não é ideológica, mas prática: políticas públicas têm consequências econômicas. E capital responde a incentivos.
Lições de política econômica
A história econômica mostra padrões recorrentes. Governos com necessidades fiscais tentam aumentar a carga sobre os mais ricos. Os ricos, quando têm mobilidade, migram. A base tributária encolhe. A pressão fiscal se transfere para as classes médias.
Page e Brin construíram o Google quando a Califórnia oferecia ambiente favorável ao empreendedorismo. Agora reorganizam suas estruturas porque o ambiente mudou. A responsabilidade não é deles – é de quem alterou as regras do jogo.
Riqueza se cria através de inovação, eficiência e satisfação de necessidades do mercado. Quando o Estado confunde arrecadação com confisco, a resposta natural é a reorganização patrimonial. É exatamente isso que Page e Brin estão fazendo.
A questão fundamental não é moral, mas econômica: quem gera valor na economia – os empreendedores que criaram empresas globais ou as políticas que buscam redistribuir o resultado desse trabalho? A resposta deveria orientar a formulação de políticas públicas.
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 13/01/2026 10:34
Fontes
- Breitbart – Sergey Brin joins Google co-founder Larry Page
- GV Wire – Google Guys Say Bye to California
- Fortune – Larry Page leave California billionaire tax
- Fox Business – Larry Page drops $173M on Miami mansions
- Benzinga – After Larry Page, Sergey Brin moves business entities
- O Globo – IR mínimo provoca corrida para distribuir dividendos


