Os investimentos de Joesley Batista na Venezuela podem custar caro ao empresário. E não é pouco dinheiro, não. A J&F, grupo controlado pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, é proprietária de poços de petróleo na Venezuela desde 2024, mas agora enfrenta o risco de perdê-los para empresas americanas que alegam serem as verdadeiras donas. Aliás, com Trump de volta ao poder, essa disputa promete esquentar.
Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em debates públicos e fontes abertas. Não afirma como fatos comprovados condutas ilegais ou ilícitas. Seu objetivo é promover reflexão crítica sobre temas de interesse público.
O problema começou em 2006
A questão tem raízes históricas profundas. Em 2006, durante o governo de Hugo Chávez, a Venezuela nacionalizou diversos poços de petróleo que pertenciam a empresas americanas. Ou seja: confiscou na cara dura. A multinacional ConocoPhillips foi uma das principais afetadas por essa expropriação socialista.
E mais: a empresa posteriormente ganhou o direito a indenizações em arbitragem internacional, mas o veredito foi sumariamente ignorado por Caracas. Afinal, quando se trata de socialismo bolivariano, contratos e decisões judiciais são apenas “sugestões”.
Agora, com a queda do regime de Maduro, Trump já declarou que todos os poços que eram de empresas americanas voltarão para seus donos originais. Para Joesley, isso representa um baita problema: ele investiu em ativos que podem não ter pertencido legitimamente ao governo venezuelano. Ops.
Há poucas informações públicas sobre a extensão, os valores ou o formato dos investimentos da J&F na área de energia na Venezuela. O que se sabe é que a operação foi conduzida com discrição total. Por que será?
A situação se complica ainda mais quando analisamos os custos de produção. O petróleo da Venezuela é extra pesado, viscoso e cheio de metais, custando cerca de 70 dólares por barril para extrair. Com o preço de mercado caindo, esse negócio não dá lucro comercial. Basicamente, é queimar dinheiro com estilo.
Trump muda o jogo completamente
A captura de Maduro pelas forças americanas mudou todo o cenário geopolítico. Ao investir em poços que podem ter sido confiscados de empresas americanas no passado, Joesley entrou em um campo minado. A justiça americana, sob Trump, vê isso como financiamento de ditadura. E Trump não é exatamente conhecido pela diplomacia sutil.
Se ficar provado que ele usou o sistema financeiro para sustentar o esquema Maduro-Lula, pode ver seus ativos congelados e encarar o FBI. Não é uma perspectiva muito animadora para quem gosta de viajar para Miami.
Trump já anunciou que as grandes petroleiras americanas entrarão na Venezuela para consertar a infraestrutura danificada. Isso significa investimento de bilhões de dólares, mas também o fim da era dos negócios obscuros no setor petrolífero venezuelano. Livre mercado voltando com tudo.
O empresário tentou se antecipar ao problema. Em novembro, Joesley esteve em Caracas tentando convencer Maduro a renunciar “antes que Donald Trump o tirasse à força”. A estratégia não funcionou. Maduro preferiu testar a paciência americana – e perdeu.
Agora, com Delsy Rodríguez no comando interino da Venezuela, Joesley e seus parceiros têm tentado falar com a presidente interina para manterem suas operações intactas, propondo parcerias e compensações vantajosas para o governo interino. Mas a força militar americana é bem diferente do poder de barganha de um empresário brasileiro, por mais rico que seja.
A nacionalização que deu errado
A experiência venezuelana serve como lição sobre os riscos da estatização de setores estratégicos. Quando Hugo Chávez nacionalizou o setor petrolífero em 2006, a promessa era de que o petróleo seria mais barato e os lucros ficariam no país. Na prática, aconteceu exatamente o contrário. Como sempre acontece.
Sem investimento privado, a produção despencou. Hoje, paradoxalmente, falta gasolina na Venezuela – país que possui uma das maiores reservas de petróleo do mundo. É como morrer de sede ao lado de um rio. A infraestrutura está deteriorada, a tecnologia defasada e a capacidade de produção drasticamente reduzida.
Por que será? Simples: nenhuma empresa séria quer investir em um país que pode confiscar seus ativos a qualquer momento. Essa insegurança jurídica criou um círculo vicioso: menos investimento, menor produção, economia em colapso. E o povo venezuelano pagando a conta, obviamente.
Trump entendeu que restaurar a confiança no setor petrolífero venezuelano passa por devolver os ativos às empresas que os desenvolveram originalmente. É uma questão de dar previsibilidade jurídica ao mercado. Conceito básico que socialistas nunca conseguem entender.
O sigilo que levanta suspeitas
Um aspecto intrigante de toda essa história é o nível de segredo envolvendo os negócios brasileiros na Venezuela. O Itamaraty decretou sigilo de cinco anos sobre telegramas diplomáticos trocados com a embaixada brasileira no país. Cinco anos! É muito tempo para esconder conversas “normais”.
Se os negócios são legítimos, por que tanto sigilo? A transparência é fundamental em qualquer democracia, especialmente quando envolve empresas com histórico de problemas judiciais no Brasil. Mas pelo jeito, transparência não é exatamente o forte desta operação.
Os negócios do grupo brasileiro no setor de energia no país vizinho permanecem pouco conhecidos do público, em razão do sigilo imposto a documentos diplomáticos relacionados ao tema. Essa opacidade alimenta especulações sobre os verdadeiros objetivos dos investimentos. E não é para menos.
A combinação de sigilo diplomático, investimentos em um regime autoritário e potencial conflito com interesses americanos cria um cenário de alto risco para qualquer empresário. Principalmente quando esse empresário já teve problemas com a Justiça brasileira no passado. Some dois mais dois.
Quando o investidor vira refém
A situação de Joesley Batista ilustra perfeitamente os riscos de investir em países com institucionalidade frágil. Quando um governo pode mudar da noite para o dia – seja por revolução, intervenção externa ou colapso interno – os investimentos ficam à mercê da sorte. É como apostar no bicho, só que com milhões de dólares.
Diferente do que acontece em países com Estado de direito consolidado, na Venezuela não existe segurança jurídica. Contratos podem ser rasgados, propriedades confiscadas e investidores expulsos sem qualquer compensação. É o paraíso socialista em ação.
A instabilidade do regime venezuelano e a captura de Maduro passaram a preocupar o ex-banqueiro, que vê seu capital atrelado a um cenário geopolítico volátil e imprevisível. Essa descrição se aplica a qualquer investidor na Venezuela. Afinal, quem investe em ditadura não pode reclamar de instabilidade.
Agora, com a mudança de poder, Joesley se encontra numa situação delicada. Não tem mais acesso privilegiado ao governo venezuelano e precisa lidar com autoridades americanas que veem com desconfiança qualquer ligação com o regime anterior. E Trump não é conhecido por perdoar facilmente.
Âmbar Energia: o esquema da conta de luz
Além dos poços de petróleo, há outro negócio polêmico envolvendo o grupo Batista na Venezuela. A Âmbar Energia, empresa do grupo, obteve em 2023 autorização do Ministério de Minas e Energia para importar eletricidade da usina hidrelétrica de Guri, na Venezuela, para abastecer Roraima. Que conveniente, não?
Críticos apontam que esse contrato de energia elétrica foi feito a preços muito acima do mercado. A diferença de preço em relação aos contratos anteriores foi repassada para a conta de luz de todos os brasileiros, especialmente os roraimenses. Ou seja: você paga a conta para sustentar os negócios de Joesley na Venezuela.
Esse modelo de negócio levanta questões sobre a origem dos recursos e o destino dos lucros. Se o preço pago pela energia venezuelana está inflacionado, quem se beneficia com essa diferença? Não precisa ser gênio para descobrir.
Para o consumidor brasileiro, é mais um custo que aparece na conta de luz sem explicação clara. Para o contribuinte, representa subsídio indireto a negócios privados em país estrangeiro. E ainda chamam isso de “livre mercado”. Que piada.
As lições para o livre mercado
O caso venezuelano demonstra por que o livre mercado é superior à estatização. Quando o governo controla setores estratégicos, a tendência é usar esses recursos para fins políticos, não econômicos. É matemática simples: políticos não sabem administrar empresas.
Hugo Chávez nacionalizou o petróleo prometendo prosperidade para o povo venezuelano. Vinte anos depois, o país vive uma das piores crises humanitárias da América Latina. A produção despencou, a corrupção se espalhou e a população empobrece enquanto dirigentes enriquecem. Socialismo puro.
Empresas privadas, por outro lado, têm incentivos reais para maximizar a eficiência e a produção. Elas precisam dar lucro para sobreviver, o que significa usar os recursos da melhor forma possível. É o tal do “interesse próprio” que Adam Smith explicou há séculos.
A intervenção de Trump na Venezuela, devolvendo ativos às empresas originais, restaura o princípio básico da propriedade privada. Sem esse princípio, não existe desenvolvimento econômico sustentável. É o ABC do capitalismo.
Para investidores brasileiros, a lição é clara: países sem segurança jurídica são armadilhas. Podem parecer oportunidades no curto prazo, mas sempre acabam gerando prejuízos no longo prazo. A Venezuela de hoje é a prova viva dessa realidade. E Joesley que o diga.
O livre mercado não é só uma teoria econômica. É a única forma conhecida de gerar prosperidade duradoura para a sociedade. Experimentos estatizantes sempre terminam em fracasso, como mostra a história venezuelana dos últimos 25 anos. Mas alguns empresários insistem em não aprender.
Diante de todo esse cenário, resta uma pergunta fundamental: quantos empresários brasileiros vão aprender com os erros de Joesley Batista, ou continuaremos vendo investimentos de alto risco em regimes autoritários? O tempo dirá. Mas apostamos que a ganância vai falar mais alto que a prudência.
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 12/01/2026 17:33
Fontes
- O Globo – Nova dor de cabeça de Joesley Batista com a queda de Maduro na Venezuela
- The Washington Post – Venezuela US Maduro capture Vatican Russia
- Revista Oeste – Joesley Batista investe em petróleo da Venezuela desde 2024
- BPMoney – Joesley Batista controla poços de petróleo na Venezuela desde 2024, sob sigilo
- ConocoPhillips – International Arbitration Tribunal Orders Venezuela to Pay $8.7 Billion



