Dois meses após a liquidação do Banco Master, cerca de 1,6 milhão de credores ainda esperam o ressarcimento de aproximadamente R$ 41 bilhões pelo Fundo Garantidor de Créditos. E agora? O Tribunal de Contas da União demonstrou insatisfação com a condução inicial do caso, criando mais um obstáculo em um processo que já estava sendo influenciado por disputas jurídicas.
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O maior resgate da história empacou — parabéns, Estado!
O caso do Banco Master representa o maior resgate da história do FGC, criado em 1995, com estimativa de R$ 41 bilhões para 1,6 milhão de investidores. Até hoje, o maior havia sido o do Bamerindus, em 1997, com cerca de R$ 20 bilhões em valores atualizados. Os números são impressionantes, mas a demora é ainda mais.
O intervalo de 50 dias já coloca o Master como o caso mais demorado desde o Banco Rural (2013), quando os pagamentos começaram após três meses. Em episódios mais recentes, o prazo foi bem menor: 27 dias no BRJ (2015) e 47 dias no Azteca (2016). A demora atual? Supera qualquer expectativa — e olha que ninguém esperava eficiência do Estado mesmo.
Para que os pagamentos comecem, o FGC precisa receber do liquidante a lista consolidada de credores, etapa que deveria levar entre 30 e 40 dias. Com a relação em mãos, o FGC precisa de apenas dois dias úteis para iniciar os pagamentos. Resultado? Os pagamentos devem ficar para 2026.
Os clientes aguardam há mais de 50 dias o reembolso, a contar de 18 de novembro. O FGC informou haver 1,6 milhão de investidores elegíveis à reposição de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. E o pior: enquanto o dinheiro está parado, ele não rende nada. Não acompanha o CDI, não corrige a inflação, não gera juros compostos. É como se o Estado tivesse colocado os R$ 41 bilhões debaixo do colchão.
TCU gera controvérsia — e quem paga é você
Segundo reportagens, ministros do TCU demonstraram insatisfação com a condução inicial do caso pelo relator. A decisão de auditar a lista de credores é vista por críticos como uma tentativa de justificar a própria relevância do tribunal mais do que uma necessidade técnica real.
A auditoria proposta pelo TCU foca nos credores com mais de R$ 250 mil para receber. O FGC garante reembolso de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, considerando valores em títulos de renda fixa como CDBs e recursos em contas. Quem tinha mais? Recebe apenas o teto estabelecido — afinal, o Estado não gosta de quem tem “dinheiro demais”.
O grande problema é que o FGC só pode iniciar os pagamentos após receber a lista completa de credores do liquidante. Até esta sexta-feira (26), o liquidante ainda não havia enviado ao FGC a relação de pessoas físicas e jurídicas elegíveis. Mesmo após receber a lista, o FGC precisa de ao menos dois dias úteis.
Há indícios de que essa auditoria seja vista por críticos como mais uma forma de protelar o processo. Hoje, o relator teria, no máximo, dois votos favoráveis, o que levaria a uma derrota por 6 a 3. O próprio tribunal parece dividido — mas não sobre a legitimidade da interferência, e sim sobre como fazer isso sem parecer óbvio demais.
O custo real da demora: seu dinheiro derretendo
Na prática, cada 30 dias de atraso equivale a algo próximo de 10% do CDI, ou cerca de 1,2% de retorno perdido ao mês. Dois meses de espera já são suficientes para comer todo o “retorno extra” daquele CDB com taxa acima da média. O prejuízo não está apenas na espera — está na corrosão sistemática do que deveria ser seu.
Para quem investiu em CDBs do Master com 120% do CDI, a rentabilidade acumulada até 18 de novembro foi de cerca de 14,94% em aplicações feitas em janeiro. Se a mesma quantia tivesse sido aplicada no Tesouro Selic, o rendimento seria próximo, porém contínuo. A vantagem inicial? Desaparece como mágica quando o Estado resolve “ajudar”.
Um CDB que pagava 120% do CDI vai receber apenas 93% caso o dinheiro seja liberado em fevereiro. Se for pago em dezembro, a rentabilidade anual despenca para 52%. Estes números mostram como o tempo — controlado pelo Estado — corrói qualquer vantagem que o produto pudesse ter oferecido.
E tem mais: o efeito do custo de oportunidade. Como o resgate pelo FGC só paga juros até o dia da liquidação, o dinheiro fica parado. Enquanto a inflação avança, o dinheiro travado perde poder de compra. É um duplo prejuízo estatal: não rende e perde valor real.
A “complexidade” questionável do processo
O Banco Central escolheu a EFB Regimes Especiais como liquidante, tendo como responsável técnico Eduardo Bianchini, servidor aposentado que atuou em liquidações do BVA e Cruzeiro do Sul. Bianchini, o FGC e BC estão acostumados a trabalhar juntos em liquidações. Por isso a demora chama a atenção de quem conhece esse mercado específico.
Pois é: mais de um mês depois da liquidação, a lista de credores ainda estava sendo elaborada. A EFB afirmou estar no processo de consolidação e validação de pessoas e empresas que têm dinheiro a receber. A justificativa técnica soa hollow quando você compara com casos anteriores muito mais simples que foram resolvidos em menos tempo.
Aliás, há indícios de que o Banco Central atuou de forma que levanta questionamentos na liquidação. Documentos mostram decisões do BC que coincidem — que coincidência! — com determinações do juiz federal responsável pela Operação Compliance Zero. A sincronia entre as ações levanta uma pergunta óbvia: independência do processo, que independência?
O escrutínio em cima do Master, com investigações simultâneas, pode estar atrasando o fechamento da lista. O envio da lista é a etapa mais demorada, e os quase dois meses é o prazo mais longo desde o Banco Rural (2013). A multiplicidade de investigações criou um emaranhado burocrático — exatamente como o Estado gosta.
Jogadas políticas em ano de governo Lula
Segundo reportagens, com aumento da pressão, o ministro Jonathan de Jesus recuou e determinou que a inspeção seja submetida ao plenário da Corte. A primeira sessão de 2026 está marcada para 19 de janeiro. O recuo? Indica que a pressão surtiu efeito — mas o estrago já estava feito.
A repercussão levou o setor financeiro a sair em defesa do BC. Agentes de mercado avaliam que a atuação do tribunal avança sobre a supervisão do sistema financeiro, atribuição da autoridade monetária. A defesa corporativa do sistema mostra o incômodo com a interferência externa — mas onde estava essa preocupação quando começaram a meter o bedelho?
Críticos apontam que essa movimentação toda tem mais a ver com proteção política do que com zelo técnico. Há alegações de que a liquidação é um “assunto controverso” no Brasil. Por sinal, até nos Estados Unidos a instabilidade jurídica brasileira virou argumento de defesa.
A situação expõe como decisões técnicas do sistema financeiro podem ser politizadas quando conveniente. Nos bastidores, integrantes do tribunal classificam a atuação do relator como “excessivamente arrojada”, sobretudo por ocorrer durante o recesso. A crítica interna revela o constrangimento — mas não a disposição de parar com a palhaçada.
O que você pode fazer enquanto espera o Estado decidir
Até que a lista chegue e o fundo inicie os pagamentos, o investidor pode garantir o cadastro no aplicativo do FGC, com dados atualizados. Se deixar para a “hora H”, o sistema pode travar por excesso de acessos. Quem já está com cadastro validado agiliza o processo.
Especialistas recomendam que investidores se cadastrem imediatamente e validem biometria e documentos, pois o volume de acessos no dia do pagamento costuma travar o sistema. “Quem já está com o cadastro validado sai na frente”, explica o planejador financeiro Jeff Patzlaff.
Para entrar na lista de pagamento, os investidores que tinham CDBs do Master devem se cadastrar no aplicativo. Depois do cadastro, a própria entidade enviará notificações com informações dos próximos passos. O processo é totalmente digital — pelo menos isso funciona sem interferência política.
E mais: o mais importante é entender que este caso representa o custo real da concentração de poder estatal. Quando órgãos públicos decidem interferir em processos técnicos por razões políticas, quem paga a conta é sempre o cidadão comum. Sempre.
A lição libertária que fica sobre risco e Estado
Muitos investidores entraram nessas emissões atraídos por taxas agressivas, com o discurso de que “vale a pena porque tem FGC”. O problema? Tempo também é risco — e esse risco raramente é precificado na hora da venda. A garantia estatal não protege contra todos os riscos — especialmente contra o risco do próprio Estado.
O cenário mais provável continua sendo o pagamento aos credores. Uma não execução seria um choque grande demais e criaria um precedente extremamente perigoso. O risco real não está no se paga ou não paga. Está no caminho até o pagamento.
Este episódio expõe como a interferência política em processos técnicos gera custos reais para o cidadão. Qualquer dúvida pode virar atraso. E o atraso custa caro. Não é incompetência — é o funcionamento normal de um sistema onde decisões técnicas viram jogadas políticas sempre que alguém acha conveniente.
A pergunta que deveria incomodar todo investidor: quantos teriam feito escolhas diferentes se soubessem que “garantido pelo governo” significa “sujeito a interferência política”? A novela do Master expõe um risco ignorado por muitos: o tempo. E tempo, no mundo dos investimentos, também é dinheiro — especialmente quando o Estado resolve brincar de deus.
Diante de tudo isso, uma reflexão libertária se impõe: até que ponto vale a pena confiar em produtos financeiros onde o governo é seu “sócio protetor”? O caso Master mostra que essa parceria pode sair bem mais cara do que muitos imaginavam. Afinal, quando você tem o Estado como sócio, você nunca sabe quando ele vai resolver mudar as regras do jogo — sempre em nome do “interesse público”, claro.
Este artigo pode ser atualizado caso surjam novos fatos ou manifestações dos citados.
Versão: 12/01/2026 15:34
Fontes
- Folha de S.Paulo – Cadê o nosso dinheiro aplicado no banco Master
- Revista Veja – TCU tem planos para auditar futura lista de credores do Master
- InfoMoney – FGC deve começar a pagar investidores
- UOL Economia – Banco Central e TCU se reúnem
- CNN Brasil – Caso Master ação de Lula
- G1 – Liquidação Banco Master
- O Tempo – Master Vorcaro escala exército



