Valores expressivos foram oferecidos a influenciadores digitais de direita para publicarem conteúdo questionando a liquidação do Banco Master pelo Banco Central. Segundo reportagens de janeiro de 2026, influenciadores relataram ter recebido propostas para compartilhar conteúdos em defesa do Banco Master contra o Banco Central. A operação, que analistas interpretam como tentativa de manipulação da opinião pública, conecta o mundo financeiro aos grandes nomes das redes sociais em momento de crise da instituição.
Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens amplamente divulgadas (com links para as fontes). Não afirma como fatos comprovados a prática de crimes ou ilícitos, nem substitui decisões judiciais. Seu objetivo é promover reflexão crítica sob uma perspectiva editorial libertária.
As denúncias que expuseram a estratégia digital
A estratégia de influenciar a opinião pública sobre o Banco Central ganhou destaque quando dois influenciadores decidiram tornar públicas as propostas que receberam. Rony Gabriel, vereador de Erechim com 1,7 milhão de seguidores, e Juliana Moreira Leite afirmaram ter sido procurados com propostas para produzir vídeos dizendo que “o Banco Master era vítima do Banco Central”.
A abordagem era profissional e bem estruturada. Os contatos incluíam cláusulas de confidencialidade e prometiam “uma boa grana” pelos serviços. Gabriel relatou ter sido procurado em 20 de dezembro por empresa que oferecia “gerenciamento de reputação para um grande executivo”.
Aqui está a beleza da informação descentralizada funcionando como deve funcionar. Diferentemente da era em que poucos editores controlavam o fluxo informacional, hoje qualquer influenciador pode denunciar tentativas de cooptação. E foi exatamente isso que salvou o dia.
Ambos os influenciadores recusaram as propostas e decidiram tornar públicos os contatos recebidos. Essa transparência criou um precedente importante: denunciar tentativas de manipulação pode render mais credibilidade que aceitar valores questionáveis.
O contexto da operação de influência
As abordagens ocorreram em momento crítico para o Banco Master. Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal em novembro de 2025, e a pressão sobre a instituição se intensificava.
O timing era calculado. A operação digital começou em dezembro de 2025, quando as investigações da Operação Compliance Zero já investigavam a emissão de títulos falsos. Era a cartada final numa mesa já perdida.
A estratégia não defendia Vorcaro diretamente – era mais sofisticada. A proposta era plantar dúvidas sobre a competência do Banco Central. Típico de operações modernas de manipulação: em vez de defender o indefensável, ataca-se a credibilidade de quem tomou a decisão.
Para influenciadores de direita, há interpretações de que se exploravam divisões ideológicas já existentes. Se conseguisse convencer o público de que o BC agiu por motivos políticos, a culpa sairia do banqueiro e migraria para a autoridade regulatória.
O crescimento artificial que precedeu a crise
O Banco Master havia crescido artificialmente nos anos anteriores. A carteira de captação saltou para R$ 45,6 bilhões em junho de 2024, mais de oito vezes o registrado três anos antes, oferecendo CDBs que pagavam até 140% do CDI.
Esse crescimento deveria ter disparado alarmes regulatórios, mas a instituição operou por anos antes da intervenção. Fontes da Faria Lima indicavam ceticismo sobre a sustentabilidade do modelo, mas ninguém esperava a liquidação pelos relacionamentos políticos de Vorcaro.
Quando o BC finalmente agiu, há interpretações de que Vorcaro teria ativado seu arsenal completo de influência. Se não conseguisse reverter através da política tradicional, tentaria através da opinião pública. Felizmente, a estratégia foi exposta antes de causar danos maiores.
A reação em cadeia na mídia digital
A revelação das propostas aos influenciadores criou constrangimento generalizado no meio digital. A partir de agora, qualquer opinião sobre temas financeiros enfrentará questionamentos sobre sua origem: análise independente ou conteúdo pago?
A situação é especialmente delicada para influenciadores de direita, que foram o alvo principal das abordagens. Muitos construíram audiências criticando a mídia tradicional por tendenciosidade. Agora enfrentam suspeitas similares.
O mais revelador são mudanças súbitas de posicionamento sem explicação clara. Criadores que criticavam determinadas instituições e repentinamente passaram a questioná-las podem enfrentar escrutínio público sobre suas motivações.
Para os próprios influenciadores, o episódio serve de lição sobre aceitar contratos questionáveis. Cláusulas de confidencialidade podem parecer intimidantes, mas não protegem quem participa de esquemas duvidosos.
Por que a descentralização ofereceu proteção
O esquema de influência falhou porque subestimou a natureza da mídia atual. Na era da informação centralizada, com poucos atores controlando narrativas, era mais difícil alguém denunciar irregularidades. Um grande veículo tradicional simplesmente não comentaria se recusasse participar de operações questionáveis.
Mas influenciadores menores têm incentivos diferentes. Denunciar tentativas de cooptação pode render mais credibilidade e audiência que aceitar valores duvidosos. Gabriel e Juliana demonstraram que transparência pode ser mais valiosa que sigilo remunerado.
A estrutura descentralizada também torna mais difícil controlar narrativas completamente. Em vez de convencer poucos editores-chefes, agora é preciso cooptar centenas de criadores. Cada um tem motivações e riscos distintos, aumentando as chances de alguém quebrar o pacto de silêncio.
O caso também mostra que transparência aumentou nas redes sociais. Os influenciadores que foram procurados não apenas recusaram como documentaram tudo, criando evidências das tentativas de manipulação. É assim que funciona accountability no século XXI.
As consequências para o mercado de influência
O escândalo pode marcar um divisor de águas no mercado brasileiro de influência digital. A revelação de valores expressivos sendo oferecidos para manipular narrativas econômicas coloca todo o setor sob suspeita.
O mercado publicitário também sentirá reflexos. Empresas legítimas que patrocinam influenciadores podem repensar estratégias. Se é possível comprar opinião disfarçada, como garantir que o público diferenciará propaganda honesta de manipulação? Confiança quebrada é mais difícil de reconstruir.
Para reguladores, o caso expõe lacunas na fiscalização de conteúdo pago nas redes sociais. Contratos de confidencialidade para ocultar a origem de narrativas sobre instituições financeiras geram questões sobre transparência e proteção ao consumidor.
A pressão por maior transparência nas parcerias comerciais deve aumentar. Influenciadores éticos sempre declaram quando recebem para promover algo – prática que pode se tornar obrigatória por regulamentação.
O que fazer contra estratégias de manipulação
Como consumidor de conteúdo digital, há defesas contra manipulações similares. Primeiro: diversificar fontes de informação. Não confie apenas num influenciador ou veículo, por maior que seja sua audiência. Compare versões, busque dados oficiais, questione narrativas convenientes demais.
Fique atento a mudanças súbitas de posicionamento sem justificativa clara. Se um influenciador sempre criticou determinado setor e repentinamente vira defensor, questione os motivos. Pressione por transparência nas parcerias comerciais.
Valorize quem teve coragem de denunciar esquemas como este. Gabriel e Juliana abriram mão de valores para manter integridade. Esse tipo de atitude merece ser recompensada com credibilidade e audiência, criando incentivos para mais denúncias.
No âmbito regulatório, é importante cobrar das autoridades investigações sobre manipulação de mercado através de redes sociais. Quantos outros esquemas similares podem estar operando? Quantas decisões financeiras importantes sofrem influência de propaganda disfarçada?
O episódio nos ensina que a batalha pela informação confiável nunca termina – só muda de arena. Ontem nas redações tradicionais, hoje nas timelines digitais. O importante é manter o senso crítico sempre afiado.
A liberdade de expressão inclui o direito de questionar quem quer nos influenciar. Este caso fracassou porque pessoas corajosas disseram não ao dinheiro questionável. Que sirvam de exemplo para futuras tentativas de manipular a opinião pública brasileira.



